Crítica | Doctor Who – Série Clássica: Earthshock (Arco #121)

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estrelas 3,5

Equipe: 5º Doutor, Adric, Nyssa, Tegan
Espaço: Terra e Cargueiro Briggs
Tempo: 2526 / c. 65.000.000 a.C.

Desde a morte de Katarina — que não chegou a se tornar uma companion, mas tinha embarcado na TARDIS para ser uma — em The Daleks’ Master Plan, nenhum outro companheiro do Doutor havia morrido na série. Então chegamos às inúmeras modificações na narrativa da série durante a 19ª Temporada e o produtor John Nathan-Turner resolveu que era hora de matar alguém importante. Uma excelente escolha, por sinal, especialmente na pessoa de Adric, que desde Castrovalva foi ficando insuportavelmente chato, irritando profundamente o espectador com seu comportamento infantil, brigas desnecessárias com o Doutor e questionamentos deslocados para qualquer coisa. Sua morte tem um enorme significado para série e é triste, mas ao mesmo tempo nos deixa felizes porque o personagem não era, a esta altura da série, um bom personagem (estejam livres para discordar desse julgamento nos comentários), fator que dá à aventura um peso ainda maior.

Aqui temos o retorno dos Cybermen — mantido em segredo por JNT durante toda a produção do arco — e uma interessante premissa para justificar a extinção dos dinossauros na Terra. Todo o aspecto científico e de exploração mostrados no início da saga prepara-nos para um embate épico, embora ainda não haja indicação de que embate será este. Com referências a Alien, o Oitavo Passageiro e o estabelecimento de alguns (chateantes) conflitos entre Adric e o Doutor para depois tornar a morte do companion moralmente densa — Nyssa e Tegan chegarão a culpar ou sugerir culpa ao Doutor pelo acontecido –, o arco também serve para mostrar um pouco mais do comportamento de cada um dos tripulantes tripulantes da TARDIS. Earthshock e o episódio que o segue, Time-Flight, são uma espécie de reescrita para a era do 5º Doutor, o que acabará nos levando para o Especial de 20 anos da série e para a reta final dessa encarnação do Time Lord.

Toda a história teria um resultado geral mais positivo se, ao mesmo tempo em que pensasse na morte de Adric como um “novo começo” para o Doutor, Tegan e Nyssa, também sinalizasse alguma mudança para as personagens, que de fato veríamos acontecer nos arcos seguintes, mas não aqui. Até poderíamos atribuir o comportamento belicista e badass de Tegan na segunda metade da história como uma “mudança” em sua persona, mas percebam que se formos por este caminho, qualquer reação de um personagem para uma ameaça desconhecida ou quando exposto a uma situação de imensa pressão, torna-se-ia uma “mudança”, o que não é verdade; são as várias faces de uma mesma pessoa. Mesmo empunhando armas e sendo bem mais ativa do que nas tramas anteriores, Tegan mantém o seu nível de chatice, especialmente quando está em contato com coisas que não conhece muito bem. Os roteiristas dessa era deveriam ter aprendido como escrever bons seriais de “primeiro contato” reassistindo a todos os arcos com Jamie e o 2º Doutor!

Os melhores momentos da direção de Peter Grimwade estão na inserção dos Cybermen. Existe, inclusive, uma lembrança das vezes em que outras encarnações do Doutor lutou contra esses vilões, então aparecem clipes de The Tenth PlanetThe Wheel in Space, e Revenge of the Cybermen. Não temos clipes do 3º Doutor porque ele nunca enfrentou os Cybermen na série, embora tenha sim se encontrado com essas criaturas (em um formato de madeira) em The Blue Tooth, da Big Finish. A perseguição dentro do Cargueiro Briggs, as pequenas invasões dos Cybermen, o domínio do cargueiro, a ameaça ao Doutor e à Terra, todos esses eventos são bem concatenados e compõem a melhor parte de Earthshock, inclusive com melhor uso da trilha sonora e maiores mostras do excelente trabalho de direção de arte.

A reta final é emotiva. Como disse no começo da crítica, mesmo Adric não sendo, a esta altura da série, um personagem realmente amado e bem escrito, sua morte é chocante (existe um diabinho lá no fundo da minha mente fazendo uma piada pesada com esse “chocante”, mas enfim…) e marcará definitivamente o 5º Doutor, além de acirrar alguns conflitos já em andamento entre ele, Tegan e Nyssa. Para quem gosta de imaginar como teria sido a vida de Adric, se ele não tivesse morrido, sugiro que leia o conto A Full Life, fenomenal história alternativa escrita por Joseph Lidster para reimaginar o personagem e pensar como seria se ele tivesse vivido uma vida inteira. Mesmo gostando muito da abordagem literária alternativa, confesso que prefiro o destino trágico do personagem estabelecido aqui. O peso dessa morte, suas consequências para os vivos e para o cânone da série são grandes demais para serem ignorados.

Adeus, Adric.

Earthshock (Arco #121) — 19ª Temporada
Direção: Peter Grimwade
Roteiro: Eric Saward
Elenco: Peter Davison, Sarah Sutton, Janet Fielding, Matthew Waterhouse, James Warwick, Clare Clifford, Beryl Reid, June Bland, Steve Morley, Suzi Arden, Ann Holloway, Anne Clements, Mark Straker, David Banks, Alec Sabin, Mark Hardy, Mark Fletcher, Christopher Whittingham
Audiência média: 9,32 milhões
4 episódios (exibidos entre 8 e 16 de março de 1982)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.