Crítica | Doctor Who – Série Clássica: Meglos (Arco #110)

estrelas 3

Equipe: 4º Doutor, Romana II, K-9 Mark II
Espaço: Planetas Zolfa-Thura e Tigella
Tempo: 1980

A era de John Nathan-Turner como produtor de Doctor Who ficou conhecida, dentre outras coisas, por apresentar uma ligação temática, por menor que fosse, entre os arcos de uma mesma temporada. A sábia decisão confortava o espectador, que às vezes imaginava ter perdido alguma coisa entre um ponto e outro, tamanha a diferença no tom do texto que partes diferentes de uma mesma temporada poderiam apresentar. É claro que isso não era uma totalidade, mas antes de The Leisure Hive, esse tipo de ligação era visto em número bem reduzido na série.

O fio narrativo deste arco é K9 II, que após entrar em curto no arco anterior, é consertado pelo Doutor e Romana, que estão completamente alheios ao perigo que correm. Em outra parte do Universo, no planeta Zolfa-Thura, uma xerófila chamada Meglos entra em parceria com mercenários e piratas espaciais conhecidos como Gaztaks (esse bando, específico, liderado pelo General Grugger) e transfere o seu corpo para um terráqueo sequestrado exatamente para este fim. A trama se segue com Meglos prendendo a TARDIS em um loop temporal (histerese crônica) e tomando a personalidade do Doutor, se passando por ele para roubar o dodecaedro que gerava a energia do planeta Tigella.

Por mais confuso que possa parecer, o espectador não terá dificuldades para acompanhar o enredo desse arco. Ele é, na verdade, bem simples e suas três primeiras partes são muito boas, perdendo fôlego e bagunçando quase tudo apenas no episódio 4.

O primeiro destaque talvez seja o visual. Utilizando um novo sistema de captura, que permitiu ao diretor Terence Dudley utilizar uma câmera mais livre, Meglos consegue mostrar alguns dos poucos momentos em que os efeitos especiais da série, mesmo estranhos se comparados aos padrões modernos (ou aos resultados bem financiados da época) são interessantes e nos fazem comprar rapidamente a ideia dos dois planetas em busca da mesma coisa. No caso de Zolfa-Thura, Meglos e os Gaztaks, o que se destaca mesmo é a parte visual. A pergunta do espectador para como os habitantes locais conseguiram construir o complexo tecnológico que ali vemos fica sem resposta e nos dá a primeira nota fora de tom do roteiro, que pretende tanto ser específico e criar tantas coisas grandiosas que se esquece de contextualizar o que é mais corriqueiro.

Já o melhor bloco dramático está entre os dois grupos que vivem no subterrâneo de Tigella, uma sociedade dividida entre os Savants, ligados à ciência e os Deons, ligados à religião. Uma pequena sombra de The Curse of Peladon pode ser sentida aqui, mas o conflito em questão é mais intenso porque a briga entre religião e ciência é declarada e os cientistas sempre zombam dos que acreditam em um deus do Dodecaedro, pavimentando o caminho para um quase golpe de Estado dado por Lexa, a líder dos Deons — interpretada por ninguém menos que Jacqueline Hill, a Barbara, da era do 1º Doutor.

Olhando bem para os simbolismos do arco, não há como não gostar da forma como a teoria grega dos quatro elementos associados a um sólido é trabalhada na aventura. Por este princípio, o elemento terra se relaciona com o cubo; fogo com o tetraedro; água com o icosaedro e ar com o octaedro. Já o dodecaedro não se classificava a um único elemento, ele era o mais enigmático dos sólidos, o mais difícil de construir e, segundo Platão, a forma-motor que Deus utilizara para construir o Universo. Vejam que há um sentido histórico/mitológico por trás da figura geométrica aqui representada e sua interação com o fornecimento de energia para a base de Tigella. Tudo, na verdade, vai muito bem, até o final do 3º episódio e todo o 4º episódio.

É um tremendo lamento perceber que uma história tão envolvente de repente nos faça revirar os olhos, seja pela morte boba de Lexa; pela resolução do impasse com o Dodecaedro ou a terrível derrota de Meglos. Ou, talvez, a rápida e meio sem nexo despedida do Doutor, chamado às pressas por Romana para a TARDIS, para atender a uma emergência de Gallifrey.

Não só os saltos temporais de um momento para outro, mas completa mudança de tom do roteiro tendem a nos irritar. A sorte é que não dá para negativizar toda a história, dado o bom começo e metade do desenvolvimento da saga. E além de tudo, é imperdível ver os efeitos toscos da máscara e luvas de Meglos utilizada por Tom Baker para fazer sua versão malvada. Assim como o 1º Doutor em The Massacre of St. Bartholomew’s Eve e o 2º Doutor em The Enemy of the World, o 4º Doutor ganha aqui uma versão fisicamente igual à sua (bem, ele fica meio “cactento” depois, mas em um primeiro momento, e no final, é igualzinho ao Doutor), mas com comportamento completamente diferente. Só por isso, Meglos já vale a pena.

Meglos (Arco #110) — 18ª Temporada
Direção: Terence Dudley
Roteiro: John Flanagan, Andrew McCulloch
Elenco: Tom Baker, Lalla Ward, Bill Fraser, Jacqueline Hill, John Leeson, Frederick Treves, Crawford Logan, Edward Underdown
Audiência média: 4,65 milhões
4 episódios (exibidos entre 27 de setembro a 18 de outubro de 1980)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.