Crítica | Doctor Who – Série Clássica: The Invasion (Arco #46)

estrelas 3,5

Equipe: 2º Doutor, Jamie, Zoe
Espaço-tempo: Londres, 1968

Após suas peripécias em outra dimensão, na Terra da Ficção, em The Mind Robber, o Doutor volta ao planeta Terra no século XX, onde reencontra com um velho aliado. Refiro-me, é claro, ao agora Brigadeiro Lethbridge-Stewart, em sua segunda aparição na série após o arco The Web of Fear. De suas aventuras passadas, contudo, não é somente um amigo que o Time-Lord encontra – os Cybermen novamente dão as caras, dessa vez atuando em conjunto com um ambicioso dono de uma empresa de tecnologia. The Invasion, todavia, nos traz uma narrativa diferente para Doctor Who, assemelhando-se aos thrillers de espionagem dos anos 60.

Ao se aproximar de nosso planeta, com uma Tardis defeituosa, o Doutor, Jamie e Zoe, são atacados por algo desconhecido no lado oculto da Lua. Um míssil voa na direção da caixa azul e, por pouco, escapam da morte certa. Aterrissando na Terra, eles decidem buscar o professor Watkins para ajuda-los na manutenção da espaçonave. Não demora muito, porém, para se verem em uma intriga conspiratória envolvendo a empresa International Eletromatics e seu dono, Tobias Vaughn. Apesar da história se passar em nosso universo, e não em uma realidade paralela, não podemos deixar de nos sentir em uma distopia, onde a empresa com caráter autoritário se firma como uma eminência parda durante todo o arco. Esse clima é bem construído nos episódios iniciais, abrindo espaço para o já citado tom de espionagem que a obra adota.

Essa característica marcante se deve a diversos elementos. O primeiro deles é o próprio antagonista, Vaughn, que poderia ser tirado direto de um filme de James Bond, trazendo enormes similaridades com Auric Goldfinger, que se estendem desde sua personalidade – sempre prepotente, certo de si – até seu covil multimilionário. Com isso, temos diversas sequências ao longo do arco que constroem essa figura vilanesca, que chega a ofuscar até mesmo a aparição dos Cybermen. Geralmente, contracenando com o personagem, temos seu chefe de segurança Packer, que nos traz uma espécie de alivio cômico em diversos momentos graças a sua incompetência digna de Pinky, de Pinky e o Cérebro.

As similaridades com outras produções não param por aí. Ao pensarmos na série nova de Doctor Who, encontraremos óbvios paralelos entre este arco e os dois episódios Rise of the Cybermen e The Age of Steel, ambos da segunda temporada, que trazem premissas bastante próximas ao que vemos aqui. O próprio vilão, ainda que não tão marcante e divertido – e o mérito aqui vai para Kevin Stoney como Vaughn – nos traz uma personalidade similar, ainda que tenha objetivos bastantes distintos.

O clima de thriller de espionagem ainda se estende para diversas situações onde o Doutor e Jamie se esgueiram, furtivamente, pelos corredores da International Eletromatics, acompanhados por uma trilha digna da temática escolhida. Nos episódios finais vemos tal drama se transformar na clássica corrida contra o tempo, envolvendo a própria invasão dos cybermen e uma iminente bomba a caminho da Terra. Tenho fortes ressalvas, contudo, em relação a esses capítulos finais, pois não conseguem nos trazer a tensão desejada e a tão aclamada invasão não nos transmite qualquer ameaça, ainda que conte com famosos e bem executados planos da marcha dos cyberman. Piorando tal situação temos um encerramento completamente anticlimático e apressado, que chega a tomar o Senhor do Tempo como um completo desalmado, que sequer se importa com a morte de um personagem de destaque.

Os deslizes se estendem ainda para a subutilização de coadjuvantes. Ainda que a UNIT exerça um papel central dentro da trama, Jamie e Zoe são poucas vezes colocados lado a lado, ao passo que um deles é convenientemente dado sumiço enquanto o outro atua efetivamente. Por outro lado, as personagens femininas são retratadas com bastante força e caráter, realizando ações de destaque que não só divertem como se encaixam organicamente dentro da proposta estabelecida. Impossível não se deixar levar pela química entre Isobel e Zoe, possibilitada unicamente pelas atuações de Sally Faulkner e Wendy Padbury.

Devo, antes de encerrar esta crítica, ressaltar que dois episódios do arco são reconstituições, que ganharam animações produzidas pela própria BBC. Estas funcionam perfeitamente e, com uma técnica que emula a animação de recorte, conseguem captar bem as expressões dos personagens principais. É claro que a atuação, de fato, de Troughton faz falta, o que acaba tirando grande parte do atrativo dos episódios em questão, mas, na falta das imagens originais, estas exercem um excelente papel.

The Invasion, apesar de seus altos e baixos, é um arco que dificilmente não irá agradar ao espectador, contendo traços fortes dos filmes de espionagem dos anos 60. Em diversos momentos nos sentiremos diante de um longa-metragem de James Bond, assistindo um de seus vilões darem seus longos discursos maquiavélicos. É claro, jamais esqueceremos essa história por nos introduzir, enfim, a famosa (e saudosa) UNIT.

The Invasion (Arco #46) – 6ª Temporada

Direção: Douglas Camfield
Roteiro: Derrick Sherwin
Elenco principal: Patrick Troughton, Frazer Hines, Wendy Padbury, Nicholas Courtney, John Levene, Edward Burnham, Sally Faulkner, Kevin Stoney

Audiência média: 7 milhões

8 episódios (exibidos entre 2 de Novembro e 21 de Dezembro de 1968)

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.