Crítica | Doctor Who – Série Clássica: The Twin Dilemma (Arco #136)

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estrelas 3,5

Equipe: 6º Doutor, Peri
Espaço: Asteroide Titan III / Planeta Jaconda
Tempo: 2310 (mês de agosto)

The Twin Dilemma foi o último arco da 21ª Temporada Clássica de Doctor Who, trazendo pela primeira vez uma história completa com o 6º Doutor. Colin Baker assumiu o papel tendo em mente superar os sete anos de outro Baker como Doutor, e sua ideia inicial era interpretar um Senhor do Tempo que chocasse imensamente o público, alguém que gerasse grande desconfiança e que aos poucos fosse ganhando a confiança do espectador. Uma pena que certas escolhas de roteiristas e erros atrás de erros cometidos pelo egoico produtor John Nathan-Turner tenham encurtado drasticamente essa encarnação do personagem e contribuído para a diminuição do público da série, seguido de seu escanteamento pela BBC e terminado com o cancelamento em 1989.

Assistir à estreia do 6º Doutor é segurar-se o tempo inteiro para poder entender e digerir as diferenças de concepção em relação ao Doutor anterior, que teve uma partida tão emotiva e motivada por uma história tão boa como The Caves of Androzani. Para mim, o único ponto ruim da estreia de Colin Baker no papel do Doutor é ele atacando Peri. Por mais que eu compreenda a confusão/fraqueza/dificuldade de adaptação/problemas-pós-regeneração que sabemos existir para os Doutores (aqui, essa crise é totalmente oposta à fragilidade do 5º Doutor em Castrovalva, e sim, esta era a intenção da história, solicitada com bastante ênfase por JNT ao roteirista Anthony Steven e depois ao editor de roteiros, Eric Saward), ver o Doutor nessa posição não é nada agradável. Confesso que me incomodou bastante.

Nessa linha de análise, porém, chegamos a um ponto muito importante, algo com o que eu concordo cem por cento em ter relevância dramática e emotiva na série e que muita gente se esquece: o Doutor não é humano. Ele é, inclusive, de uma espécie egoísta, perigosa e completamente imprevisível, algo que obviamente deve (ou deveria) refletir em seu caráter de uma forma ou de outra, como vimos nas versões 1 e 3 de sua encarnação. Os Doutores 2, 4 e 5 diminuíram essa “grosseria Time Lord”, o que não é algo ruim, muito pelo contrário, mas desacostumou o público do fato de que este personagem terá ações não tão fofas ou não tão “humanamente malucas”.

Esse lado da moeda é perfeitamente incorporado por Colin Baker na caracterização de seu Doutor, tendo até uma exposição literal disso, em uma perfeita linha que coloca para o público o que ele realmente é. NOTA: uma versão dessa declaração “EU SOU O DOUTOR e você deve se acostumar com isso” foi utilizada por Steven Moffat em Deep Breath, o episódio de apresentação do 12º Doutor, na 8ª Temporada da New Who, novamente, em uma intensa mudança de comportamento pós-regeneração.

O enredo de The Twin Dilemma divide-se então em duas camadas. Na primeira, vemos o Doutor “regenerado, mas nem tanto“, ou seja, em um estado mental em que ele sabe que não merece confiança e, por isso mesmo, deve viver em contemplação, como um ermitão, tendo Peri como sua discípula. Na segunda, temos uma aleatória trama de gêmeos gênios da matemática que serão usados para propósitos escusos de Meston, o líder Gastropod que escraviza o planeta Jaconda, do qual Azmael, um velho amigo do Doutor, já foi líder.

Nomeando os gêmeos como os míticos irmãos fundadores de Roma, Rômulo e Remo, o arco metaforiza o uso da ciência ou de meios tecnológicos como os canais de comunicação por mãos erradas, com o objetivo de multiplicar ideias ou coisas ruins para a humanidade como um todo. Há um pouco de histeria na exposição do perigo, mas ele é verdadeiro em qualquer ângulo que se olhe, especialmente quando vemos em nosso século o “espalhar de ovos de Gastropod pela mídia a fora”. No arco, esse problema é a coisa menos interessante possível. Ele só serve mesmo para mostrar o 6º Doutor em ação (e ele é absurdamente sagaz e deliciosamente inconsequente!) e criar um personagem mais ou menos interessante como Azmael, antigo tutor do Doutor, além dos coadjuvantes notáveis, como o terráqueo Hugo Lang e os Jacondans, que são humanoides meio aves, um acerto aplaudível a equipe de figurino e maquiagem.

Embora não seja exatamente memorável em termos de enredo (mas a aventura é engajante em muitos momentos, o que faz o arco estar bem acima da média), The Twin Dilemma cumpre o papel de chocar o público na apresentação do 6º Doutor, com seu figurino espalhafatoso — que JNT assumiria ter sido um erro — e ações mais duras e notadamente aliens. A TARDIS tinha um novo piloto e quase ninguém sabia exatamente como reagir a ele. Este é, inclusive, um dos motivos que alguns espectadores e críticos apontam como “início do fim” da era clássica de Doctor Who. O que vocês acham?

The Twin Dilemma (Arco #136) — 21ª Temporada
Direção: Peter Moffatt
Roteiro: Anthony Steven
Elenco: Colin Baker, Nicola Bryant, Maurice Denham, Kevin McNally, Edwin Richfield, Gavin Conrad, Andrew Conrad, Dennis Chinnery, Barry Stanton, Oliver Smith, Helen Blatch, Dione Inman, Seymour Green, Roger Nott, John Wilson
Audiência média: 7,33 milhões
4 episódios (exibidos entre 22 e 30 de março de 1984)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.