Crítica | Doctor Who: Short Trips: O Caminho da Mão Vazia e Outras Histórias

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As edições da 5ª Temporada das Short Trips aqui criticadas foram lançadas pela Big Finish entre outubro e dezembro de 2015, cada uma dessas histórias com um Doutor diferente, escritas por roteiristas diferentes, mas todas dirigidas por Lisa Bowerman. O mesmo padrão se aplica às edições da 6ª Temporada, lançadas entre janeiro e abril de 2016.

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SPOILERS!

Há uma piada interna no título This Sporting Life. O pequeno conto coloca o 1º Doutor, Dodo e Steven em Londres, durante a Copa do Mundo de 1966, e o desaparecimento da Taça é o problema central. A piadinha é com um filme britânico com esse mesmo título (O Pranto de um Ídolo, no Brasil), lançado em 1963, e dirigido por Lindsay Anderson, com William Hartnell no elenco. Mesmo que o esporte em questão seja outro (futebol, no conto; rugby, no filme), a relação de “treinador/salvador” funciona nas duas obras. Aqui, o Doutor, Steven e Dodo salvam um alien perdido e encontram uma situação que tem a maior cara de “intrigas da Guerra Fria”, além de viverem uma aventura que mais parece da era do 3º Doutor. Muito interessante. [3,5/5]

Ambientado entre os arcos The Seeds of DeathThe Space Pirates, The Way of the Empty Hand carrega o nome-significado do do Karatê, O Caminho da Mão Vazia, e coloca o Doutor, Jamie e Zoe em um mundo mecanizado onde a existência é baseada em lutas forçadas entre os campeões escolhidos (ou melhor, sequestrados, via teleporte) pelo administrador desse mundo-arena chamado Combatia. A história se desenvolve de maneira rápida e tem a coragem de colocar o Doutor, Jamie e Zoe em quase uma zona de guerra, o que me lembrou o tempo inteiro estar apreciando uma versão da Big Finish para The War Games. A comparação não é despropositada. Existe, de fato, muitas semelhanças entre as duas aventuras. A diferença é que em The Way of the Empty Hand o caminho trilhado é bem menor e existe muito mais a presença das ideias geniais do Doutor para lidar com o problema de ser forçado a lutar. Uma boa história, apensar de não ter tanto cuidado na exploração do mundo dos vilões. [3/5]

Londres, 1948, período de reconstrução após a Segunda Guerra Mundial. Este é o cenário de Lost and Found. O Doutor, Ben e Polly chegam à cidade e imediatamente lembranças da infância dos companions aparecem. Ambos se recordam de dificuldades enfrentadas quando eram crianças e uma dessas lembranças, o fato de Polly ter perdido um ursinho e nunca tê-lo encontrado, toma conta do cenário. Ben tenta não rir da companheira e o Doutor é mais receptivo aos sentimentos que ela demonstra. As coisas começam a ficar estranhas quando o Doutor nota que existem criaturas presas dentro de enlatados (isso mesmo, vozes dentro de latas!) em um supermercado. O ponto final da luta acontece em uma seção de brinquedos achados e perdidos. Para terminar, temos ainda a fofíssima interação de Polly com sua versão criança. [4/5]

The Other Woman, narrada com acertada emoção por Katy Manning, mostra a UNIT sendo chamada para atender uma nave em uma região do Condado de Kent, no Sudeste da Inglaterra. A pequena cápsula alienígena traz uma mulher a bordo. O Doutor se oferece para consertar seu transporte, um impulsionador temporal, vendo nisso a oportunidade de escapar de seu exílio. Callandra, a misteriosa mulher, faz com que o Doutor se encante por ela, assim como os outros homens da UNIT. A única pessoa que desconfia da alienígena é Jo, desde o momento em que a ouve pela primeira vez. Todo o roteiro de Philip Lawrence é construído sob esse vai-e-vem de confiança por parte do Doutor e busca de Jo para provar que todos estavam errados. Há uma bela cena de embate dela com o Brigadeiro e um emocionante diálogo final dela com o Time Lord, que pede desculpas por colocá-la em uma situação de perigo apenas por um capricho egoísta. [3,5/5]

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The Blame Game traz um dos personagens da Série Clássica que eu mais gosto, O Monge (ou Time Meddler), em uma “missão de resgate” para o Doutor, ainda nos primeiros meses de seu exílio na Terra. Com Liz Shaw como companion, o Doutor irá viver uma aventura de confiança e desespero, onde ele aceita fazer um trato com o Monge para se ver livre da “prisão” no planeta azul. Mas as coisas não saem como previstas, porque Liz entra clandestinamente na TARDIS do Monge e, como era de se esperar, há um desejo de vingança por trás de tão grande demonstração de amizade do Time Meddler para com o Doutor. [3,5/5]

