Crítica | Doctor Who: Short Trips – One Small Step e Outras Histórias

Spoilers!

Escrito por Nicholas Briggs, One Small Step…, do livro Short Trips: Past Tense (2004) é uma história emotiva em muitos sentidos. Ela mostra o quanto o Doutor pode sentir extrema culpa por algo que não necessariamente fez, mas que, por sua mínima interferência, acabou acontecendo. E o caso aqui é realmente tocante. A trama se passa na Ilha de Wight, em 20 de julho de 1969, e o 2º Doutor, Jamie e Zoe estão se divertindo na praia. O Doutor resolve se afastar para ir buscar sorvete e encontra um garoto, que é orientado pelo Time Lord a ir para casa e pedir autorização ao pais para estar na rua. Nisso, o menino é atropelado por um carro. Ele não morre, mas certamente jamais poderá andar.

O que se segue é uma tentativa de meses do Doutor para voltar à ilha na mesma data e impedir o acidente, mesmo que fosse da forma mais simples possível. Decidindo não ir buscar nenhum sorvete e consequentemente não orientar o garoto a atravessar a rua, o acidente é evitado, mas uma semente dessa viagem do tempo é plantada nos ouvidos do garoto e na mente do Doutor. O conto, apesar da temática densa, tem uma boa veia humorística, dando a Jamie o papel de quem não sabe o que está acontecendo e vive fazendo perguntas inconvenientes; e a Zoe os olhos revirados e a vergonha alheia para com as atitudes do amigo. [3/5]

The Gift, parte do livro Short Trips: The History of Christmas, é um conto de Robert Dick, onde o 1º Doutor arranja uma desculpa esfarrapada, supostamente colocando Susan em perigo, para conhecer o Brigadeiro Lethbridge-Stewart, agora na casa dos 70 anos e aposentado da UNIT. Há um perigo aqui, já que esta encarnação do Doutor não conheceu o Brigadeiro fisicamente, mas o Time Lord dá um jeito e entrega um “presente” importante para o Brigadeiro e sua esposa Doris, brigados por conta de um barco. Uma história familiar muito bonita. [4/5]

Echo, parte do livro Short Trips: Life Science, é um conto de Lance Parkin, narrado por Ace. O autor retorna a algo que ele já havia escrito antes, em The Exiles, com a misteriosa figura falando com alguém através de um espelho da TARDIS. Aqui, Ace está perseguindo um Dodo que fugiu do zoológico da nave. Depois de entrar no mesmo mega armário que Susan entrara muitos anos antes, ela avista no espelho uma figura que chama de “o belo filho do Drácula” ou de Drácula Jr.”. A figura conversa brevemente com ela, fala sobre um eco e pergunta se “ele” estava lá e se “ele”, ou seja, o Doutor, já havia falado para ela sobre os velhos tempos. Uma mistura de terror e mistério. Brilhante! [5/5]

The Longest Story in the World, parte do livro Short Trips and Side Steps, é um conto de Paul Magrs sobre o tempo em que o Doutor vivia com Susan em Gallifrey. Ele não é exatamente um conto de origem. Não dá detalhes sobre como ela foi morar com o Doutor e qual o verdadeiro núcleo que faz deles avô e neta. Porém, dá detalhes interessantes sobre a mentalidade intuitiva de Susan (algo que seria confirmado depois, em The Sensorites), o que ela “imaginava” sobre o futuro e as primeiras conversas sobre deixar o planeta. E o mais interessante de tudo é que a trama ocorre como parte das famosas mil e uma noites, sendo contadas para um Califa. Sensacional! [4,5/5]

The Exiles, conto de Lance Parkin para o livro Short Trips: A Universe of Terrors, mostra o momento depois da partida do Doutor e Susan de Gallifrey. Da desmaterialização da TARDIS até a primeira “noite” na nave, vemos os questionamentos da garota, a descoberta do que existe atrás de algumas portas, o lugar inicialmente escuro, o fato de o Doutor não estar completamente preparado para a fuga e uma série de dúvidas sobre o que tinham acabado de fazer. Um caminho sem volta. É visível o desespero do Doutor e sua neta e é muito interessante a forma como o autor trabalhou isso no conto. A “segunda parte” da narrativa coloca Susan experimentando roupas de um mega armário da nave e vendo em um misterioso espelho um eco do passado, de um homem que dizia que aquele não era “o tempo”… Um conto de terror em um momento icônico na linha do tempo do 1º Doutor. [4/5]

