Crítica | Doctor Who – Série Clássica: Genesis of the Daleks (Arco #78)

estrelas 5,0

Equipe: 4º Doutor, Sarah Jane, Harry
Espaço: Skaro
Tempo: 4000 a.C.

Genesis of the Daleks perfeitamente se enquadra como um dos típicos momentos quando nossos olhos não acreditam no que veem. A origem dos clássicos vilões de Doctor Who é aqui contada pela primeira vez e é feita de forma sombria, criando fortes paralelos com o nazismo – algo inerente à própria caracterização das criaturas – e, sobretudo, trazendo importantes questionamentos que definem, de uma vez por todas, quem é o Doutor. O pesado clima que perdura por todo o arco é já introduzido na cena de abertura, que, após ter sido reescrita por David Maloney – fora considerada pesada demais para crianças pelo próprio Terry Nation, que roteiriza a história.

Essa violência, contudo, muito bem define o caráter de Genesis of the Daleks, afinal, que melhor maneira de trazer à vida um ser de total frieza que pelos horrores da guerra? Curiosamente o similar acontece com o próprio Doutor, mais especificamente o nono, claramente marcado pelos eventos da Time War, gerando o marcante momento no qual ele comemora o estado deplorável no qual seu velho inimigo se encontra em Dalek. E já entrando no grande conflito que seria idealizado por T. Davies anos depois, podemos traçar a origem dele justamente para esse ponto, com uma reveladora e assustadora conclusão: os Time Lords atacaram primeiro. O questionamento do próprio Doutor, durante o arco, então, vem à mente: se você soubesse que uma criança, quando crescesse, se tornaria uma pessoa terrível, um ditador, você conseguiria matá-la?

É interessante como a pergunta já se insere sutilmente desde o primeiro episódio da obra. Os senhores do tempo pedem (ou obrigam) o Doutor a impedir a criação dos Daleks, ou, no mínimo, descobrir sua fraqueza e prontamente ele aceita, sem pestanejar. Já vemos, portanto, o protagonista marcado profundamente pelos seus encontros passados com os vilões e através do arco Tom Baker demonstra uma verdadeira crescente angústia, visível em sua face, conforme são jogados de um lado para o outro, perdidos no conflito entre os Kaleds e os Thals, ambos profundamente enrijecidos pela guerra.

Esse enrijecimento, porém, não esconde o fato de que ambos os lados não são puramente maus. Mesmo os Kaleds, inspirados pela Alemanha nazista, demonstram uma nítida profundidade – surpreendente, de fato, já que poderiam ser retratados facilmente de forma unilateral. Dentro deles temos facções insatisfeitas com os experimentos desumanos de Davros, o assustador criador dos Daleks, Mengele e Hitler em um só. Temos homens que acreditam na criação dos vilões clássicos, mas que querem que eles contem com consciência, enquanto outros simplesmente desejam a supremacia de sua raça pura, mesmo que através de profundas mutações. Olhando para trás, seis episódios parecem pouco para construir tamanho cenário, por mais que muitos dos elementos tenham sido introduzidos lá no segundo arco da série, The Daleks.

Do outro lado do tabuleiro temos os Thals, retratados de forma quase tão fria quanto seus próprios inimigos, evidenciando a marca que o conflito deixou em ambas as raças e responsáveis, juntamente de Davros, pelo acontecimento mais assustador e chocante de toda a história, que apenas traz à tona a força da atuação de Baker, que demonstra todo o terror com o genocídio mostrado. O clima aqui atinge o auge de seu peso e a direção de Maloney é essencial, que realiza uma decupagem a fim de tornar cada morte um verdadeiro show de horrores, intercalando-as com o foco nos personagens centrais que cada vez mais são afetados pelo conflito, demonstrando-se nitidamente cansados. Elisabeth Sladen é uma das provas disso, especialmente na tentativa de fuga de Sarah Jane logo no segundo capítulo do arco. O terror de tal encontro seria magistralmente explorado anos mais tarde em The Stolen Earthprimeira parte do finale da quarta temporada da série nova.

É interessante observar como toda essa ação nitidamente causou um grande impacto para os personagens e o roteiro de Nation é corajoso ao respeitar sua criação. No fim, o Doutor não só falha em sua missão, como quase entrega em bandeja de prata para Davros a invulnerabilidade dos Daleks, oferecendo a ele informações sobre as futuras derrotas da raça. Momento, esse, crucial para mostrar o quanto o protagonista se importa com seus companheiros – algo, por vezes, esquecido graças às suas atitudes muitas vezes enigmáticas -, chegando a beira de condenar todo o universo para não vê-los sofrer. Dialogando com a oitava temporada da série nova: o Doutor é, sim, um homem bom. Algo somente reiterado pelo epílogo bastante otimista mesmo diante de todo o genocídio presenciado durante o arco.

Davros, em contraponto, é a perfeita antítese do Senhor do Tempo, talvez até mais que o próprio Mestre. Nele temos um homem da ciência, que utiliza-a somente para a destruição. Nation, porém, não permanece no óbvio, destruir por destruir e garante ao vilão uma verdadeira convicção de que somente através da supremacia de uma raça será alcançada a paz. O criador dos Daleks pode ser considerado, portanto, o primeiro deles, ao passo que as criaturas nada mais são que um espelho “aperfeiçoado” de si próprio. A ironia presente no fim do cientista deixa isso bastante claro, uma amostra do pensamento frio e calculista que solidifica perfeitamente toda a crueldade dos seres.

Genesis of the Daleks é, possivelmente, uma das melhores histórias de Doctor Who em toda sua longa duração e um lembrete definitivo do porquê tais saleiros gigantes podem ser tão aterrorizantes e o contrapeso ideal para o Doutor dentro do universo. Trata-se de um arco simplesmente obrigatório para qualquer whovian e deve ser assistido para que entendamos completamente quem são essas estranhas criaturas mutantes robóticas. Terry Nation, David Maloney e, naturalmente, todo o elenco merecem ser aplaudidos de pé.

Genesis of the Daleks (Arco #78) — 12ª Temporada
Direção: David Maloney
Roteiro: Terry Nation
Elenco: Tom Baker, Elisabeth Sladen, Ian Marter, Michael Wisher, Peter Miles, Stephen Yardley

Audiência média: 9,56 milhões

6 episódios (exibidos entre 8 de março e 12 de abril de 1975)

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.