Crítica | Doctor Who – Série Clássica: Planet of the Spiders (Arco #74)

estrelas 4,5

Equipe: 3º Doutor, Sarah Jane Smith + Brigadeiro Lethbridge-Stewart, Sargento Benton e Mike Yates
Era: UNIT — Ano 8
Espaço: Reino Unido / Planeta Metebelis III
Tempo: Anos 1970 (meados de março) / 5433 (?)

Arcos de despedida sempre são emocionantes. Depois de nos apegarmos a um Doutor, viajarmos com ele e seus companions pelo espaço-tempo, enfrentarmos perigos e termos o Time Lord como um herói usando um certo rosto por um certo período é sempre difícil nos separarmos dele. E claro, a partida do nosso Senhor “James Bond” do Tempo, Jon Pertwee, não foi diferente.

Com roteiro de Robert Sloman, Planet of the Spiders traz a regeneração do 3º Doutor com bases estruturais em Planeta dos Macacos, textos budistas, contos arturianos e Revolução dos Bichos (“duas pernas ruim, oito pernas bom”). É uma história que, à parte alguns momentos envolvendo as estranhíssimas aranhas, funciona bem e elenca coisas extremamente importantes para a mitologia de Doctor Who.

O Doutor vê aqui as consequências do cristal que ele roubou pegou no Planeta Metebelis III em The Green Death. A história começa mais ou menos como qualquer outra de sua Era, mas de imediato vemos algo que não se encaixa bem. Duas narrativas se alternam na tela. Na primeira, temos o Doutor e o Brigadeiro assistindo a algumas apresentações, dentre as quais a do Professor Herbert Clegg interessa ao Doutor, para suas pesquisas sobre energia psíquica. Na segunda, temos um abatido Mike Yates, agora desligado da UNIT, em um Centro de Meditação Budista, onde presencia algo muito estranho acontecer, algo definitivamente alienígena.

Até esse ponto, o texto caminha fluído, sem tropeços. As narrativas se encontram com a entrada de Sarah Jane em cena e as citações a elementos da fase do 3º Doutor começam a aparecer na tela. Primeiro, a mais ou menos recente saída de Yates da UNIT, após o evento com a Operation Golden Age, em Invasion of the Dinosaurs. Na sequência, um pacote contendo o tal cristal de Metebelis III é mandado por Jo Grant, e é a partir dele que cenas de Carnival of Monsters aparecem na tela. Desde a aventura anterior uma série de coisas relacionadas a vida, morte e laços humanos eram trazidas à tona de forma sutil, coisas que aqui são colocadas de maneira bastante coerente. Todas as referências estão bem relacionadas com o momento em que surgem e se adequam perfeitamente bem à história.

À medida que as duas narrativas iniciais se afunilam e mais referências vão aparecendo, o arco ganha ares épicos. A aparição da civilização de humanos em Metebelis III foi definitivamente uma grande surpresa, porque à primeira vista era um lugar habitado apenas por aranhas gigantes. Talvez para ampliar o poder de ação do Doutor ou até mesmo criar um senso de proximidade do público com o drama em desenvolvimento, o autor procurou manter uma base humana ameaçada e a questão do arrependimento e dos laços de amizade a maior parte do tempo ativas. Há uma pequena camada política na trama do Conselho das Aranhas, que veneram uma entidade chamada The Great One e não são muito simpáticas em relação à sua rainha, mas essa parte é de menor importância para a história inteira.

A parte final da aventura é bastante intricada. O Doutor está o tempo inteiro em movimento, resolvendo pequenas coisas em todos os lugares e nem percebemos, ao menos num primeiro momento, que ele pressente o que está por vir. Quando seu primeiro encontro com The Great One acontece ele sente — talvez pela imediata interferência dos cristais sobre o seu corpo, o que nos lembra a trama de The Tenth Planet — o resultado futuro, daí vem o seu medo. O mesmo medo que ele deverá enfrentar pouco tempo depois.

Se excluirmos a direção dos blocos com o Conselho das Aranhas, podemos dizer que o trabalho de Barry Letts foi incrível nesse arco. Existe uma longa sequência de perseguição que é deliciosa (e engraçada) de se assistir e a já abordada narrativa paralela que consegue se manter ativa e bem estruturada até o final.

Pela primeira vez ouvimos o termo regeneração na série; pela primeira vez ouvimos o nome do Doutor Sullivan (que em Robot seria apresentado e se tornaria companion do 4º Doutor, junto com Sarah Jane, que continuou) e pela primeira vez vemos um tutor/mestre do Doutor, K’anpo Rimpoche (ou O Eremita), que foi citado por ele em uma conversa com Jo Grant, enquanto estavam acorrentados em Atlântida, no arco The Time Monster.

Planet of the Spiders é um arco sensacional. Não é perfeito, mas possui uma história bem construída, sempre de olho nas relações humanas e nas ações do Doutor em um momento de grande crise em sua vida. De Time Lord exilado a Time Lord livre para viajar pelo Universo, o 3º Doutor encontrava agora o seu fim pela exaustão do corpo. Sua regeneração foi simples — boa escolha do diretor em mesclar objetividade e emoção –, um pouquinho cômica (a clássica frase “Well… Here we go again” é pronunciada pelo Brigadeiro) e com uma promessa certeira de K’anpo Rimpoche, que “dá um empurrãozinho” para que tudo ocorra bem: “vocês podem estranhar o comportamento errático dele“. Em apenas 5 minutos de Robot, a primeira história do 4º Doutor, entendemos perfeitamente o que ele quis dizer.

A Era do 3º Doutor trouxe inúmeras mudanças para Doctor Who. A fixação no presente, devido ao exílio; o contato firme com a UNIT estabelecido desde Spearhead From Space; a exibição de Inferno, uma das melhores histórias de toda a série; a criação do Mestre em Terror of the Autons e a passagem de três incríveis companions (Liz, Jo e Sarah) e dois carros (Bessie e o Whomóvel) fizeram desse período um dos mais verossímeis e ligados ao cotidiano do público na Série Clássica até aquele momento, além de trazer melhoras substanciais no nível de produção — vide o esforço da equipe técnica em arcos como Death to the Daleks e esse próprio Planet of the Spiders — escrevendo uma página não só com mudanças de conteúdo e conceitos, mas também na forma de fazê-lo. Como sempre, Doctor Who acabava uma fase de plena atualização. E estava prestes a iniciar uma outra, bem mais longa…

Planet of the Spiders (Arco #74) — 11ª Temporada – Season Finale
Direção: Barry Letts
Roteiro: Robert Sloman
Elenco: Jon Pertwee, Elisabeth Sladen, Nicholas Courtney, Richard Franklin, John Levene, George Cormack, John Dearth, Gareth Hunt, Terry Walsh, John Kane

Audiência média: 9,02 milhões

6 episódios (exibidos entre 4 de maio e 8 de junho de 1974)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.