Crítica | Doctor Who – Série Clássica: Planet of Fire (Arco #134)

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estrelas 4,5

Equipe: 5º Doutor, Turlough
Espaço: Planeta Sarn / Lanzarote, Canárias, Espanha
Tempo: maio de 1984

Este é o momento onde eu pago a minha língua. Ou os dedos.

De tanto que eu reclamei da covardia, egoísmo e outras coisas não louváveis da personalidade de Turlough, que chegou o momento de sua partida e eu lamentei bastante que ele tivesse que ir. Um, porque a história de vida dele é excelente e dois, porque seria tremendamente rico ter o personagem na TARDIS após todas essas revelações. Se pensarmos que ele estava o tempo inteiro assustado, com medo de ser capturado pelo Exército de seu planeta (o que explica, embora não justifique, seus comportamentos infames) em retrospecto, sua jornada fica ainda melhor. Demorou, mas enfim eu consegui ver coisas muito positivas em Turlough. Enfim, aprendi a gostar dele. E não foi pouco.

A produção de Planet of Fire começou de forma um tanto extra-oficial. Fiona Cumming passava férias em uma das ilhas do Arquipélago das Canárias, que pertence à Espanha mas se localiza na costa do Marrocos, enviou um cartão postal para o produtor John Nathan-Turner e ele ficou encantado com o lugar, pensando em fazer uma história na ilha de Lanzarote, que de fato seria a locação para esta excelente penúltima aventura com o 5º Doutor.

Muita coisa acontece nessa história. Primeiro, a apresentação de Peri (Nicola Bryant), que já começa muito bem. Faço questão de comparar a visão dela em relação ao que é diferente, e a visão de Tegan, e mostrar que em 20 minutos em tela, Peri desbancou a aeromoça. Tegan já havia viajado demais com o Doutor e já tinha visto de tudo. Sua rejeição a Kamelion em The King’s Demons é odiosa e quanto mais eu penso nisso, mais chateado fico com a companion. Aqui, Peri tem contato com todo um universo alien, apresenta uma compreensível e rápida reação de espanto mas logo vê que é preciso jogar com as cartas do momento e abraça a situação. Ela vê Kamelion em sua pior fase (dominado pelo Mestre) e mesmo assim tem a capacidade de ENTENDER o que aquilo significava. Uma postura que Tegan, depois de tanto tempo de TARDIS, foi incapaz de mostrar.

Uma parte do fandom chegou à ideia absurda de achar que havia a algum tipo de abuso sexual por parte do padastro de Peri. Usam inclusive um trecho do livro Trauma Pós-Guerra (Simon A. Forward, 2003) para justificar essa fala, mas não se enganem, este é apenas um caso de escolha seletiva de um trecho do livro, que não sugere NADA de abuso, por sinal. O estabelecimento oficial da série foi sempre de uma ótima relação entre Peri e Howard e não há nada mais que traga essa essa colocação, exceto a vontade de algumas pessoas em querer colocar coisas onde não existem.

A passagem de Lanzarote para o Planeta Sarn é rápida, fluída e se entrelaça como a inserção de Peri no Universo da série. O roteiro de Peter Grimwade mescla cenas de humor, partindo do Doutor, com uma camada de suspense através de Turlough, que nos parece novamente alguém temível, alguém que está “escondendo algo”. O texto também traz certos ingredientes de Duna e os relaciona com a necessidade local de acreditar em uma divindade. Tal situação será perfeitamente aproveitada pelo Mestre e criará o ponto crítico para o Doutor. Diante de tantas “frentes de balha”, Peri é jogada de um lado para outro, mas de maneira bastante positiva. Ela só parece impressionável e frágil, mas é decidida e, mesmo sem jeito de fazer algumas coisas, parte para o ataque no momento certo, ajudando muito, embora não perceba. Gosto particularmente de sua cena de biquíni fuga do Mestre-Kamelion-Howard pelos montes de Sarn e das cenas no subterrâneo, com o Mestre-Kamelion.

Todo o ambiente da civilização de Sarn é interessante, a começar pela escolha das roupas, aproximando a vestimenta dos povos do Saara (ou de regiões de desertos em geral, mas nesse caso, notadamente do Saara) ao povo da montanha no planeta-prisão para os criminosos de Trion. O desespero de Turlough aos poucos ganha espaço notável na história e nós acompanhamos a sua luta por remissão, culminando em uma atitude bastante corajosa, como chamar a nave-resgate de seu planeta mesmo sabendo que poderia ser punido ou preso. Embora ele tenha tido ações questionáveis em sua jornada na TARDIS, neste arco ele é progressivamente mostrado como herói. E não um herói qualquer.

Eu gosto muito da forma como o Mestre tenta se virar após um experimento que fazia, sair errado. Eu consigo compreender os que negativizam a história pela retratação do renegado, mas convenhamos: experimentos dão errado e em algum momento alguém, por melhor que seja, vai sair ferido (o Doutor até perdeu uma mão, como vemos em Uma Mãozinha Para o Doutor!), especialmente se seu experimento ou modo de vida são tão intensos como os desses Time Lords. Praticamente toda a história de regeneração do Doutor e do Mestre é a prova disso. Por esses motivos, não me incomodo nenhum pouco em vê-lo pequenininho, vítima de um experimento falho com o TCE (Tissue Compression Eliminator).

A escolha de Anthony Ainley em não seguir o roteiro e não dizer “brother” no final, quando está queimando, foi perfeita. Mas eu realmente achei que ele ia dizer essa palavra no final daquela frase. A suspensão no momento certo cria a ideal deixa para que o espectador entenda e pense sobre o relacionamento entre o Mestre e o Doutor, constantemente um misto de amor e ódio, vida e morte.

A despedida de Turlough é muito bem filmada. O diálogo que antecede a separação é curto, o aperto de mão breve, mas a escolha certa do motivo musical e os planos de câmera bem pensados tornaram a cena ideal. Uma saída memorável para um companheiro que entrou na série com o objetivo de matar o Doutor. Nada mal.

***

Em homenagem ao meu querido Kamelion, deixo Boy George cantando uma famosa canção dos anos 80 para vocês.

Planet of Fire (Arco #134) — 21ª Temporada
Direção: Fiona Cumming
Roteiro: Peter Grimwade
Elenco: Peter Davison, Mark Strickson, Nicola Bryant, Peter Wyngarde, Anthony Ainley, Barbara Shelley, James Bate, Dallas Adams, Gerald Flood, Edward Highmore, Jonathan Caplan, Michael Bangerter, Simon Sutton
Audiência média: 6,97 milhões
4 episódios (exibidos entre 23 de fevereiro e 4 de março de 1984)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.