Crítica | Doctor Who – Série Clássica: The Android Invasion (Arco #83)

estrelas 5,0

Equipe: 4º Doutor, Sarah Jane Smith
Espaço: Devesham, Reino Unido / Planeta Oseidon
Tempo: Anos 1980

Segunda de duas histórias de Terry Nation que não aborda os Daleks (a outra foi The Keys of Marinus), The Android Invasion mostra que o autor também sabia trabalhar fora do universo de suas próprias criações sem ter que recorrer a planos completamente malucos como sua anterior empreitada em Marinus. Aqui temos os Kraals em uma jornada para invadir a Terra, que é bastante semelhante ao seu planeta natal, Oseidon, contaminado por radiação, por isso, cada vez mais difícil de sustentar vida. Pelo modo como é colocado no texto, trata-se de um processo irreversível por qualquer tipo de tecnologia (o que é aceitável) a curto prazo, daí a busca da espécie por outro lugar para recomeçarem sua civilização.

Percebam que os roteiros de Nation sempre expõem indivíduos ou espécies inteiras buscando sobreviver a qualquer custo. O caso extremo disso são os Daleks, claro, mas aqui em The Android Invasion a proposta de conquista é perfeitamente plausível dentro de um cenário onde um povo luta contra a extinção. Tudo bem que isso não é novo em Doctor Who e nem um privilégio dos textos de Nation, basta lembrarmos da primeira vez que os Cybermen apareceram na série, em The Tenth Planet; mas o autor conseguiu juntar os melhores ingredientes desse cenário e visitar o gênero que ele tanto apreciava, baseando a trama nos princípios do conto Tunnel Under the World (1955), no livro Mulheres Perfeitas (1972) — aquele mesmo adaptado para o cinema em 2004, com Nicole Kidman no elenco — e no filme Vampiros de Almas.

Essa base permitiu ao autor fazer dos dois episódios finais um interessantíssimo jogo de “quem é quem?“, tornando a última aparição de Benton e Harry na série uma despedida para ficar na memória. Se bem que não existe, de fato, uma despedida. O Doutor, como literalmente dito em Pyramids of Mars, não se sentia mais tão confortável em estar rondando o QG da UNIT e esta 13ª Temporada é uma espécie de “últimos momentos não plenamente assumidos” dele junto à organização, ao menos nessa fase de sua vida. E que maneira melhor de viver um desses últimos momentos com uma crise de identidade, seja no plano puramente psicológico, seja na réplica de sua própria persona, pensando sinteticamente e agindo de maneira completamente diferente? A ironia da pergunta combina com a abordagem de Nation para o roteiro, que é entretenimento puro.

O início da história é mais sombrio que o seu desenvolvimento, com um clima de terror no ar (lembra um pouco essa “chegada de alguém estranho” em O Homem de Palha) que vai aos poucos se diluindo ao enredo principal, já comentado aqui. A constituição dos Kraals é bem feita, tanto na máscara e corpo quanto nas motivações. Em um momento ou outro eles podem parecer meio bobos, mas eu consegui relevar isso diante do corpo do arco, que dá sentido a esse comportamento. O mesmo vale dizer do trabalho de desenho de produção, que é soberbo. Desde a outra aventura de Terry Nation com o 4º DoutorGenesis of the Daleks, a direção de arte vem mostrando cenários e figuração de monstros admiráveis, vide a incrível roupa e nave dos Zygons, todo o espaço geográfico de Planet of Evil e o notável trabalho gótico misto de mitologia e história visto em Pyramids of Mars. O aproveitamento das locações e a boa direção de Barry Letts nos espaços internos faz com que a história flua bem e esteja perfeitamente interligada do começo ao fim.

Apesar de pequenos problemas de gravação — Tom Baker ficou doente no processo — o resultado final de The Android Invasion é excelente, o segundo melhor roteiro de Terry Nation em Doctor Who. A química entre Tom Baker e Elisabeth Sladen é cada vez mais apaixonante e a brincadeira que eles vivem fazendo de “levar pra casa” e “deixar de ir” nos dá algumas pistas para o futuro, calcando com bastante antecedência a inevitável separação entre os dois em The Hand of Fear.

The Android Invasion (Arco #83) — 13ª Temporada
Direção: Barry Letts
Roteiro: Terry Nation
Elenco: Tom Baker, Elisabeth Sladen, Ian Marter, Patrick Newell, John Levene, Milton Johns, Max Faulkner, Peter Welch, Martin Friend, Dave Carter, Roy Skelton, Stuart Fell, Hugh Lund, Heather Emmanuel

Audiência média: 11,68 milhões

4 episódios (exibidos entre 22 de novembro e 13 de dezembro de 1975)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.