Crítica | Doctor Who – Série Clássica: Logopolis (Arco #115)

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estrelas 4

Equipe: 4º Doutor e The Watcher, Adric
Espaço: Planeta Logopolis / Sussex, Inglaterra
Saga: Trilogia do Mestre
Tempo: 1981

Assim como em The Keeper of Traken, muita coisa acontece nesse arco de despedida de Tom Baker como o 4º Doutor, que enfim deixa a série, depois de uma saga de quase 7 anos, iniciada em 28 de dezembro de 1974, com a exibição do primeiro episódio de Robot. Em Logopolis, cujo roteiro escrito por Christopher H. Bidmead tem apenas um único erro imperdoável (a construção da personagem de Janet Fielding, Tegan, que aceita tudo absurdamente fácil, algo inverossímil nesse contexto), observamos uma quase-sequência dos temas abordados na Trilogia do E-Space. Além disso, existe a continuação das novas ações do Mestre, agora em novo corpo, hospedado no que fora um dia o Lorde Tremas (pai de Nyssa, que se torna companion aqui); a chamada Trilogia do Mestre, que se encerraria no primeiro arco do 5º Doutor, Castrovalva, exibido um ano depois de Logopolis.

Falando de leis da termodinâmica, de entropia e brincando com O Problema Final, de Arthur Conan Doyle, o arco coloca desde o início um ponto de perigo para o Doutor, a expectativa de que algo muito ruim estava para acontecer e que ainda no primeiro episódio o Time Lord percebe do que se trata. O cenário com os sinos da TARDIS e o bloco com a apresentação cômica e em perfeito tom dramático de Tegan (pena que isso seria estragado a partir do momento em que ela pisa os pés na nave) se juntam, formando uma comitiva inteira que se encontra no planeta Logopolis, interessantíssimo local de arquitetura à la cidades do Crescente Fértil (ponto para o desenho de produção do arco) e com um interessante conceito de aplicação matemática para construir coisas cantando números, um tipo diferente de impressora 3D, por assim dizer.

A progressiva entrada do Mestre, primeiro em ações nos bastidores, depois ativamente em cena, coroa a ameaça, principalmente porque temos o retorno de Nyssa, trazida pelo Vigia para encontrar o Doutor. Percebam que há aqui uma grande marca de continuação em relação aos eventos anteriores, mas também a construção de algo novo, duas coisas bem realizadas pelo roteiro, mesmo que não trabalhe muito bem com personagens individuais, primeiro, como já comentei, com Tegan; e o segundo, com o Mestre, que clama por mais tempo em cena, especialmente por termos novamente mais um grande ator vivendo o personagem: Anthony Ainley.

Mas o ponto mais interessante aqui, arrisco a dizer, ainda mais do que a própria regeneração do Doutor, é a criação da primeira manifestação corporal direta do Doutor, O Vigia ou Observador. Nos anos seguintes teríamos outras manifestações, como o Valeyard (o corpo de “algum momento entre a 12ª e a 13ª regeneração do Doutor), o Metacrise, ligado ao 10º Doutor (Journey’s End); o Dream Lord, ligado ao 11º Doutor (Amy’s Choice) e O Curador, ligado ao 4º Doutor (The Day of the Doctor). Importante dizer que eu não estou falando de duplos, pois nesse caso, a lista seria um tanto maior, visto que desde a sua primeira encarnação temos duplos dele, como o Doutor Robô de The Chase e o Abade de Amboise, de The Massacre of St. Bartholomew’s Eve. Refiro-me mesmo a versões em essência do próprio Senhor do Tempo, sejam boas, neutras ou más, mas sempre versões dele próprio em outras linhas e/ou realidades.

Afigura d’O Vigia torna a iminente regeneração do Doutor em algo ainda mais coberto de mistérios e o espectador não consegue segurar o suspiro ao ver que no final, a fantasmagórica figura se mixa ao corpo do 4º Senhor do Tempo, para então gerar a sua 5ª encarnação. No Universo expandido, a figura do Vigia também foi abordada, mas pouco se falou de sua origem. Presumivelmente, trata-se de uma encarnação futura do Doutor que viajou no tempo — e é sintomático que ele apareça justamente aqui, quando existem esses desajustes no Universo causados pelo aumento da entropia fora de hora — para acompanhar a encarnação do 4º Doutor após o acidente. Do ponto de vista do Vigia, isso já havia acontecido, então a coisa toda se torna um Paradoxo de Bootstrap.

A relação entre o fim dessa encarnação do Doutor e o reajuste do Universo tem um tom simbólico de grande relevância na história e isso talvez seja uma das coisas que mais marcaram a formação da encarnação seguinte, menos impulsiva e mais analítica do Time Lord.

Outro ponto a se considerar é o reencontro com o Mestre, que sempre desencadeia no Doutor um misto de emoções. Aqui, isso é visto no momento em que ele admite que precisa fazer uma parceria com seu amigo-inimigo para poder salvar Logopolis e o Universo de um cataclismo, mas também no processo de sua regeneração, onde ele vê um “desfile do passado” de sua vida, contendo as seguintes aparições:

As visões voltam para o Doutor quando ele cai e, já no chão, olha para Adric, Tegan e Nyssa e tem vislumbres de suas/seus companions desta encarnação, cada um deles em lembrança de uma aventura: Sarah Jane Smith (Terror of the Zygons), Harry Sullivan (The Sontaran Experiment), Brigadeiro Lethbridge-Stewart (Invasion of the Dinosaurs, uma aventura da sua encarnação anterior), Leela (The Robots of Death), K-9 (The Armageddon Factor), Romana I (The Stones of Blood) e Romana II (Full Circle).

Com uma era marcada por alterações de produtores — a mais dramática ocorrida no início desta 18ª Temporada, quando John Nathan-Turner assumiu a série –; editores de roteiro, equipes criativas, e, além do fato de estarmos falando de quase 7 anos de exibição, a passagem de Tom Baker por Doctor Who tem todos os motivos para ter a fama e o carinho que recebe dos fãs. De arcos deploráveis a absolutas obras-primas, dos confins do Universo aos lugares mais comuns da Terra, de vilões novos a velhos e clássicos inimigos, esta fase serviu como um carimbo final para a força do show e uma amostra de tudo o que ele poderia apresentar.

A partida do 4º Doutor é emocionante, com fortes especulações a respeito do Vigia, que se une a ele, mas não causa aquela tristeza infinita que tivemos em regenerações posteriores. Mesmo motivada por um terrível acidente e em um contexto de vida ou morte para o Universo — essa parte do roteiro é um tanto confusa, mas não impossível de entender — a mudança de corpo vem como algo natural, algo para o qual ele e também nós já se preparava, esta, inclusive, parte de suas últimas palavras: “It’s the end… but the moment has been prepared for”. Depois do fim, nos sobra a velha nostalgia, a vontade de querer voltar e ver tudo de novo e a pulsante curiosidade de ver o que este novo corpo do Doutor pode fazer. É incrível como Doctor Who consegue aplicar um pouco de sua dinâmica de mudanças constantes e aceitação de personalidades também aos fãs. A cada nova regeneração, companions e outras mudanças, nós também mudamos. E isso é simplesmente maravilhoso.

Logopolis (Arco #115) — 18ª Temporada
Direção: Peter Grimwade
Roteiro: Christopher H. Bidmead
Elenco: Tom Baker, Peter Davison, Matthew Waterhouse, John Fraser, Janet Fielding, Sarah Sutton, Anthony Ainley
Audiência média: 6,67 milhões
4 episódios (exibidos entre 28 de fevereiro e 21 de março de 1981)

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LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.