Crítica | Doctor Who – Série Clássica: Terror of the Vervoids (Arco #143c: The Trial Of A Time Lord)

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estrelas 3,5

Equipe: 6º Doutor, Mel
Saga: The Trial Of A Time Lord
Espaço: Nave Espacial dos Time Lords / Nave Hyperion III
Tempo: 16 de Abril de 2986

No momento em que Terror of the Vervoids foi produzido, a relação entre John Nathan-Turner, o showrunner de Doctor Who na época, e o editor de roteiros, Eric Saward, estava cada vez mais complicada. A contratação da atriz Bonnie Langford para interpretar a nova companion do Doutor não foi bem recebida nos bastidores e apenas JNT via com bons olhos a adição de Bonnie à série, primeiro pelo fato de ser uma atriz conhecida no Reino Unido, devido sua participação na série Just William (1977 – 1978) e no programa musical/de dança The Hot Shoe Show (1983 – 1984); segundo, porque ela apresentava um grande contraste em relação às companheiras recentes do Senhor do Tempo, tanto em nacionalidade (novamente uma britânica desde Sarah Jane) e em personalidade, não só vestindo a carapuça da “donzela em perigo” mas mostrando fortes traços feministas, além de uma propensão típica dos anos finais da década de 1980, que foi a febre  fitness.

Com efeito, o momento em que Mel aparece com o Doutor na TARDIS, a sensação é de que perdemos anos e anos de Doctor Who e estamos voltando inadvertidamente para a série. O único foco que nos prende a uma sequência da temporada é o julgamento do Doutor, que apresenta aqui uma aventura do seu próprio futuro. É particularmente curioso que JNT tenha permitido um roteiro que abordasse algo que estava no futuro do Doutor, e em termos de comprometimento do personagem, torna-se intrigante vermos que o Time Lord não pensou duas vezes em usar algo “diferente” para a sua defesa. Talvez ele imaginasse que o Valeyard (ou quem quer que estivesse manipulando a Matrix) não iria mexer naquelas memórias, mas ele estava enganado. O final desse arco torna tudo ainda mais difícil para o Doutor, agora acusado de genocídio.

Ver Mel colocando seu amigo para fazer exercícios (“eu estou preocupada com a sua cintura!“), exigindo que ele bebesse suco de cenoura e impedindo que ele comesse um lanchinho na Nave Hyperion III realmente mostra uma mudança de personalidade no Senhor do Tempo, digo, no tratamento em relação à sua companion. A parceria do tipo “morde-e-assopra” que ele tinha com Peri agora é transformada em uma parceria DE VERDADE, com ambos os lados falando, sugerindo, agindo e tendo voz e motivações ao longo de toda a história, o que nos faz dar um voto positivo para o casal Pip e Jane Baker (autores do bom The Mark of the Rani), por criarem Mel com essa audácia e energia tremendas. Outra coisa que percebemos de diferente aqui é a postura do Doutor em relação às coisas que estão à sua volta. Ele ainda mantém o lado orgulhoso e “ignorante” típico dos Time Lords, mas parece ceder mais do que estava acostumado, o que nos faz pensar em todo o cenário e brecha que poderia ser preenchido para explicar e justificar essa mudança de comportamento.

Neste arco, o julgamento se torna ainda mais artificial, talvez porque não existe alteração alguma no cenário e a história de ligação para a temporada foi temática, não de caráter nuclear, ou seja, um só evento abarca o serial inteiro, mas este evento se mantém inalterado, dando corda para o “enforcamento final”, no último arco, uma escolha pobre, mas que, pensando bem, não tinha alternativa melhor dentro dessa proposta de julgamento. Não com a perseguição que Doctor Who tinha de sua própria produção a essa altura.

O design dos Vervoids é verdadeiramente aplaudível, principalmente a parte do “rosto”. O corpo não impressiona tanto, mas ainda assim mantém o vilão interessante e me fez lembrar da concepção de Alan Moore para o Monstro do Pântano, que curiosamente estava sendo publicado nesse mesmo período, nos Estados Unidos. A espécie vegetal de formato humanoide que age por instinto ganha um julgamento ético e moral completamente diferente aqui, algo muito maior do que o simples “vilão assassino”. Mesmo que a base de Agatha Christie que os autores trouxeram para o roteiro (os livros E Não Sobrou Nenhum e Assassinato no Expresso do Oriente, principalmente) sugira essa culpa imediata, a reflexão final do Doutor nos faz pensar as ações dos Vervoids de uma maneira completamente diferente. Ainda é interessante destacar a interação entre as distintas espécies a bordo e o fato de o Doutor conhecer, de aventuras passadas, duas das pessoas que encontra na nave. E falando desse espaço cênico, destacamos o interior, com um ótimo trabalho da equipe de direção de arte.

A apresentação sem detalhes de Mel poderia ser um tiro no pé, mas acabou sendo algo interessante. A companion é rejeitada e odiada por muitos, por conta de sua voz e postura ultra-alegre, mas acho que foi uma boa escolha, uma tripulante da TARDIS completamente diferente de todas as que já estiveram lá, ao menos na TV, até essa altura da série. É de se imaginar como teria sido interessante se ela pudesse viajar mais com o Doutor, tendo uma nova direção nos roteiros, algo que infelizmente não foi possível. Semanas antes deste arco ir ao ar, Colin Baker foi informado de sua demissão da série, algo que, obviamente, enfureceu o ator. Na mesma época, o criador de Doctor Who, Sydney Newman, contatou os chefes de produção da BBC exigindo que seu nome constasse nos créditos dos episódios e, mais tarde, em uma infrutífera e hostil reunião com Jonathan Powell, discutiu sugestões previamente enviadas para o escritório do controlador da série, Michael Grade, como:

  • Retorno de Patrick Troughton como Doutor;
  • Trama para as temporadas seguintes que possibilitasse a regeneração do Doutor em um corpo feminino;
  • Companheiros como um garoto trompetista de 12 anos e seu irmão grafiteiro de 18 anos;
  • O Doutor novamente incapaz de controlar a TARDIS;
  • Aventuras centradas mais na Terra do que fora dela, explorando cenários que envolvesse a NASA, o UGM-27 Polaris, um encontro com Cristóvão Colombo e uma aventura em que a TARDIS fosse miniaturalizada, como em Planet Of Giants.

Mesmo diante da boa notícia de que a série seria renovada para a 24ª Temporada, JNT foi obrigado a engolir a demissão de Colin Baker (algo que ele odiou) e as preparações para a temporada seguinte do show se tornaram mais birrentas, com inúmeros conflitos de interesses nos bastidores e muita, muita ideia diferente para que o programa voltasse a fazer sucesso.

Terror of the Vervoids: The Trial Of A Time Lord (Arco #143c) — 23ª Temporada
Direção: Chris Clough
Roteiro: Pip Baker, Jane Baker
Elenco: Colin Baker, Bonnie Langford, Michael Jayston, Lynda Bellingham, Honor Blackman, Michael Craig, Denys Hawthorne, Yolande Palfrey, Malcolm Tierney, David Allister, Tony Scoggo, Arthur Hewlett, Simon Slater, Sam Howard, Leon Davis
Audiência média: 5,08 milhões
4 episódios (exibidos entre 1º e 22 de novembro de 1986)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.