Crítica | Doctor Who – Série Clássica: State of Decay (Arco #112)

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estrelas 2,5

Equipe: 4º Doutor, Romana II, K-9 Mark II e Adric
Espaço: “Planeta Vampiro” (E-Space)
Saga: E-Space Trilogy
Tempo: Século 32

Pois vejam só para onde o Sr. John Nathan-Turner levou a série depois que assumiu como produtor executivo e mudou uma porção de elementos visuais por puro capricho, se esquecendo, como eu já havia levantado na crítica de Meglos, de investir no que realmente importava: tramas inovadoras e interessantes. Sua boa fase viria depois. Neste começo, não dá para defendê-lo…

State of Decay continua a saga dos tripulantes da TARDIS pelo E-Space, que chegam ao “planeta vampiro” e encontram uma estranha situação de servidão e decadência social que em pouco tempo deveria levar aquela civilização ao colapso. O roteiro de Terrance Dicks elenca muitos ingredientes góticos e faz uma soberba crítica social nos dois primeiros episódios, que funcionam igualmente bem em termos de diversão e suspense, separando o Doutor e Romana de Adric, que sai para explorar sozinho o local após ter se escondido na TARDIS ao final de Full Circle.

Se tivesse parado no episódio 2, State of Decay seria um arco maravilhoso. Mas então se seguem os episódios 3 e 4 e tudo o que o espectador consegue fazer é revirar os olhos para as tenebrosas atuações dos “Três Que Governam” (Aukon, Camilla, Zargo), com a péssima inclusão do Rei Vampiro refugiado no subsolo da Torre (na verdade, três naves batedoras da Terra juntas) e com o Doutor agindo nesse cenário com um plano que tenta juntar as peças do que ele conhece, acredita e sabe existir como lendas bizarras que não precisavam aparecer nesse momento da série. Particularmente gosto muito da mitologia de vampiros e sim, eles são muito bem-vindos em Doctor Who, mas não em um contexto desses.

Uma coisa não se pode negar, Terrance Dicks de fato fez uma enorme e valiosa pesquisa para poder escrever a história. Estão mais que óbvias as referências ao Conde Drácula (K9 cita o personagem), aos filmes O Beijo do Vampiro (1963) e O Circo do Vampiro (1972) e comportamentos típicos desse universo das sombras como assassinatos cruéis (aqui, até as crianças são sugadas), castelos assustadores, hipnose, morcegos, poderes cinéticos, moradores locais assustados alertando visitantes, etc. Pelo menos esses elementos garantem um pedaço da diversão do espectador que gosta e conhece bem o gênero, pois vai reconhecer as referências e entender, em parte, a intenção do roteirista e da produção do arco. Isso, porém, não é o bastante para aceitar um tipo de “ressurgimento de uma antiga Besta” como elemento válido para a história que falava de proibição de conhecimento ou de tecnologia e sociedade decadentes. É como se tivéssemos duas histórias em uma. Não tinha como dar certo. E sim, metade desse insucesso se deve à megalomania de John Nathan-Turner, o mais onisciente showrunner de toda a Série Clássica.

Mas o que mais me impressionou aqui foi a concepção para a personagem Camilla. Inspirada do romance de mesmo nome escrito por Sheridan Le Fanu, em 1872 (um marco da literatura gótica), a personagem, de clara inclinação homossexual, praticamente devora Romana com os olhos e insiste em sugar seu sangue, chegar perto dela, tocá-la. Na mesma linha, vemos quase toda a cartilha das vampiras [homoerotizadas] do diretor francês Jean Rollin representadas aqui. Mesmo vendo com extremo desagrado a atuação da atriz Rachel Davies e dos outros atores, inclusive Tom Baker, a partir do episódio 3, não posso deixar de laurear esses elementos de construção temática do roteiro. Quem dera eles estivessem em uma história melhor!

Ainda não temos aqui um panorama verdeiro do que pode ser Adric como companion. Parte das cenas dele são… paradas demais e não creio que essa representação seja de todo culpa do ator. Um bom diretor teria orientado uma abordagem levemente mais ativa, especialmente no final, quando o vemos praticamente recitar suas falas, tal qual um jogral mal ensaiado.

A tenebrosa ideia (e execução!) da nave que sobe e se finca no coração do Rei Vampiro é um desafio ao bom senso. Depois de ter visto TODOS os arcos produzidos pela série desde a sua estreia até o momento, eu posso afirmar que dentre as cinco coisas mais estúpidas e mal realizadas há, com certeza, esse plano do Doutor. E o mais bizarro é que ele, os governantes, Romana e Adric estavam na mesma câmara onde se escondia o bicho e não são sequer ameaçados pelo tremor, por nada. Não há praticamente nem rochas espatifadas! É nessa hora que eu sinto que fui injusto com The Web Planet (só que não. Dei esse exemplo apenas para pegar outra coisa péssima da série e fazer um comparativo…).

Com ótimo início (apenas episódios 1 e 2), boas referências vindas do cinema e da literatura góticas e um enorme potencial desperdiçado, State of Decay é de uma mediocridade lamentável. E isso é ainda mais assustador porque estamos falando do meio da temporada, a última do 4º Doutor, que certamente merecia um melhor ano final. Que saudades do produtor Graham Williams! Partimos agora para o desfecho da estadia do Time Lord e seus companions no E-Space. Vejamos o que Warriors’ Gate nos reserva.

State of Decay (Arco #112) — 18ª Temporada
Direção: Peter Moffatt
Roteiro: Terrance Dicks
Elenco: Tom Baker, Lalla Ward, Matthew Waterhouse, Emrys James, Rachel Davies, William Lindsay, Clinton Greyn, Rhoda Lewis, Thane Bettany, Iain Rattray, Arthur Hewlett, Stacy Davies, Dean Allen, Stuart Fell, Stuart Blake
Audiência média: 5,22 milhões
4 episódios (exibidos entre 22 de novembro e 13 de dezembro de 1980)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.