Crítica | Doctor Who – Série Clássica: The Horns of Nimon (Arco #108)

estrelas 3

Equipe: 4º Doutor, Romana II, K9 II
Espaço: Skonnos, Crinoth
Tempo: Indeterminado

Dando adeus à década de 1970, The Horns of Nimon, último arco da décima sétima temporada de Doctor Who (desconsiderando o cancelado Shada, é claro), nos traz uma releitura do clássico mito Teseu e o Minotauro. A referência extrapola simplesmente o roteiro, trazendo, inclusive, personagens e localidades formando anagramas àqueles do mito original (em inglês): Athens = Aneth, Minos = Nimons, Corinth = Crinoth e o labirinto, evidentemente, é substituído por um complexo de energia cuja configuração é alterada constantemente, mantendo aqueles que entram presos em seus corredores até serem encurralados pelo temível Nimon, que tem a forma, é claro, composta por parte homem, parte touro.

A narrativa tem início em uma nave, tripulada unicamente pelo piloto e copiloto, que transporta um grupo de oferendas humanas para um ser conhecido apenas como Nimon, localizado no planeta Skonnos, capital de um Império outrora glorioso, visando trazer de volta sua falecida supremacia tecnológica e militar. Nesse contexto, a Tardis, sugada por um anormal campo gravitacional se choca com a dita nave, inserindo o Doutor e Romana na problemática central. Impossibilitados de apenas irem embora, eles devem buscar uma maneira de derrotar a criatura chifruda, ao mesmo tempo que resgatam os prisioneiros de Aneth de seu terrível destino.

Os problemas de The Horns of Nimon encontram-se quase que exclusivamente na produção. Estamos falando, naturalmente, de um arco exibido em 1979 e seria um equívoco esperar efeitos especiais que rivalizem com os de hoje em dia. Ainda assim, o Nimon consegue apenas trazer umas boas risadas do espectador, menos pela forma como é retratado e mais pela sua movimentação. Além de evidentemente estarmos diante de um homem vestindo uma cabeça de touro (modificada) de tamanho considerável, a forma como a pessoa por baixo dela precisa andar é risível, parecendo grandes bonecos que não poderiam ser menos ameaçadores, prejudicando grandemente nossa imersão na história.

Dito isso, Graham Crowden, que interpreta Soldeed, o intermediário entre o Nimon e os Skonnans, conta com uma atuação excessivamente dramática, tanto em seus gestos quanto em entonação, garantindo ainda mais a artificialidade do arco. Diversas das frases proferidas por Crowden tornam a narrativa mais divertida pela forma ridícula que elas soam do que pelo sentido delas em si. Com isso em mente, seria um equívoco afirmar que a história não consegue nos prender, isso ela faz, mas não da maneira intencionada pela BBC. Curiosamente, nenhum dos outros personagens apresenta esse traço, o que apenas destaca Soldeed ainda mais.

E por falar nos outros personagens, é muito interessante a forma como o roteiro dá a devida atenção àqueles que não o Doutor. Romana, por exemplo, conta com ações que verdadeiramente impactam a narrativa, ainda que a presença de Sezom (John Bailey) tenha sido praticamente esquecida nos trechos finais do arco. Os outros coadjuvantes atuam da mesma forma, cada um trazendo a devida contribuição, mesmo que no caráter de assistentes do senhor do tempo. Nesse sentido, essa história se diferencia de muitas outras que assistimos na série clássica, onde vemos personagens centrais esquecidos constantemente.

The Horns of Nimon conta, portanto, com seus defeitos de produção e deslizes na atuação de determinados atores, mas, em geral, se traduz como uma aventura divertida de se assistir e que consegue nos prender de uma forma um tanto peculiar. A releitura sci-fi de Teseu e o Minotauro está longe de ser um dos melhores arcos de Doctor Who, mas traz divertidas referências e uma história que consegue nos deixar tensos e nos fazer rir ao mesmo tempo, se isso é um acerto, cabe a cada um de nós decidir.

The Horns of Nimon (Arco #108) — 17ª Temporada
Direção: Kenny McBain
Roteiro: Anthony Read
Elenco: Tom Baker, Lalla Ward, Graham Crowden, Michael Osborne, Malcolm Terris, Simon Gipps-Kent, Janet Ellis
Audiência média: 8,75 milhões
4 episódios (exibidos entre 22 de dezembro de 1979 e 12 de janeiro de 1980)

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.