Crítica | Doctor Who – Série Clássica: Timelash (Arco #141)

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estrelas 4

Equipe: 6º Doutor, Peri
Espaço: Planeta Karfel / Escócia
Tempo: 802.701? / 1885

Timelash é um daqueles casos de arcos em que o roteirista “cai de pára-quedas” no QG de Doctor Who, tem roteiro rejeitado (inicialmente Timelash era com os Daleks), reescreve-o, reenvia para a produção, é enrolado pelo produtor, insiste na contratação, tem a confirmação de que seu texto será produzido, irrita o editor de roteiros — que acaba fazendo um grande número de mudanças — e, por fim, traumatiza o diretor, que de tão irritado com o rumo da aventura (especialmente na relação rude entre o Doutor e Peri), nunca mais volta a fazer nada em Doctor Who. O bom de tudo isso é que o roteiro de Glen McCoy é interessante, com uma excelente surpresa final e uma forma de mostrar mais uma vez a sagacidade e tendência para a ação, às vezes violenta, do 6º Doutor.

Eu começo a ver um padrão muito interessante para a relação entre o Doutor e Peri e aqui devo dizer que apesar de minhas próximas definições conterem elementos técnicos, elas são intencionalmente passionais. A meu ver, um Doutor rude, mais duro e com sentimentos nada fofos… ou o verdadeiro oposto disso (penso no e Doutores agora) são as personificações mais interessantes para este personagem. Por isso eu não tenho um carinho tão grande pelo 5º Doutor quanto tenho pelos outros da Série Clássica até esse momento. E é sempre bom deixar claro, embora quem já acompanha minhas críticas saberá bem o que eu quis dizer ali, que EU GOSTO do Senhor do Tempo interpretado por Peter Davison. Aliás, até hoje não existiu um único Doutor de quem eu não gostasse (diferente de companions — olá, Tegan!), mas ele é o meu “menos favorito” em qualquer cenário que eu fizer a classificação.

E por que fiz essa comparação de personalidades? Porque eu sempre ouvi horrores sobre o 6º Doutor e sobre os arcos da era do 6º Doutor e chego na penúltima aventura da 22ª Temporada e não vi um único arco de fato ruim. Também não consigo encontrar o problema da maioria dos whovians que conheço (alguns, bons amigos meus) em relação ao 6º Doutor. Sou plenamente a favor do que o próprio Doutor diz em The Twin Dilemma: “eu sou um alienígena, eu sou o Doutor, quer você goste ou não” ou o que o 12º diz para clara em Deep Breath: “eu não sou seu namorado“. Aqui em Timelash, essa personalidade mais dura é uma das melhores coisas em tela e, ao contrário do que possa parecer, torna a amizade do Doutor e Peri ainda mais interessante, pela dificuldade do trato. Ele é o Doutor, ele se preocupa, ele gosta de sua companheira e a protege. Mas ele não é um ursinho de pelúcia que vive distribuindo beijos, gentilezas e afagos pelo Universo afora. Dá-lhe Colin Baker!

A trama começa com uma pequena briga entre Doutor e companion, que evolui para a entrada perigosa deles em um time corridor, chegando ao planeta Karfel, onde o 3º Doutor, Jo (e Mike Yates) já estiveram, em uma aventura não vista na TV, mas que se passa entre os arcos Planet of the Daleks e The Green Death. Aqui, dominado por Borad — um ex-cientista Megelen que sofreu um acidente e teve uma terrível mutação — o planeta está à beira da extinção, com uma sociedade constantemente vigiada (à la 1984) e recentemente mergulhado em guerra. Pego na confusão e já com a missão de encontrar um amuleto necessário para Borad, o Doutor alternará diálogos em que tira sarro descaradamente de seus inimigos e momentos de grande braveza e inteligência, fazendo geringonças para salvar o dia e arriscando a vida para distrair o inimigo e conseguir o que quer.

O roteiro é ágil e tem uma única coisa ruim, que acaba arrastando, infelizmente, pedaços de cenas para o buraco: o réptil Morlox, que é ridículo em todas as coisas imagináveis: concepção, inserção no roteiro e má finalização dramática. Desse modo, as ameaças a Peri e os breves momentos em que o bicho aparece na tela são bastante vergonhosos e atrapalham o ritmo das cenas em que está envolvido. Mas à parte a vergonha, o que vemos é um drama claustrofóbico com uma missão de resgate inteligente, misturando as tendências da ficção científica da década de 1980 e nuances de horror clássico, muito por conta de presença de Herbert (que personagem adorável David Chandler interpreta aqui, santo Rassilon!!!), que é revelado no último minuto como o grande H.G. Wells. Não sei vocês, mas eu fiquei montando uma temporada inteira do 6º Doutor, Peri e Herbert visitando cenários que fossem exatamente o que constaria nas páginas de livros do autor, algo que Glen McCoy não ignorou aqui, fazendo várias referências aos clássicos do autor: A Máquina do Tempo (1895), A Ilha do Dr. Moreau (1896), O Homem Invisível (1897) e A Guerra dos Mundos (1898).

Foi bem doloroso ver a forma de dominação dos personagens, especialmente de Peri, que está bem nesse arco, embora grite mais do que deveria. Também é de se questionar a postura de Herbert e do Doutor ao falar da americana, algo do tipo “ela é só uma garota!“, mas considerando que estamos falando de um jovem do século XIX e um Time Lord já marcado pela morte de pessoas queridas — de modo que ele colocaria até Kamelion para fora, se fosse o caso — a cena ganha outros contornos e compreendemos a postura dos dois.

Sem explicações finais forçadas e com uma fantástica mistura de humor negro e indicações literárias, Timelash é uma história rápida e instigante, uma daquelas que sabemos ser desprezada por uma parte considerável do fandom da série, mas que ganha, de tempos em tempos, pessoas que se colocam na linha de frente para defendê-la. Como eu, na presente crítica.

Timelash (Arco #141) — 22ª Temporada
Direção: Pennant Roberts
Roteiro: Glen McCoy
Elenco: Colin Baker, Nicola Bryant, Robert Ashby, Denis Carey, Paul Darrow, Eric Deacon, Neil Hallett, Jeananne Crowley, David Ashton, David Chandler, Tracy Louise Ward, Peter Robert Scott, Dicken Ashworth
Audiência média: 7,05 milhões
2 episódios (exibidos entre 9 e 16 de março de 1985)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.