Crítica | Doctor Who – Série Clássica: The Hand of Fear (Arco #87)

estrelas 3

Equipe: 4º Doutor, Sarah Jane Smith
Espaço: Kastria, Inglaterra
Tempo: 150 milhões de anos atrás em Kastria, presente (anos 70) em Kastria e na Inglaterra

Dezoito arcos e dois Doutores depois, Sarah Jane Smith tem sua despedida em The Hand of Fear, segundo arco da 14ª Temporada da Série Clássica. Infelizmente, porém, seu sensacional arco inaugural, The Time Warrior, não encontra reflexo aqui, com uma história que tem em sua despedida algo que parece muito mais solapado ao final do roteiro no último minuto do que qualquer outra coisa.

E, de certa forma, foi mesmo assim, já que Sladen havia manifestado sua vontade de sair da série ainda no começo da 14ª Temporada e o planejamento inicial era de que ela morresse em The Lost Legion, escrito com esse objetivo por Douglas Camfield. A história se passaria no norte da África, com o 4º Doutor e Sarah lidando com a luta entre duas raças alienígenas, os Skartel e os Khoorians. No entanto, Robert Holmes, então o editor de roteiros, acabou rejeitando o trabalho de Camfield e The Hand of Fear, que já passara por diversas modificações, foi “retrofitado” mais uma vez para funcionar como o adeus à uma das mais longevas companions do Doutor e talvez até hoje, em vista de suas diversas voltas à série e por ter estrelado dois spin-offs, a mais lembrada.

Assim, o que vemos é uma despedida muito sem graça, ao fim da aventura principal, que acaba ocorrendo pois Sarah Jane simplesmente se diz cansada de ser a “donzela em perigo” e, de outro, por que o Doutor recebe um chamado de último segundo dos Time Lords para voltar à Gallifrey. Conveniente demais, simplista demais.

Mas nem mesmo entrei no arco em si, não é mesmo?

The Hand of Fear começa com o que depois descobrimos ser, na verdade, um flashback, com a obliteração de um inimigo por seres misteriosos em um planeta congelado. No presente, a TARDIS se materializa no meio de uma pedreira e o Doutor e Sarah saem justamente segundos antes de uma explosão programada quase soterrá-los completamente. Esse começo grandioso – a tomada da explosão é particularmente muito bem feita, com uma câmera dentro de uma caixa protetora sendo efetivamente soterrada e depois recuperada – serve como artifício para Sarah achar uma mão fossilizada com um anel. Esse anel força a companion a fugir do hospital com a mão e invadir uma usina nuclear (filmada in loco na usina de Oldbury) cuja energia é usada para lentamente regenerar Eldrad, extra-terrestre do planeta Kastria, o mesmo do flashback. Durante os dois primeiros episódios, tudo que vemos é a mão ganhar vida em momentos que parecem ter sido inspirados no Coisa, aquela mão da Família Addams, criada 10 anos antes, mas que, na verdade, foram baseados em Os Dedos da Morte, filme da Warner de 1946 em que uma mão decepada é vista andando e matando em uma mansão. São efeitos simples, mas que funcionam bem.

O ritmo desses dois episódios é lento, claramente denotando que a linearidade do roteiro carece de estofo para preencher o tempo regulamentar. Muitas sequências são dedicadas a explicações detalhadas de situações que o espectador vê perfeitamente apenas com as imagens e o Doutor nada mais é do que um observador, sem muito o que fazer. A partir do terceiro episódio, quando Eldrad finalmente se regenera em um forma pedregulhosa feminina (Judith Paris), a narrativa torna-se mais ágil e interessante, especialmente com a explicação do porquê de sua destruição há 150 milhões de anos. Paris como Eldrad empresta um divertido – às vezes até desconcertante – ar teatral ao personagem, cheio de trejeitos e com intensa linguagem corporal. Quando a ação, no quarto episódio, vai para Kastria e a triste verdade sobre Eldrad e seu planeta é descoberta, o ritmo volta a cair e o Doutor (e também Sarah) reverte à qualidade de observador mais uma vez.

No entanto, o sub-texto inteligente de condenação à guerra que recheia os dois primeiros episódios ajudam a qualificá-los como acima da média. Nada de obviedades ou de discursos inflamados. A mera presença da usina nuclear – sempre uma ameaça – e da reação “automática” dos humanos em destruir aquilo que não entendem funcionam discretamente para a alegoria da Guerra Fria e de nossa beligerância exacerbada (que, infelizmente, em nada mudou). Na segunda metade, esse sub-texto perde a força, mas a revelação da verdadeira intenção de Eldrad – nada mais do que um candidato a tirano – novamente traz uma lição que é bem trabalhada, ainda que de maneira mais evidente.

O desenho da produção é simplista, mas vê-se cuidado com o cenário utilizado, especialmente com o subterrâneo de Kastria. Há exotismo ali, que combina muito bem com o ótimo figurino de Eldrad – superior em sua versão feminina do que na versão masculina regenerada (Stephen Thorne) – e também com o destino do planeta, em um comentário do que poderia ser o futuro do nosso. Mas o que foi investido em Kastria provavelmente foi retirado da sala de operações da usina nuclear, já que, ali, o cenário deixa a desejar.

The Hand of Fear é um arco pouco acima do média que tem sua importância por marcar a despedida de Sarah Jane Smith, companion que merecia mais pompa e circunstância, sem dúvida. Mas, olhando pelo lado positivo, pelo menos não mataram a personagem, permitindo sua volta várias vezes ao longo das décadas.

The Hand of Fear (Arco #87) — 14ª Temporada
Direção: Lennie Mayne
Roteiro: Bob Baker, Dave Martin
Elenco: Tom Baker, Elisabeth Sladen, Rex Robinson, Renu Setna, David Purcell, Roy Boyd, Judith Paris, Glyn Houston, Stephen Thorne, Roy Skelton

Audiência média: 10,95 milhões

4 episódios (exibidos entre 2 e 23 de outubro de 1976)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.