Crítica | Doctor Who – Série Clássica: The Ultimate Foe (Arco #143d: The Trial Of A Time Lord)

estrelas 2,5

Equipe: 6º Doutor, Mel
Saga: The Trial Of A Time Lord
Espaço: Nave Espacial dos Time Lords / Matrix
Tempo: Indeterminado

Confuso. Desnecessário. Forçado.

Desrespeitoso com o ator Colin Baker.

Constrangedor. Estas seriam as palavras que em algum momento poderíamos atribuir a The Ultimate Foe, o último arco da 23ª Temporada de Doctor Who e a última (e infame) aparição canônica de Colin Baker na série.

Absolutamente tudo conspirou e contribuiu para que este arco fosse… estranho. As filmagens de toda a 23ª Temporada aconteceram no começo de 1986 e, já neste momento, os ânimos estavam à flor da pele nos bastidores. O showrunner JNT e o editor de roteiros Eric Saward romperam laços em definitivo (Saward nem completaria toda a temporada, pulando fora no penúltimo episódio deste arco) e os chefões da BBC impuseram, mais adiante, a substituição de Colin Baker, algo que só viria a ser comunicado ao ator em outubro daquele ano.

Baseado em um roteiro de Robert Holmes, o finale da temporada se revelaria um balde de água fria em diversos níveis, sendo a primeira explicação para isso a grande quantidade de pessoas que mexeram no roteiro até a sua versão final. Holmes não completou a escrita, pois veio a falecer em maio de 86, sendo a sua morte a gota d’água para que Saward (que era amigo de longa data de Holmes) odiasse cada vez mais John Nathan-Turner e suas decisões para a série naquele momento. O complemento e ajustes do enredo ocorreram pelas mãos do casal PipJane Baker, que tinham escrito o arco anterior. Contatados em ocasião de emergência, o casal exigiu que o roteiro original de Holmes jamais fosse divulgado e se JNT concordasse com isso, eles (que tinham fama — e correspondiam a ela! — de escrever bastante rápido) assumiriam o script e o deixariam pronto a tempo das filmagens.

Em apenas dois episódios vemos as justificativas e possíveis respostas para o que aconteceu ao longo da temporada serem dadas pelo Doutor, pelo Mestre e pelo Valeyard, cada um a seu modo e em tempos diferentes. E como se não bastasse dois vilões, um julgamento estranho para finalizar e uma companion deslocada, JNT ainda permitiu que o bandido Sabalom Glitz, de The Mysterious Planet, voltasse para testemunhar a favor do Doutor.

Nos primeiros minutos do arco, é possível apreciar o ritmo das cosias. Baker entrega uma atuação excelente, representando muito bem o ódio que um Time Lord honesto poderia sentir em relação à sociedade corrupta, orgulhosa e egoísta da qual se distanciou há muito tempo. Por um momento, todo o julgamento até que parece fazer sentido, uma vez que essas forças de bastidores, entre renegados e uma versão sombria e futura do Doutor (entre a sua 12ª e “final” encarnação) se colocam em linhas diferentes de interesse, todos em torno de Gallifrey e sua sociedade e hierarquia. A aparição do Mestre é uma surpresa agradável e até poderia fazer mais sentido se ótimo Anthony Ainley não parecesse forçadamente encaixado na trama. No meio do primeiro episódio, as coisas começam a desandar e daí para frente, apenas alguns bons momentos segurarão o espectador.

A batalha na Matrix poderia ser algo de impacto no episódio, mas com Mel jogada para cima e para baixo; cortes desconexos deste cenário para o julgamento e um duo perdido protagonizado pelo Mestre e por Glitz, fica difícil termos algo sólido e interessante, visto que não há tempo de se concentrar em nada. Claro que a constituição macabra do local, a aparência de Londres Vitoriana e um ou outro momento do Doutor contra o Valeyard valem muito a pena em termos visuais e até na criação de uma atmosfera de medo, mas no todo narrativo, o encerramento da saga é simplesmente vergonhoso.

O final não traz o 6º Doutor se regenerando. A notícia da demissão de Baker veio apenas depois que o arco havia sido filmado e o ator se recusou — com toda a razão que uma pessoa já pode ter na BBC — a assinar um contrato de mais 4 episódios e voltar para filmar apenas a cena de regeneração. Apenas em 2015, Baker aceitaria o convite da Big Finish para protagonizar uma história que explicasse a sua regeneração, trama lançada na antologia The Sixth Doctor: The Last Adventure.

É de se lamentar o enorme desrespeito que Grade e Powell tinham para com a série e com o ator protagonista. Ainda bem que o Universo Expandido nos deu inúmeras oportunidades de ver o 6º Doutor em incontáveis aventuras após essa partida reticente e, melhor ainda, que ele tivesse uma merecida e decente regeneração. Mesmo assim, por não ser algo estabelecido na TV, fica a grande mácula na história da BBC em relação à sua série de maior importância. Que vergonha!

The Ultimate Foe: The Trial Of A Time Lord (Arco #143d) — 23ª Temporada
Direção: Chris Clough
Roteiro: Robert Holmes, Pip Baker, Jane Baker
Elenco: Colin Baker, Bonnie Langford, Michael Jayston, Lynda Bellingham, Tony Selby, Anthony Ainley, Geoffrey Hughes, James Bree
Audiência média: 5 milhões
2 episódios (exibidos entre 29 de novembro e 6 de dezembro de 1986)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.