Crítica | Doctor Who – Série Clássica: Remembrance of the Daleks (Arco #148)

Equipe: 7º Doutor, Ace
Espaço: Shoreditch, Londres
Tempo: Novembro de 1963 / 4663

Estreando a 25ª e penúltima temporada da Série Clássica de Doctor Who, Remembrance of the Daleks é a primeira grande história com o 7º Doutor, iniciando uma série de coisas importantes para o cânone do show e mesmo para a personalidade deste Time Lord. Além de termos a verdadeira primeira aventura com Ace como companion, temos o início das ações manipulativas do Doutor — deixando um pouco para trás a versão apenas cômica e desajeitada que ele tivera na 24ª Temporada –, o retorno de Davros, a exposição do esqueleto das vítimas dos Daleks e o final do arco/evento chamado Guerra Civil entre os Daleks Renegados e Imperiais, originando-se, em termos de constituição de mutações dos guerreiros de Skaro, no arco Genesis of the Daleks, com um outro momento de abertura para variações de evolução após a saída de Davros da animação suspensa, na história Destiny of the Daleks.

Dava-se início ao Cartmel Masterplan, um conjunto de ideias levadas a cabo pelo editor de roteiros (e praticamente verdadeiro showrunner da série nas temporadas 25 e 26), que tinha por objetivo trazer para DW um grande conjunto de mistérios em torno do Doutor, explorando mais o seu passado, a sociedade dos Time Lords, alguns mitos e dúvidas deixadas para trás no decorrer de toda a série. Pela primeira vez alguém da produção em Doctor Who abria algumas portas de paradoxos temporais sem medo, elencando situações que, como esta história com os Daleks, utilizavam-se de situações que o público já conhecia para criar uma base sólida de dados na qual se apoiar para lançar algumas novidades.

Estamos em Londres, no ano de 1963, possivelmente pouco depois de o 1º Doutor ter sequestrado os professores Ian e Barbara da Coal Hill School, com o intuito de proteger sua neta, então aluna daquela escola. Nem o público, nem Ace sabem o verdadeiro motivo da presença deles naquele lugar e é só algum tempo depois que o próprio Time Lord fala que estava sendo seguido pelos Daleks e que havia deixado “negócios inacabados” ali.

Sylvester McCoy encarna com muito mais gosto e excelência essa variação manipulativa do Doutor que progressivamente vemos aflorar no decorrer do arco. O roteiro de Ben Aaronovitch não se deixa impressionar pela boa ideia e não joga as coisas aos borbotões para cima do espectador, com o perigo de descaracterizar o Doutor e influenciar negativamente os outros personagens, especialmente em Ace, que entra de maneira interessante na saga, com uma participação sem nenhum anacronismo, sendo tratada pelos locais como era tratada uma mulher londrina dos anos 60 e, ainda bem, mantendo a variação rebelde que nos mostrou desde Dragonfire, desobedecendo ordens e assumindo o controle, mesmo que temporário, de algumas boas situações. Neste ponto também é válido destacar a presença da professora Rachel Jensen, Conselheira Científica do grupo chefiado pelo Capitão Ian Gilmore, uma espécie de UNIT, sendo o próprio Gilmore um reflexo do Brigadeiro L.S., algo que não escapa ao Doutor, que chama Gilmore de “Brigadeiro” em dado momento da história.

Rachel e sua assistente Allison Williams são personagens muito interessantes, assim como o Sargento Mike, que inicialmente é colocado como um interessante romântico para Ace — e seria uma junção interessante, por tudo o que se havia mostrado do personagem até então –, até que sua verdadeira face se mostra. Curiosamente os personagens menos interessantes da trama são os do lado vilanesco, primeiro Ratcliffe, com sua sede de poder a qualquer custo e depois a criança que estava sendo manipulada pelos Daleks para servir de planejadora imaginativa para a obtenção da Mão de Ômega, uma excelente estratégia dos Daleks para eliminar um de seus maiores erros que é a manutenção de planos que não contam com o fator humano.

Mas o mais interessante é que no meio de tudo isso o roteiro consegue colocar uma forte e bem localizada crítica à segregação racial e todo tipo de preconceito em relação à constituição física de um outro indivíduo, isso aparecendo de diversas formas na história, desde uma plaquinha em uma pensão onde se lê “Proibida a Entrada de Pessoas de Cor” até a fala de um barman para o Doutor sobre o tráfico de escravos (em uma conversa que também serve de alegoria para o Efeito Cascata) e a engraçada e “quase sem querer” politizada explicação de Ace para a guerra entre essas duas facções de Daleks (Imperiais e Renegados), terminando com a icônica frase: “eles odeiam os cromossomos uns dos outros. Resultado? Guerra até a morte!”.

O mais interessante é que essa veia crítica está perfeitamente aglutinada a uma trama de ação cheia de referências à era do 1º Doutor e com elementos das aventuras terráqueas do e tudo aquilo que conhecemos do exílio do 3º Doutor na Terra. A direção de Andrew Morgan se aproveita de anos de exemplos anteriores e faz uma coerente relação entre a presença e ação do Doutor ao lado dos soldados, lutando contra uma força que desconhecem e contra quem certamente estão em desvantagem. O final não poderia ser mais marcado por melancolia, mas este foi o sentimento correto para uma trama com essa linha de ação e ideias discutidas. Uma excelente história com os Daleks onde o protagonismo é humano, divido com o Doutor e com Davros apenas na parte final.

A destruição de Skaro aqui foi questionada e discutida por um tempo, até que John Peel resolveu o problema em War of the Daleks ao revelar que o planeta destruído na trama não foi Skaro e sim Antalin. Este ainda não foi o fim do lar dos Daleks, embora os envolvidos nesta guerra achassem que sim. Nada como ter um mestre estrategista de 900 anos manipulando informações para se ver livre de seus inimigos em diversos níveis e por um bom tempo, não é mesmo?

Remembrance of the Daleks (Arco #148) — 25ª Temporada
Direção: Andrew Morgan
Roteiro: Ben Aaronovitch
Elenco: Sylvester McCoy, Sophie Aldred, Simon Williams, Dursley McLinden, Pamela Salem, Karen Gledhill, George Sewell, Michael Sheard, Harry Fowler, Jasmine Breaks, Peter Hamilton Dyer, Hugh Spight, John Scott Martin, Tony Starr, Cy Town, Roy Skelton, John Leeson, Royce Mills, Brian Miller, Peter Halliday, Joseph Marcell, William Thomas, Derek Keller, Terry Molloy, Hugh Spight
Audiência média: 5,35 milhões
4 episódios (exibidos entre 5 e 26 de outubro de 1988)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.