Crítica | Doctor Who – Série Clássica: Dragonfire (Arco #147)

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Equipe: 7º Doutor, Mel
Espaço: Iceworld (futura Nosferatu II), na face gelada do planeta Svartos
Tempo: c. 2.000.000

Dragonfire é um arco ao mesmo decepcionante e importante para Doctor Who. Aqui estamos no limite para o encadeamento verdadeiro do “Grande Plano de Andrew Cartmel“, o editor de roteiros que na prática assumiria as rédeas criativas da série nas temporadas 25 e 26. Neste arco-limite, temos um último olhar para uma era pouco querida do show através da presença de Sabalom Glitz (The Mysterious PlanetThe Ultimate Foe) no mesmo momento em que temos a partida de Mel — trazendo um Doutor sem graça, sem saber o que fazer com o anúncio de partida da companheira — e a chegada de Ace ao time da TARDIS.

O arco tem um motor dramático enigmático, a princípio. Chegamos a uma colônia espacial chamada Iceworld (que depois saberíamos ser uma nave espacial, futuramente renomeada de Nosferatu II, por Glitz), na face gelada do planeta Svartos, e vemos uma situação de tráfico de pessoas para mão de obra ou algo parecido. À primeira vista, um arco de composição humanitária, beirando o ideal de grupos de resistência, como já havia acontecido na 24ª Temporada. Não demora muito tempo, porém, e notamos que o roteiro de Ian Briggs peca ao mudar constantemente de núcleo narrativo, criando uma porção de dramas dentro de dramas, com a intenção de tornar a jornada do Doutor e Mel mais interessante. Todavia, ele acaba metendo os pés pelas mãos porque não consegue dar conta de todas as ofertas dramáticas ao mesmo tempo.

Apresentar Ace, criar um ambiente interessante para a partida de Mel, trabalhar o vilão Kane e seus escravos, trabalhar a presença do “Dragão” e dar um bom papel para Glitz além de tornar a investigação do Doutor interessante é coisa demais para três episódios em um ambiente claustrofóbico e em certo limite de liberdade criativa. O resultado não poderia ser diferente do que tivemos aqui.

Não vou dizer que a megalomania do espaço atrapalha, porque a colônia até que recebe um tratamento da direção de arte que cabe dentro de algo aceitável, mesmo com espaços não muito úteis como o subterrâneo de cristais protegidos pelo “Dragão”. Se o “problema” aqui fosse este, então, não teríamos um problema. O impasse chega a partir do momento em que nos fazemos a pergunta: “sobre o que é esta história”? É sobre o Doutor ajudando os escravos locais? É sobre Glitz e sua busca por um tesouro? É sobre Ace sendo rebelde e explodindo coisas? É sobre Mel partindo?

E por mais que aqui e ali o roteiro nos dê uma sequência ou um momento bom, tanto em diálogo quanto em acontecimentos, estes são apenas pontos isolados diante de um mar de coisas desconexas. A princípio, a intenção era fazer algo grande em um espaço mais ou menos limitado e que desse o tom necessário para a entrada de uma personagem feminina muito forte como Ace. No fim, diante das muitas variações de drama, acabamos tendo apenas a superfície de cada uma delas, o que não é legal. Como consequência, recebemos um vilão com atitudes repetitivas (nem preciso dizer o quanto isso impede de torná-lo um bom vilão) e um funcionamento interno da colônia que é apenas uma sugestão de algo no enredo, algo que acaba se perdendo quando os conflitos de bastidores são ressaltados. Notem que uma integração de faces dessa moeda cairia muito bem à história. O autor até tenta fazer isso, de maneira cômica, no primeiro episódio e de maneira enigmática e novamente quase sem propósito, no último, através de uma garotinha. Parece que por onde a gente se vira aqui temos algo parcialmente bem feito e parcialmente mal feito.

E sobre isso, vale dizer que os primeiros diálogos de Ace, infelizmente, não são nada aplaudíveis. Por mais que tente mostrar a personagem como uma badass disfarçada de garçonete, o texto falha de maneira imediata e demora um pouco até que a terráquea que foi parar em Svartos por causa de uma tempestade temporal encontre-se em um bom lugar no desenvolvimento da história, inclusive ressaltando o papel de Mel, marcando de maneira muito interessante a diferença de comportamento entre as duas jovens.

Dragonfire é uma história que marca o fim e o início de coisas que fariam parte de Doctor Who até o seu cancelamento em 1989. É um arco com um forte ranço do passado da série e glimpses de novidades que infelizmente são sufocadas, impedindo que a aventura avance. Uma trama boa até certo ponto e um final medíocre para uma temporada nada animadora.

Dragonfire (Arco #147) — 24ª Temporada
Direção: Chris Clough
Roteiro: Ian Briggs
Elenco: Sylvester McCoy, Bonnie Langford, Sophie Aldred, Tony Selby, Edward Peel, Patricia Quinn, Tony Osoba, Shirin Taylor, Ian Mackenzie, Stephanie Fayerman, Stuart Organ, Sean Blowers, Nigel Miles-Thomas, Leslie Meadows, Lynn Gardner
Audiência média: 4,73 milhões
3 episódios (exibidos entre 23 de novembro e 7 de dezembro de 1987)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.