Crítica | Doctor Who – Série Clássica: The Mind Robber (Arco #45)

estrelas 4,5

Equipe: 2º Doutor, Jamie, Zoe
Espaço-tempo: Dulkis, ano desconhecido (início), Terra da Ficção (outra dimensão)

Bem antes de Fábulas, O Inescrito, Kill Shakespeare, Grimm e Once Upon a Time e todas essas obras magistralmente fundindo, de uma maneira ou outra, realidade com o mundo da literatura, havia um pequeno programa de TV britânico que, em curtos e despretensiosos cinco episódios de 20 minutos de duração cada, trouxe para as telinhas uma versão brilhantemente concisa desse conceito em um belo exemplo de roteiro irretocável. Não que o arco seja perfeito, pois ele sofre problemas de ritmo, mas, em termos de conteúdo, The Mind Robber é um primor.

Depois de provocar uma erupção vulcânica em Dulkis, para derrotar os Dominators, o Doutor, Jamie e Zoe se vêem cercado de lava (ou seria espuma de barbear?) fervente. O Doutor, então, utiliza uma “unidade de emergência” que catapulta a TARDIS para fora do espaço-tempo normal ou, em português claro, para fora da realidade em si. Jamie e Zoe logo são atraídos para fora da pequena caixa azul de polícia, apesar dos avisos do Doutor e acabam em um mundo vazio, com uma névoa misteriosa. Não demora e o Doutor vai atrás, apenas para, a cada episódio, a trinca se deparar com florestas de letras, soldadinhos de corda e personagens clássicos como Gulliver, Rapunzel, Minotauro, Medusa, Cyrano de Bergerac, D’Artagnan e Karkus, esse último um herói de quadrinhos no estilo do Superman, só que da era de Zoe.

Por trás da trama, logo descobrimos que há alguém chamado, apenas, de The Master e Peter Ling, no roteiro e David Maloney, na direção, fazem de tudo para deixar o espectador em suspense sobre a verdadeira identidade desse vilão. Seria ele o Mestre como o Doutor conhecera, ou alguém muito diferente?

A resposta está na própria trama. Estamos “fora da realidade” na chamada Terra da Ficção e, lá, personagens “reais” não existem. Portanto, esse The Master é diferente do arqui-inimigo do Doutor e, arriscaria dizer, com um enorme potencial nunca aproveitado em arcos posteriores (somente em literatura whoviana). O mundo onde nossos heróis se encontram é um mundo em que a ficção se mistura com a realidade, em que personagens reais podem se tornar fictícios caso The Master assim conte a história. É um incrível exemplo de meta-história que raramente encontramos hoje em dia e que é muito bem desenvolvida ao longo dos episódios.

É claro que temos que ultrapassar a famosa “tosquidão” dos cenários e figurinos para apreciar o arco e isso é particularmente difícil no começo, com o Doutor, Jamie e Zoe no vazio e, depois, na floresta de letras. É que tudo é extremamente artificial e a história, nesses dois episódios iniciais, ainda não acertou seu passo. No entanto, quando Gulliver passa a ter mais presença na narrativa e especialmente quando Rapunzel entra na história, já conseguimos esquecer com facilidade as restrições orçamentárias da série e apreciar a história pelo que ela é.

Além disso, é fascinante notar que, mesmo modesto, o arco conta com uma enorme profusão de atores fazendo os mais diversos papeis da literatura mundial, sempre com muito cuidado para tornar fácil nosso trabalho de diferenciá-los. Há cavaleiros medievais, unicórnios, piratas, crianças e uma boa quantidade de props exclusivas desse arco que acabam compensando os problemas iniciais tanto de qualidade da produção quanto de ritmo.

The Mind Robber é um grande exemplar do quão importante é um roteiro azeitado para qualquer obra audiovisual. Ele é capaz de suprir falhas envolvendo o espectador de tal maneira na narrativa que, em grande parte, todo e qualquer eventual defeito é esquecido.

Já fiquei com saudades da Terra da Ficção e gostaria muito de vê-la voltando ao mundo de Doctor Who

The Mind Robber (Arco #45) – 6ª Temporada

Direção: David Maloney
Roteiro:
 Peter Ling
Elenco principal: Patrick Troughton, Frazer Hines, Wendy Padbury,  Hamish Wilson, Emrys Jones, Bernard Horsfall, Christopher Robbie, Christine Pirie, John Greenwood, David Cannon

Audiência média: 6,5 milhões

5 Episódios (exibidos entre 14 de Setembro e 12 de Outubro de 1968).

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.