Crítica | Doctor Who – Série Clássica: The Face of Evil (Arco #89)

estrelas 4,5

__ Would you like a Jelly Baby?

__ It’s true then. They say the Evil One eats babies.

Equipe: 4º Doutor, Leela
Espaço: Planeta de Leela, um planeta-colônia (não nomeado)
Tempo: algum ponto entre o ano 22.000 e o ano 33.935

Parodiando o episódio bíblico da criação do homem e os filmes Planeta Proibido (1956) e O Senhor das Moscas (1963), Chris Boucher nos presenteia com o excelente The Face of Evil, arco que introduz Leela — que não era para se tornar companion, mas os planos mudaram nas filmagens do último episódio — e traz o Doutor às voltas com uma intervenção sua, no passado, que deu muito errado a longo prazo. Nós não vemos e não sabemos muita coisa sobre o primeiro contato do Doutor com a Expedição Mordee, mas o tempo faz mudanças muito bruscas no cenário que ele imaginou ter deixado pronto para seguir em frente.

Os descendentes da equipe de pesquisa (survey team), viraram a tribo Sevateem e os descendentes dos técnicos (technicians) viraram os Tesh. O computador Xoanon adotou a personalidade do Doutor e passou a agir de forma muito estranha, como o primeiro de uma espécie confusa e enraivecida que tinha medo de quase tudo e não sabia se controlar. O cenário é perfeito para a adequação de elementos de alta tecnologia em um meio selvagem, o que a equipe de produção fez com primazia, posicionando cada “sucata” da Expedição Mordee no lugar certo, seja como roupas religiosas ou como elementos sagrados.

Mas o arco não é interessante apenas pela sua direção de arte e roteiro cheio de surpresas. A história coloca o Doutor frente a uma de suas ações, o que acontece poucas vezes em Doctor Who, ao menos de forma aberta e crítica. Não podemos deixar de nos lembrar que no conto As Raízes do Mal, claramente inspirado neste roteiro, o Doutor estará diante do mesmo problema, mas causado por outra de suas encarnações. Aqui, porém, ele se sente culpado e perturbado pela novidade da revelação de que como viajante do tempo ele poderia tanto causar o bem quanto condenar, mesmo sem saber, uma civilização inteira a viver com medo, em condições bem precárias ou ainda, acreditando que um super-computador é um Deus, só porque houve um erro de medida de consequências. Ser um Time Lord definitivamente não é algo fácil.

Ao longo da história, Leela ganha espaço e vai conquistando o espectador. Não é de se espantar que a atriz Louise Jameson tenha conseguido mudar a linha de produção e segurar-se na série ao final do último episódio. Sua interpretação de Leela é doce e ao mesmo tempo decidida, violenta — é paradoxal, mas quem viu o arco sabe o que estou falando — e disposta a defender com unhas e dentas o que acredita ser certo. E convenhamos que a composição do espaço de seu planeta, a trilha sonora assustadora do arco, a fotografia escura e pontualmente avermelhada para as tomadas externas e tendências quase laboratoriais para as internas ajudam a torná-la ainda mais exótica e ao mesmo tempo familiar. É esse jogo de extremos e contrastes que faz a selvagem e impositiva garota se tornar uma das mais importantes companions da série, com um longevo futuro ao lado do Doutor nos arcos e no Universo Expandido, até morrer, milhares de anos depois (pelo menos na forma como a conhecemos) na Trilogia da Morte de Leela, feita para a série The Companion Chronicles.

Uma sensacional mistura de tecnologia, selvageria, efeitos de viagem no tempo e aspectos diversos da origem de uma religião ou seita, The Face of Evil apresenta Leela em uma história bem escrita e abarrotada de bons momentos. O ano de 1977 começava para Doctor Who com o pé direito.

The Face of Evil (Arco #89) — 14ª Temporada
Direção: Pennant Roberts
Roteiro: Chris Boucher
Elenco: Tom Baker, Louise Jameson, David Garfield, Victor Lucas, Brendan Price, Leslie Schofield, Colin Thomas, Lloyd McGuire, Tom Kelly

Audiência média: 11,20 milhões

4 episódios (exibidos entre 1º e 22 de janeiro de 1977)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.