Damascus é uma aventura que clama por uma continuação. Ela dá conta da entrada de uma nave espacial da Terra e da ida do Primeiro Ministro até o Doutor, que tinha dito que não faria nada, pois a nave não havia ameaçado o planeta e eles eram comerciantes que logo iriam embora. Após o encontro com a espécie visitante e o assumir de que o Projeto Damascus, que o Doutor havia dito expressamente para que fosse interrompido, ainda existia, o Ministro é colocado para fora de Bessie e o Doutor segue viagem sozinho. Todo o áudio é uma gravação do Primeiro Ministro, que julga o Doutor uma ameaça moral para o planeta e deve ser combatido. Simplesmente sensacional! [4,5/5]

Black Dog é uma história de terror. O Doutor e Leela estão em Canus Alpha, local onde os habitantes sonham com um cachorro negro e, a partir desse momento, se tornam “possuídos” por esta “entidade”, considerado um deus pelos locais. O Doutor toma inicialmente as informações como sendo uma lenda urbana, mas quando Leela sonha com o cão e passa a definhar, as coisas tomam um rumo bem diferente. Assim como na história anterior (The Other Woman), há um quê de confissão e prova de humildade do Doutor em relação à sua companion, com grande destaque para a força de vontade de extremo desejo de luta que marcam a personagem Leela. [3/5]

Uma história confessional, Gardens of the Dead coloca um idoso Turlough lembrando-se de uma aventura que viveu ao lado do Doutor, Tegan e Nyssa logo depois de se juntar aos tripulantes da TARDIS. A nave se materializa nos Jardins da Morte e os viajantes podem ver representações de pessoas queridas que estão mortas. mas para Turlough, o impacto é diferente. Uma voz medonha o força a querer matar o Doutor e o tortura quando há resistência. O roteiro faz uma ótima interação entre os personagens no início de viagem, explorando desentendimentos e brincadeiras um pouco infantis, além das primeiras impressões de Turlough em relação ao Doutor. Uma história verdadeiramente macabra e interessante. [4,5/5]

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Prime Winner é uma das histórias mais legais dessa leva de pequenos contos. O Doutor e Peri estão em um Cassino, em uma nave espacial, após um incidente em Paris, do qual eles não falam, mas há várias indicações de que foi algo realmente constrangedor e que o Doutor tenta evitar a todo custo. Brincando com a inabilidade dele em assumir erros e tentar descobrir as coisas de maneira caótica, o autor coloca o Time Lord e sua companion em um drama de viagem no tempo dentro de uma viagem no tempo, com a temática de loop temporal e uma surpresa de aniversário ao final. Uma atitude fofa do Doutor em uma história excelente. [5/5]

E se houvesse um “demônio” que tivesse a habilidade de se esconder em livros e dominasse a mente dos leitores? A resposta para essa pergunta é o cerne do roteiro de Washington Burns, onde o Doutor e Ace lutam contra um alien chamado CEREBRA no século 22 e voltam no tempo para apagar os rastros escondidos pelo invasor nos livros da Biblioteca de Washington, em 1814. Em um drama que comporta queima de livros e oposição político-ideológica entre britânicos e americanos, o Doutor e Ace tentam fazer o máximo para salvar o mundo. Mas o final parece deixar uma ponta de tragédia e possibilidade não muito convidativas. Outra história que clama por uma continuação. [4/5]

The Curse of the Fugue, última história desse bloco, é a menos interessante de todas. O 8º Doutor e Lucie estão na Grã Bretanha, nos anos 1970, em um momento difícil para o país, vivendo um drama que engloba Guerra Fria, ameaças tardias sobre “pecados cometidos durante a Grande Guerra” e cortes de luz de onde “visitantes” perturbadores tornam insuportável a vida de uma velha senhora. O tom de relacionamento e união para lutar contra um alien no escuro é, em parte, interessante, mas o restante do enredo não prende e não apresenta nada mais substancial para prender o espectador. Uma pena. [2/5]

Short Trips (Reino Unido, outubro a dezembro de 2015 / janeiro a abril de 2016)
Direção: Lisa Bowerman
Roteiro: Una McCormack (This Sporting Life), Julian Richards (The Way of the Empty Hand), Penelope Faith (Lost and Found), Philip Lawrence (The Other Woman), Ian Atkins (The Blame Game), Dale Smith (Black Dog), Gardens of the Dead (Jenny T Colgan), Prime Winner (Nigel Fairs), Washington Burns (Julian Richards) e The Curse of the Fugue (Alice Cavender).   
Elenco: Frazer Hines, Katy Manning, Louise Jameson, Mark Strickson, Nicola Bryant, Sophie Aldred, Sheridan Smith, Peter Purves, Anneke Wills, Rufus Hound, Tim Treloar.
Duração: c.36 min. (cada episódio)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.