Crítica | Doctor Who – Série Clássica: Vengeance on Varos (Arco #138)

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estrelas 4

Equipe: 6º Doutor, Peri
Espaço: Planeta Varos
Tempo: c.2285

Há uma crítica social tremenda em Vengeance on Varos. Há uma cômica e maravilhosamente bizarra interpretação de Nabil Shaban como Sil, o Mentor de Thoros Beta (que serviu de inspiração para Cassandra, a última humanada de The End of the World, aquele episódio do 9º Doutor que me fez ter certeza de que amaria Doctor Who para sempre). Há excelentes referências ao clássico 1984, à escravização ideológica das pessoas gerada pela TV, à programação viciosa e cheia de violência (que seria aproveitada na nova série, em The Long Game) e uma breve visita ao “problema da liberdade” sartriano, no final da história. E mesmo com tudo isso, os desafetos de Vengeance on Varos só conseguem se lembrar do Doutor fazendo piada com o guarda que caiu na piscina de ácido (um excelente piada, por sinal).

Não há dúvidas de que esta versão do Doutor tem um dos princípios de ação mais interessantes e astutos desde a sua 3ª encarnação. Agora imaginem essa característica em um planeta que um dia foi uma prisão para criminosos insanos e que atravessou gerações sendo governado pelos descendentes dos oficiais, o que explica todo o elemento punidor presente nesta sociedade, então marcada por rebeliões de trabalhadores descontentes com as condições de vida, de trabalho, com as execuções e torturas televisionadas (o ‘ópio do povo’, o circo sem o pão, a distração das massas). Sem saber, o Doutor maneja a TARDIS, que havia acabado de dar uma pane por falta de energia, para se materializar em Varos, onde poderia ter acesso ao raro metal Zeiton-7 e então seguir viagem.

Temos novamente cenas dedicadas ao Doutor e Peri construindo seu laço de amizade à la eletrocardiograma e vemos o Time Lord mexendo na TARDIS, que novamente voltou a ser um “problema em andamento”, sempre precisando de reparos, sempre com peças para serem trocadas, esse tipo de coisa… uma memória afetiva da nave para com a era do 4º Doutor. Todavia, essa versão do Senhor do Tempo disfarça o quanto pode e julga estar no controle de tudo, às vezes parecendo aceitar determinados destinos fatídicos enquanto pensa em uma boa saída para a situação. No meu ponto de vista, isto o classifica ao mesmo tempo como uma das encarnações mais destemidas, impulsivas e [apenas aparentemente] irresponsáveis, embora uma outra atitude seja de fato instintiva demais até para este Doutor.

Paralela à representação do Big Brother, dos relatórios e denúncias de “ações fora da lei” na sociedade de Varos — um espaço militarizado por tradição, vivendo sob um Estado de exceção que cultua a violência e a intriga dos bastidores do poder –, destaca-se uma insana hierarquia política, com poderes não totalmente bem definidos: alguns cargos possuem total liberdade, independentes do Governador (como no caso do Chefe Cientista); outros são subordinados ao chefe de Estado, mas este está sobre um fino fio, passando por provações e votações o tempo inteiro, o tipo de democracia histérica e fingidora que dá a impressão que faz o melhor para todos, dando-lhes controle sobre a vida de quem os governa, quando na verdade legitima, através de um sistema eleitoral estúpido, a própria desgraça social. Essa falsa democracia e o tipo neurótico de banalidade do mal nem ganham espanto do Doutor e Peri, porque eles sentirão na pele o lado mortal — e por outro lado, de entretenimento — que tal sistema instituiu no planeta.

A interpretação de Colin Baker é extensa, mesclando momento de medo, de desafio, de ironia e até vingança, curiosamente sempre motivado por ações na defensiva. Particularmente não vejo violência nenhuma partindo do Doutor e tampouco vejo incômodo nos elementos de violência expostos aqui. São outros tipos de morte, em outros cenários, em outro tempo. Assim como é natural ver pessoas morrendo envenenadas, em batalha e/ou através da espada na era do 1º Doutor, é natural que vejamos outros tipos de morte causada pela visita de suas encarnações posteriores a lugares mais perigosos. Essa dose de realismo, aliás, é algo bastante positivo nesse início de era, a meu ver.

A questão social que permeia as entrelinhas do episódio é organicamente misturada com a fuga do Doutor e Peri das diversas armadilhas do Domo da Punição, sendo essas ações e as quase-execuções ou transformação deles televisionadas para a população. Nos bastidores, vemos desenrolar-se uma guerra comercial do Governador contra Sil, desonesto representante da Galatron Mining Corporation (que jurava que Peri era uma espiã da Companhia Amorb, principal rival de comércio da Galatron) e novamente o texto ganha ares críticos sobre como o comércio na esfera de monopólios e oligopólios define caminhos de guerra, invasão e pobreza de uma população inteira, conceitos que recentemente já haviam aparecido na série, no arco de despedida do 5º Doutor, The Caves of Androzani.

O ator que interpreta Sil, o vilão maluco, sofria osteogênese imperfeita, então foi feito um trabalho especial para colocar sua cadeira de rodas em uma plataforma que parecesse o tanque de abastecimento do vilão. É impossível não rir das linguadas de felicidade violenta que Sil faz toda vez que alguém está para sofrer muito ou toda vez que ele acha que conseguiu enganar o governador e conseguir o valioso Zeiton-7 a preço de banana. Ele rouba praticamente todas as cenas em que aparece e arranca do espectador um olhar de cumplicidade quando pede para seus lacaios umedecê-lo com delicadeza.

Marcado por valores de opressão social, sociedade punidora, mudanças constantes de poder e controle de massa através da TV, este arco é uma interessante aventura em diversos níveis, tanto teórico quanto prático. O roteiro tropeça em exageros ou mudanças rápidas do rumo das coisas, como o inexplicável cancelamento de invasão a Varos, sem nenhum impasse diplomático maior ou a pobreza na ligação dos dois cidadãos que assistem a TV e fazem comentários idiotizados a respeito da programação e da situação em que vivem, um deles claramente descontente e resignado, enquanto a outra é alienada e totalmente entregue às ordens do sistema, as mesmas que tornam sua vida ainda pior (me lembra muito pessoas que defendem propostas, políticos, partidos e governos que estão transformando a vida de todo mundo em um imenso lamaçal de retrocessos). O bom é que os vilões aqui não são plenamente vilões, eles possuem camadas que às vezes nos confundem. Como os cidadãos, políticos e outros donos do poder que tão bem conhecemos nas sociedades em nosso tempo.

Vengeance on Varos (Arco #138) — 22ª Temporada
Direção: Ron Jones
Roteiro: Philip Martin
Elenco: Colin Baker, Nicola Bryant, Martin Jarvis, Martin Jarvis, Nicolas Chagrin, Jason Connery, Forbes Collins, Stephen Yardley, Sheila Reid, Geraldine Alexander, Graham Cull, Owen Teale, Keith Skinner, Hugh Martin
Audiência média: 7,10 milhões
2 episódios (exibidos entre 19 e 26 de janeiro de 1985)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.