Museum Peace, conto de James Swallow para o livro Short Trips: Dalek Empire (2006) coloca o 8º Doutor novamente em contato com Kalendorf, no século 42, em um museu dedicado à Dalek War, no planeta Vega VI. Os protagonistas já haviam se encontrado em tempos da guerra (especificamente no ano de 4162), no conto Kalendorf. Sem muitas explicações nesse primeiro contato, o Doutor desaparece com sua TARDIS e volta, anos depois, para encontrar um Kalendorf mais velho e pedir-lhe conselhos sobre a destruição dos Daleks. Uma conversa filosófica entre os dois acontece, o Doutor defende a oportunidade e o impasse da escolha (ecos de Genesis of the Daleks), e o velho soldado defende o fim absoluto de uma criatura que tanto sofrimento trouxe a tantas galáxias. A trama é parcialmente interessante, mas bastante corrida especialmente a sequência que causará a verdadeira crise, com um Dalek aparecendo e atirando em uma criança. O conto é válido pela forte discussão ético-moral, mas perde força na organização narrativa, principalmente no desfecho. [2,5/5]

Lepidoptery for Beginners, do livro Short Trips: Defining Patterns (2008), foi escrito por John Dorney e é uma verdadeira obra-prima sobre viagens no tempo, efeito-borboleta, paradoxo temporal e luta entre grandes inteligências, aqui, do 2º Doutor, Jamie e Zoe e do cientista maluco encarcerado, Iolas Blue. Todo o conceito de construção e previsão do futuro através de análises e cálculos matemáticos feitos pela máquina/robô The Predicticon tem raízes firmadas em A Fundação, de Asimov, e funciona com perfeição no conto. A armadilha é tão interessante e tão bem feita que é possível comparar imediatamente os eventos desta aventura com o mesmo padrão dramático de dois outros “sequestradores do Doutor” que também brincavam com o tempo: The Celestial Toymaker e The Queen of Time. A surpresa que o robô faz para Blue no final e a forma seca e imperdoável com que o conto termina faz desta uma das mais cruéis (e geniais) aventuras protagonizadas pelo 2º Doutor. [5/5]

Estabelecido entre os episódios 7 e 8 do arco The Daleks’ Master Plan, o conto The Little Drummer Boy, do livro Short Trips: Companions (2003) é uma das mais descaradas ações do Doutor ao mudar a história de um garoto, cujo contato com uma forma alien e inteligente de vida parece não ter dado muito certo… O 1º Doutor, Steven e Sara estão fugindo dos Daleks e o que vemos neste conto é exatamente a fuga deles no final do episódio 7 de The Daleks’ Master Plan. Daí para frente, o Doutor colocaria coordenadas aleatórias na nave e ela sempre pousaria na Terra no período do Natal (véspera, dia ou um dia depois) nos anos de 1885, 1982, 1946, 1931 e 2069. Em cada uma dessas viagens, o mesmo garoto aparece e desaparece no momento em que a TARDIS se desmaterializa. Até que Sara consegue conversar com o menino e dá-se início à resolução do caso, com substituição de um irmão doente pelo outro, que na verdade, era o mesmo menino… Uma trama que mostra que quando é realmente preciso, e dada certas circunstâncias atenuantes, o Doutor interfere sem medo na vida e na história das pessoas. Eis aqui mais uma explicação para o que os Time Lords fariam com ele em The War Games. [3/5]

The Piltdown Men, escrito por Paul Dale Smith, não faz parte de nenhuma coletânea prévia de histórias, sendo, portanto, um conto inédito gravado para a Big Finish. A trama é um pouco confusa no início, mas nada que o espectador não possa entender logo em seguida. O 2º Doutor está sozinho durante esses eventos e acaba encontrando-se com H. G. Wells em uma cerimônia fúnebre de uma determinada espécie alienígena. Desentendimentos entre o Doutor e os aliens acontecem, mas logo as duas espécies chegam a um acordo. No final, todos aprendem alguma coisa e os conceitos de Biologia discutidos no início só aumentam para os envolvidos na história. Embora a mensagem seja boa, o conto, em si, não agrada de todo. [2,5/5]

Em Twilight’s End, conto de Cavan Scott e Mark Wright para o livro Short Trips: Defining Patterns (2008), o 7º Doutor reencontra Nimrod em uma situação completamente inesperada e aterradora. Esta aventura é uma espécie de “finalização” dos encontros anteriores do Doutor com esse personagem (cujo nome verdadeiro era William Abberton). O Doutor está abalado por perdas que teve e tenta salvar Nimrod de sua própria loucura, mas o resultado não é nada positivo e o Doutor toma como ação uma daquelas posturas rígidas que acabam mostrado o seu lado Time Lord de ser. Uma história que deveria ser uma armadilha mas cujas ações vão mudando do meio para o final, mostrando o “fim” patético de alguém que jamais aceitou ser derrotado e sempre quis colocar planos em prática para beneficiar a si próprio em detrimento da vida de muitas outras pessoas, coisa que o Doutor jamais deixaria barato. [3/5]

Doctor Who: Short Trips
Autores: Nicholas Briggs / James Swallow / John Dorney / Eddie Robson / Paul Dale Smith / Cavan Scott &Mark Wright
100 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.