Crítica | Doctor Who – Série Clássica: The Creature from the Pit (Arco #106)

estrelas 4

Equipe: 4º Doutor, Romana II, K9 II
Espaço: Planeta Chloris.
Tempo: Indeterminado

Considerando a ordem de produção, The Creature from the Pit foi o primeiro arco da 17ª Temporada a ser filmado, trazendo a última história da série sob direção de Christopher Barry (que começou a trabalhar em Doctor Who no arco The Daleks, da era do 1º Doutor) e estreando David Brierley na voz de K9 II, algo que o espectador percebe e estranha de imediato, demorando um pouco para se acostumar com a mudança da voz mais metálica e mais simpática de John Leeson, que acabaria voltando em breve.

A trama se inspira levemente em Branca de Neve e os Sete Anões e adota uma proposta de “minimização de ação” para o Doutor que, ao invés de fazer algo que tenha impacto imediato e imenso no Universo, passa a maior parte do tempo resolvendo um problema local no Planeta Chloris, conceito que o roteiro de David Fisher nos transmite muitíssimo bem, embora tropece, nessa construção, no desenvolvimento dos personagens, seus diálogos e principalmente no desfecho da história, que parece ter sido sugerida ao autor por membros do Instituto de Astronomia de Cambridge, mas que figurou incoerente na reta final da saga — e não só como teoria, mas também como execução.

Em um primeiro momento, o espectador acredita que K9 será novamente escanteado durante todo o tempo, após uma interessante abertura, com ele lendo para o Doutor A História do Pedro Coelho. Todavia, diferente dos arcos anteriores, o cão-robô aparece como um personagem de participação efetiva, trazendo não só saídas interessantes para determinadas armadilhas de roteiro como também algumas tiradas cômicas que certamente foram colocadas ali pelo script editor da série na época, Douglas Adams, cuja mão também vemos na construção de Organon, o Astrólogo, um dos personagens mais interessantes do arco e que possui uma interação com o Doutor que por si só já nos serve de comparação de personalidades, comportamentos e formas de entender o mundo: há um pouco de Astrólogo no Doutor e um pouco de Doutor no Astrólogo.

Ao passo que a presença da criatura do título e a trama dos metais sejam desenvolvidas compassadamente ao longo dos 4 episódios como uma surpresa que não necessariamente se mostra maravilhosa no final, há na construção da sociedade de Chloris elementos realmente curiosos e que merecem nota, como o domínio de ordem matriarcal e a posterior revelação de uma missão diplomática que acaba se tornando um crime de motivação econômica por parte de Lady Adrasta. Não é a primeira vez que um elemento desses é colocado na série (lembremos de The Curse e The Monster of Peladon), mas as consequências, o aprisionamento e a forma como a farsa termina é sim nova e não precisa ter implicações gigantescas para se fazer válido como princípio narrativo, mesmo que, como já comentamos, não seja lá a melhor finalização possível.

Um dos elementos mais comentados desta aventura é a aparência de enorme pênis que a criatura tem a primeira vez que surge na tela e, posteriormente, a sequência em que o Doutor pega, sopra e fala com… a coisa. É oficialmente reportado pela equipe da produção que o design de Erato (um embaixador Tythoniano) levou todos os profissionais no set de gravação às gargalhadas desde a primeira vez que surgiu e que o tal “pênis” foi motivo de discussão entre os figurinistas e desenhistas de produção, mas as sequências em que havia aparecido não foram cortadas. A solução encontrada foi a adição de novos membros na criatura, a fim de nos dar a entender de que aquele… elemento visto antes era apenas um dos muitos órgãos (!), possivelmente braços, do Embaixador.

Ainda reporta-se que Lalla Ward não gostou da história e nem do tratamento dado à sua personagem, Romana II, que segundo ela, ainda se parecia muito com a Princesa Astra de The Armageddon Factor; e também reporta-se que Tom Baker discordava frequentemente do diretor Christopher Barry que, ao juntar essas dificuldades mais o eterno problema de conseguir financiamento com a BBC para realizar um bom trabalho com efeitos especiais, resolveu se afastar da série definitivamente depois deste arco.

É compreensível que dificuldades de produção tenham marcado The Creature from the Pit, afinal, trata-se da primeira produção de uma nova temporada, com nova equipe e novas propostas em pauta. Sabemos que nem tudo se saiu muito bem no desenvolvimento da história, mas o resultado final do arco é muito, muito bom, o que me deixa surpreso ao saber que esta aventura está na “lista negra” de muitos whovians pelo universo a fora. Particularmente, acho uma trama divertida, que trata “intrigas palacianas” e tendências de monopólio econômico sobre matéria prima de forma cômica, propositalmente afetada (e há ironia bem calculada nisso) e cheia de reviravoltas. Decerto, um daqueles arcos que traz todos os ingredientes — fracos e fortes — da era do 4º Doutor.

The Creature from the Pit (Arco #106) — 17ª Temporada
Direção: Christopher Barry
Roteiro: David Fisher
Elenco: Tom Baker, Lalla Ward, David Brierley, Myra Frances, Geoffrey Bayldon, Eileen Way, David Telfer, Morris Barry, John Bryans, Edward Kelsey, Tim Munro
Audiência média: 9,97 milhões
4 episódios (exibidos entre 27 de outubro a 17 de novembro de 1979)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.