Crítica | Doctor Who – Série Clássica: City of Death (Arco #105)

estrelas 5,0

Equipe: 4º Doutor, Romana
Espaço: Planeta Terra (Paris, Florença).
Tempo: 1979, 1505 e 400 milhões a.C.

O primeiro arco de Doctor Who a ser filmado fora da Grã Bretanha, City of Death é uma daquelas histórias às quais o espectador simplesmente se apaixona e não apenas porque se passa em Paris, a cité de l’amour, cujo título faz uma discreta brincadeira (cité de la mort em francês). O arco conta com um roteiro redondo ao extremo, tornando praticamente impossível não admirarmos sua estrutura, além, é claro, de trazer um aspecto da viagem no tempo ou, mais precisamente, sobre o tempo em si, visto com pouca frequência em produções audiovisuais.

Iniciamos a jornada em um planeta desolado, que posteriormente descobriríamos que se trata da Terra antes do surgimento das primeiras formas de vida, onde uma espaçonave tenta levantar voo. A nave, contudo, explode e somos transportados para 1979, ano no qual o Doutor (Tom Baker) e Romana (Lalla Ward) decidem tirar férias em Paris. Em uma visita ao Louvre, o time lord e a time lady acabam se inserindo, por acidente, em uma conspiração do Conde Scarlioni (Julian Glover, em sua segunda aparição em Doctor Who), que aparentemente está interferindo com o tempo em si, causando algumas rachaduras em virtude de seus planos secretos que envolvem o salvamento da raça Jagaroth.

É curioso como o tom mais descontraído de City of Death, muito bem delineado pela marcante trilha sonora que perfeitamente descreve o caráter da visita do Doutor e sua companheira à França, vai dando espaço para uma forte sensação de urgência. Os planos de Scarlioni, misteriosos à princípio, passam de um simples roubo para uma missão com catastróficas consequências para a raça humana e a cada minuto que se passa, o roteiro aproveita para moldar a História da raça humana. Julian Glover, no papel do vilão, nos traz uma ótima representação e conseguimos até simpatizar com ele, sentir sua angústia em ter de viver vidas separadas, mas conectadas ao longo das eras do planeta Terra.

Tom Baker, como sempre brilhante no papel do Doutor, trabalha da forma mais orgânica possível com o roteiro de David Fisher, Douglas Adams e Graham Williams (nos créditos sob o pseudônimo de David Agnew). Temos aqui um texto marcado por inteligentes diálogos que definem o humor do arco – as espertas saídas que o Doutor tenta realizar das situações que se encontra são perfeitamente recebidas pelos coadjuvantes, formando conversas fluídas e prazerosas de se assistir – de fato, mal sentimos a história passar diante de nossos olhos e, não fosse o início/ término de cada episódio sentiríamos como se assistíssemos um longa-metragem de singular coesão e coerência narrativas.

A forma como a História se entrelaça nos quatro capítulos do arco também é algo memorável. Chega a ser assustador como o Doutor, em 1505, parece estar apenas a alguns minutos de distância de Romana e do bruto detetive Duggan (Tom Chadbon), outro alívio cômico da história, em 1979. Temos aqui um uso ativo da Tardis, que não simplesmente deixa o time lord em uma localização e é esquecida até o desfecho da trama. Naturalmente, esse fator somente funciona tão bem em virtude de uma montagem excepcional, que sabe dosar o tempo em tela de cada personagem, criando uma tensão nítida quando a narrativa se divide em duas – quando estamos de um lado queremos saber o que acontece do outro e vice-versa.

City of Death tem motivo por ser tão amado pelos fãs de Doctor Who e mereceu toda sua alta audiência, por mais que essa tenha sido em virtude da greve da ITV que ocorria enquanto o arco era exibido. Temos aqui uma história coesa, orgânica, que poderia facilmente ser transformada em um filme, simplesmente tirando os cortes de início e final dos capítulos, que ainda termina com uma deliciosa piada com cameo de Eleanor Bron e John Cleese. Definitivamente um dos meus arcos preferidos da série clássica que merece ser visto por qualquer apreciador do seriado, por mais que esse somente especte a nova série.

City of Death (Arco #105) — 17ª Temporada
Direção: Michael Hayes
Roteiro: David Fisher, Douglas Adams e Graham Williams
Elenco: Tom Baker, Lalla Ward, Tom Chadbon, Julian Glover, Catherine Schell, David Graham, Kevin Flood, Eleanor Bron, John Cleese
Audiência média: 14,5 milhões
4 episódios (exibidos entre 29 de setembro e 20 de outubro de 1979)

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.