Crítica | Doctor Who – Série Clássica: Inferno (Arco #54)

estrelas 5,0

__ I keep telling you, Brigade Leader, I don’t exist here!

__ Then you won’t feel the bullets when we shoot you.
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Equipe: 3º Doutor, Liz (+ UNIT, Brigadeiro Lethbridge-Stewart e Sargento Benton)
Era: UNIT — Ano 2
Espaço: Reino Unido / Terra paralela
Tempo: Anos 1970
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Inferno finaliza a excelente 7ª Temporada Clássica de Doctor Who, trazendo também a triste saída de Caroline John do elenco da série, infelizmente, sem a necessária despedida que a personagem deveria e merecia ter tido. Aliás, o público sequer tinha ideia de que Liz Shaw não seria mais companion. Apenas o aparecimento de Jo Grant em Terror of the Autons e algumas colocações posteriores sobre o destino de Liz trariam a triste constatação. Embora a saída dela (que deixou o Doutor porque perdeu o interesse pelo tipo de trabalho que ela tinha ao lado dele e voltou para suas pesquisas em Cambridge) não tenha sido ingrata como foi a de Dodo em The War Machines, o público realmente lamenta que a oficialização, o abraço, a conversa sobre a partida não tenham acontecido.

O lado bom da coisa é que Inferno é uma excelente história e Caroline John interpreta dois ótimos papeis. Em um, ela é a Liz Shaw que conhecemos, cientista e companion do Doutor. Em outro, ela é oficial de um governo “fascista e republicano” instalado em 1943 no Reino Unido e que assassinou toda a família real para se estabelecer no poder. Ver personagens tão humanos como Liz e o Brigadeiro (este, sem bigode, com uma grande cicatriz e um tapa-olho) atuarem como militares burocratas e “cegos” a serviço de um governo ditatorial é um verdadeiro atrativo e um ótimo exercício dramatúrgico para os atores envolvidos.

O roteiro de Inferno foi escrito por Don Houghton (que voltaria à série em The Mind of Evil), e traz mais uma uma linha de acontecimentos cujo motor é uma empresa cujo objetivo é conseguir fornecer energia barata para as ilhas britânicas. Já tínhamos visto esse mote em Doctor Who and the Silurians, com a exploração de energia atômica; e agora, com a tentativa de perfurar a crosta terrestre e ter acesso a um cinturão de gás preservado desde as primeiras eras geológicas do planeta.

O que mais chama atenção em Inferno não é a presença de uma ameaça alienígena. Existe sim uma substância gosmenta e verde (sempre verde!) que escapa de um dos canos da principal broca de perfuração e contamina qualquer pessoa que a toca, transformando-a em um Primord (humanoides criados por tocar na substância conhecida como Lodo de Stahlman). No entanto, a ameaça não está em cena o tempo inteiro. Alguns funcionários do ‘Inferno Project‘ são contaminados e assumem o fator de ameaça-monstro da aventura, mas o texto de Houghton coloca maior peso em outro núcleo dramático, o fator geológico, que poderá trazer o fim da humanidade. Plenamente científico e plenamente possível.

Assim como em The Ambassadors of Death, existe ação o tempo inteiro e, nesse caso, eu diria que a ação aqui é ainda maior. Existem uma série de coisas acontecendo ao mesmo tempo e o espectador tem uma boa dose de surpresas em cada um desses eventos. Há o Doutor com o console da TARDIS fora da nave –- como ele conseguiu tirar o console de lá é outra história –-, trabalhando em testes num lugar próximo às instalações do “Projeto Inferno”; a ameaça apocalíptica relacionada à perfuração da crosta; a contaminação e a realidade paralela com todo o seu caráter político e danação iminente. O espectador praticamente não consegue piscar ou respirar direito durante 7 episódios.

As locações em externas voltam a impressionar e ressaltam o realismo da história. Até os efeitos especiais são interessantes, especialmente o fatal destino da Terra paralela, cujo tratamento estético é exemplar: quando a situação alcança um ponto crítico, há saturação de cor e filtro amarelo na fotografia para as tomadas externas, dando a inquietante sensação de calor (o espectador realmente é convencido de que aquele lugar está um inferno) e o cataclísmico avanço da lava em direção ao galpão onde o Doutor está com alguns indivíduos desse mundo paralelo, em torno da TARDIS e Bessie, esperando o fim. Aquela é certamente uma das cenas mais marcantes da série – Clássica ou Nova – porque, além de muito bem feita, teve uma preparação dramática tremenda e conseguiu nos mostrar a amedrontadora possibilidade de destruição do planeta (o paralelo imediato que vem à mente é dos filmes O Núcleo, O Inferno de Dante, ou, num ramo sci-fi espacial, Melancolia).

O final do arco tem um amigável tom de humor e birra, ingrediente principal da relação entre o Brigadeiro e o Doutor. O espectador ri com muito gosto da situação e se sente aliviado pelo tom cômico após a densidade mortal que acompanhou durante sete episódios. A 7ª Temporada termina com um lamento, claro (a saída sem despedida de Liz), mas termina muitíssimo bem, em um dos melhores arcos que eu já tive o prazer de assistir em Doctor Who.

Inferno (Arco #54) — 7ª Temporada
Direção: Douglas Camfield
Roteiro: Don Houghton
Elenco: Jon Pertwee, Caroline John, Nicholas Courtney, Olaf Pooley, Christopher Benjamin, Derek Newark, John Levene, Sheila Dunn

Audiência média: 5,71 milhões

7 episódios (exibidos entre 09 de maio a 20 de junho de 1970)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.