Crítica | Doctor Who – Série Clássica: Four To Doomsday (Arco #117)

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estrelas 3,5

Equipe: 5º Doutor, Adric, Nyssa, Tegan
Espaço: Nave de Monarch
Tempo: 1981

Escritores deveriam ser punidos por “crimes literários”. Deveriam ser obrigados a passar meses lendo livros que odeiam, como pena por estragarem suas próprias obras, iniciadas com uma excelente promessa e execução, mas depois, mergulhadas em um mar de nonsense com coadjuvantes progressivamente insuportáveis. Se existisse uma pena assim, Terence Dudley, o roteirista deste segundo arco da 19ª Temporada de Doctor Who, sem dúvida teria sido submetido a ela. Porque seu arco Four To Doomsday tem um primeiro episódio brilhante, um segundo episódio muito bom e dois episódios finais (principalmente o último) beirando o intragável.

O Doutor está tentando levar Tegan para pegar o voo na hora certa, mas a TARDIS se materializa em uma nave espacial liderada por Monarch e seus assistentes Persuasion Enlightenment (Trindade?), originais do planeta Urbanka, que pretendiam voltar à Terra e, com os quatro grupos étnicos previamente coletados, repopular o planeta e administrá-lo sob a ótica da “ditadura do samaritano“, cuja imposição de regras e modelo de vida, mais a supressão da liberdade de expressão e escolha devem ser perdoadas diante da promessa de um mundo perfeito, sem guerras, sem fome… um planeta sob um fascismo paradisíaco. Imaginem só.

Há aqui uma sopa de ideais e ações que lembram os vilões Salamander e Scarlioni, mas as influências mais diretas do roteiro estão em 007 Contra o Foguete da Morte e na literatura do escritor suíço Erich von Däniken, famoso por popularizar as teorias de que existe influência extraterrestre na cultura humana desde os tempos pré-históricos. Ao longo dos episódios surgem ideais de eugenia, conceitos de política notadamente fascista e um bom exemplo de convencimento político, que surge quando Adric simplesmente acha bonito e certo o que Monarch estava propondo e passa a apoiá-lo. O especador até imagina que o companion estava blefando (uma de suas marcas), mas não. Isso me incomodou bastante, porque Adric não é o tipo de personagem que apoiaria esse tipo de coisa.

O texto vai bem até o final do segundo episódio, onde os conflitos de interesse estavam envolvidos em uma atmosfera crítica e um bom suspense servia como guia, escondendo intenções e convidando o Doutor e seus companheiros à investigação. Excetuando a chatíssima sequência com os grupos étnicos fazendo suas apresentações culturais — no capítulo final a coisa é simplesmente insuportável –, a primeira metade do arco não carrega tropeços na narração. Já na construção de personagens, Tegan é a menos interessante de todos, mas não é mal escrita. Isso, ela só se tornaria a partir do capítulo 3. E não há um cenário, técnico ou de relação com a personagem, que faça com que o espectador defenda essa moça com seus ataques de histeria, seu egoísmo desesperado e uma posição bipolar quanto ao trabalho em equipe. E sobre isso eu não culpo a atriz Janet Fielding, pois ela realiza um bom trabalho dentro daquilo que tinha para fazer. O problema é o tenebroso roteiro que entregaram para ela na segunda metade da saga.

Adric não é um empecilho aqui, embora no início pareça “apenas” uma criança birrenta demais. Nyssa flutua entre o questionável e o interessante, mas, do trio, ela é a que menos chateia o espectador. Já o Doutor de Peter Davison é brilhante. Volto a tecer todos os elogios que fiz a ele em Castrovalva e vou além, pois agora, com mais falas e sem os longos momentos fora de cena, por estar se recuperando, podemos ver sua participação em todo o processo de resolução do caso. Sua postura analítica combina com o tipo de aventura que ele enfrenta aqui, e imagino que isso seja usado como mote para toda a era dele na TV.

Deve-se elogiar bastante a direção de arte deste arco, pela construção e uso do cenário. Há momentos um pouco vergonhosos (como o Doutor amarrando a corda [?] para alcançar a TARDIS que Tegan, enlouquecida, materializa a alguns metros de distância), mas eles são bem poucos. Em geral, o processo visual, além do uso de figurinos e maquiagem são excelentes. Se não tivesse uma mudança do rumo central das discussões do roteiro a partir do terceiro episódio, teríamos algo muito melhor no final. No geral, é possível gostar da aventura, mas não dá para se conformar com sua queda brusca (e escolhas estúpidas) depois de um início tão incrível.

Four To Doomsday (Arco #117) — 19ª Temporada
Direção: John Black
Roteiro: Terence Dudley
Elenco: Peter Davison, Matthew Waterhouse, Sarah Sutton, Janet Fielding, Stratford Johns, Paul Shelley, Annie Lambert, Philip Locke, Burt Kwouk, Illarrio Bisi-Pedro, Nadia Hammam
Audiência média: 8,85 milhões
4 episódios (exibidos entre 18 e 26 de janeiro de 1982)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.