Crítica | Doctor Who – Série Clássica: The Keeper of Traken (Arco #114)

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estrelas 3,5

Equipe: 4º Doutor, Adric
Espaço: Planeta Traken
Saga: Trilogia do Mestre
Tempo: 1981

The Keeper of Traken é um arco interessante em diversos aspectos. Aqui, temos a primeira aparição de Nyssa, futura companion do Doutor; a reapresentação do Mestre, depois de muito tempo longe das telas (desde The Deadly Assassin); além do estabelecimento de um número máximo de 12 regenerações, ao fim da qual o Mestre estava aqui, e o início de uma trilogia que marca o progressivo retorno dessa versão do nêmesis do Doutor, primeiro num corpo putrefato, interpretado por Geoffrey Beevers, e depois apossando-se do corpo de Lorde Tremas (um anagrama de Mestre), pai de Nyssa e um dos Cônsules de Traken.

Pela primeira vez desde o início do run de JNT como produtor de Doctor Who, o espectador percebe elegância e força em um roteiro que além de garantir um bom divertimento, apresenta informações, personagens e ações realmente importantes para o cânone da série, além de realizar, também pela primeira vez nessa era, uma ótima aplicação de cliffhanger entre os arcos. Essa prática já era levemente percebida desde o Arco #109, mas nunca fora feita de maneira orgânica e instigante como foi aqui. Mesmo com um texto que se perde um pouco naquilo que deve ou não deve dar espaço/atenção, o resultado final do trabalho de Johnny Byrne é mesmo muito bom.

Até Adric, que em Warriors’ Gate estava consideravelmente insuportável, recebe uma boa incursão no campo do humor e parece acompanhar o Doutor de maneira ativa e útil, tendo um importante papel no desmantelamento dos atos do Mestre, além de protagonizar alguns bons planos de escape, algumas gracinhas durante as fugas e ideias de ação sobre os dados e interpretação de leituras científicas, uma forma um pouco menos simpática, mas ainda assim interessante, de termos o “modelo Romana” de volta à série.

De alguma forma, The Keeper of Traken nos lembra o início da saga da Chave do Tempo, tanto pelo fato de haver Guardiões nos dois casos, quanto pela capacidade que esses dignatários possuem de manipular a TARDIS e entregar uma tarefa de grande confiança — e extremo perigo — para o Doutor. Nesse ambiente de “segredos cósmicos” que sempre ganha excelentes contornos na série, a exposição de um lugar idílico, de paz constante, que é ameaçado por uma força oculta e desconhecida, parece ainda melhor quando percebemos que está recheado de referências à obra de Shakespeare, especialmente às peças Sonho de uma Noite de Verão, Otelo, Ricardo III e Júlio César; mas também à opera Persifal, de Richard Wagner e ao Silmarilion, de Tolkien, na criação de um dos modelos da nave do Mestre, a “estátua” de Melkur.

O mal desconhecido como ameaça e um ambiente de governo burocrático que não sabe lidar com essa nova conjuntura torna o drama do arco mais aceitável, porque abre as portas para que tão civilizadas pessoas cometam erros em nome da preservação de um “bem maior”, conceito que se visto à luz da História (e de seu peso para a Filosofia e Sociologia) encontrará a justificativa para um bom número de extermínio de humanos nos últimos 200 anos. Aliás, é no desenvolvimento desse conceito que o roteiro do arco se expande, fomentando o plano do Mestre, ao dominar a Fonte do Guardião de Traken, e apresentando um estágio de governo fortemente militarizado, marcado por obediência cega (e quase religiosa) dos súditos, um fascismo à la Senhor do Tempo, por assim dizer.

O desenho de produção caprichou na organização do espaço, desde a inspiração para a estátua de Melkur, vinda de uma escultura de Umberto Boccioni, até a mistura de tecnologia e construção medieval que o palácio de Tremas tem, impressão fortalecida pelos figurinos e mescla na trilha sonora, especialmente nos episódios do meio do arco. A história poderia ser bem melhor se a composição para os Cônsules não fosse tão bobinha, a certo momento da narrativa; e mesmo as ações de luta contra o plano do Mestre tivessem um princípio mais “a cara do Doutor” e menos “a cara de Adric”. Todavia, independente desses impasses, The Keeper of Traken mostra, de fato, as mudanças conceituais tão pretendidas por John Nathan-Turner desde o início da 18ª Temporada. Antes tarde do que nunca.

The Keeper of Traken (Arco #114) — 18ª Temporada
Direção: John Black
Roteiro: Johnny Byrne
Elenco: Tom Baker, Matthew Waterhouse, Anthony Ainley, Sarah Sutton, Geoffrey Beevers
Audiência média: 6,25 milhões
4 episódios (exibidos entre 31 de janeiro e 21 de fevereiro de 1981)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.