Crítica | Doctor Who – Série Clássica: Delta and the Bannermen (Arco #146)

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Equipe: 7º Doutor, Mel
Espaço: South Wales, País de Gales / Pedágio G715
Tempo: 1959 / Futuro

Primeiro arco realmente interessante da era do 7º DoutorDelta and the Bannermen mostra uma incomum luta contra a extinção. É um episódio de mudanças, onde estreia o guarda-chuva com ponto de interrogação do Doutor e onde uma das personagens inicialmente deveria substituir Mel na série. Somos apresentados a um modelo narrativo mais orgânico e menos preocupado com grandezas bobas, fazendo dessa trama cotidiana e cheia de personagens peculiares uma história de gêneros mistos. O roteiro, escrito por Malcolm Kohll, começa com uma estranha batalha entre os Bannermen e a rainha Delta mais alguns homens de sua espécie Chimeron, terminando com a fuga da rainha e um ovo de onde nasceria um novo membro da família.

Os dois principais pontos negativos do enredo são: 1) não trabalhar com uma justificativa e melhor exploração dos Bannermen ao longo dos três episódios e 2) a colocação de um bloco dispensável (que não é ruim, mas começa no nada e termina em lugar nenhum) de dois funcionários do governo vigiando a queda de um satélite. Juntos, esses dois elementos incomodam até mais que a insossa batalha na abertura, pois esta é justificada em uma das linhas de Gavrok, quando disse que percorreu o Universo em busca dos Chimeron, para matá-los. Uma pena que falte ao enredo a presença de uma estrutura maior para os vilões, que ainda passam por um dos momentos mais ridículos de toda a história de Doctor Who, quando chegam à casa do apicultor em busca de Delta, arrombam uma porta e a estante cheia de potes do produto cai sobre eles, chamando as abelhas. Simplesmente ridículo.

Todavia, a brevidade da história, o tom de nostalgia (a tentativa de visita dos Navarinos à Disney, nos anos 50, é engraçada por si só) e a composição da aventura priorizando a ação, o humor e fechando todas as janelas textuais no momento certo fazem que mesmo as coisas mais ridículas sejam de alguma forma compreendidas e abstraídas pelo espectador. Parece-nos que o episódio foi concebido como uma comédia de erros e absurdos, sugerindo a problematização da xenofobia e preservação das espécies, nas entrelinhas. Quanto a este último ponto, por um momento eu achei que Billy fosse gay, mas acontece que ele não gostava mesmo da amiga de infância. Penso que o roteiro foi bastante cruel com Ray nessa história (talvez isso tenha vindo da perspectiva de que suas tragédias pessoais ficariam para trás quando ela embarcasse na TARDIS, o que não aconteceu…) e que ela deveria ter tido pelo menos uma conversa franca com Billy para tornar o rapaz um pouco mais palatável e para que ela realmente soubesse que deveria seguir em frente de uma vez por todas. Entendo que romances são muito complicados de se trabalhar em ficção científica, mas uma atenção maior a detalhes que envolvem personalidade, sempre que esse gênero vem à tona, não cairia nada mal, não é mesmo?

Existem dois cortes para o primeiro episódio da aventura. Enquanto assistia ao segundo, tive a impressão de que o começo e o fim, apesar de mais lentos, são mais interessantes que o oficial. O restante não tem muitas coisas que chamam a atenção do público. Nas duas ocasiões, porém, os gritos desesperados de Mel voltam e, embora “justificáveis” diante do nascimento do horroroso bebê Chimeron, são claramente desnecessários. Embora o roteiro não coloque a companion em uma posição atrativa de ações aqui, ela pelo menos não é escanteada e tem simpáticos momentos no decorrer da história.

Eu tinha falado em Paradise Towers sobre o exagero e até dissociação da trilha sonora desta época da série com as coisas que eram mostradas na tela. Em essência, podemos entender isso como um cacoete de época, pois é encontrado na maioria esmagadora das séries e telenovelas da década. O que não significa que esse costume estabelecido seja bom. E não, não é. A repetição de temas musicais com base eletrônica — há sempre um tema muito cômico e outro muito dramático que enchem a paciência a cada 5 minutos, é um verdadeiro mar de mal gosto e má relação entre as partes estruturais de um episódio de TV — e a forma como eles não se ligam exatamente ao que está sendo mostrado chega a ser engraçado. Salvam-se aqui os pequenos momentos de reproduções orquestrais, esses sim excelentes — embora não compostos para a série — e a aplaudível direção de Chris Clough, que fez uma história ágil, aproveitando ao máximo os espaços externos e dando às muitas segmentações do roteiro uma boa base visual.

Mesmo com seus defeitos, Delta and the Bannermen consegue terminar bem acima da média graças a uma direção e uma montagem que fazem uma história que poderia ser decididamente muito ruim, algo de tom dadaísta com um forte discurso pró-vida. Quem diria!

Delta and the Bannermen (Arco #146) — 24ª Temporada
Direção: Chris Clough
Roteiro: Malcolm Kohll
Elenco: Sylvester McCoy, Bonnie Langford, Don Henderson, Belinda Mayne, Stubby Kaye, Morgan Deare, Ken Dodd, Richard Davies, David Kinder, Sara Griffiths, Johnny Dennis, Brian Hibbard, Tim Scott, Anita Graham, Leslie Meadows
Audiência média: 5,27 milhões
3 episódios (exibidos entre 2 e 16 de novembro de 1987)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.