Crítica | Doctor Who: The Christmas Invasion

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Nos segundos finais de The Parting Of The Ways, que fechou a 1ª Temporada da Nova Série, o público que conheceu Doctor Who através das aventuras estreladas por Christopher Eccleston sofreu um choque ao ver o Doutor, que havia absorvido uma dose letal de energia do Vórtice do Tempo para salvar sua companheira, ser envolto por energia dourada e se transformar em um homem completamente diferente. Após reintroduzir o conceito da regeneração, o showrunner Russell T. Davies tinha um novo desafio pela frente. Se antes ele precisava provar que Doctor Who poderia ser relevante para a televisão novamente, agora o produtor precisava mostrar que, assim como a Série Clássica, a Nova Série poderia sobreviver sem o seu protagonista original.

David Tennant, que foi visto nos segundos finais de The Parting of The Ways fez sua estreia oficial como o 10º Doutor em dois especiais, o mini episódio exibido durante o Children In Need (campanha parecida com o nosso Criança Esperança) e o Especial de Natal de 2005 intitulado The Christmas Invasion. Esse último iniciou uma tradição para a série, que passou a exibir todos os anos um episódio Especial de Natal, mesmo quando o programa esteve em hiato. O mini episódio de Children in Need (exibido sem título mesmo) começa do exato ponto em que a temporada anterior terminou, mostrando a reação de Rose à nova aparência (e personalidade) do Doutor. A cena, escrita por Davies e dirigida por Euros Lyn, é interessante tanto por marcar as diferenças mais flagrantes da persona deste novo Doutor em relação à sua encarnação anterior, mas também por retratar o início do processo de aceitação de Rose de que o homem que acaba de surgir na sua frente é quem afirma ser.

O choque e a desconfiança da companion diante da nova versão do Time Lord é tratado de forma muito coerente, com a jovem tentando buscar explicações para tal transformação através de referências de aventuras anteriores, sem acreditar inicialmente que o estranho homem é o seu companheiro de viagem. David Tennant, por sua vez, concede ao 10º Doutor em sua primeira aparição uma alegria explosiva, diferindo do personagem mais reservado vivido por Eccleston. A personalidade mais “de bem com a vida” do Doutor de Tennant também pode ser notada, já indicando alterações na dinâmica com Rose, que passaria a apresentar uma tensão romântica mais acentuada, já que diferente de seu antecessor, o Décimo Doutor não apenas reage aos flertes da garota, mas também flerta.

Porém é no Especial de Natal que a primeira aventura do Décimo Doutor tem início de fato. The Christmas Invasion vê o Time Lord incapacitado por boa parte da história, mergulhado em um coma pós regenerativo, depois de chegar de forma desastrosa à Powell Estate, juntamente com Rose, em plena véspera de Natal. Os problemas aumentam quando a raça Sycorax ataca a Terra, assumindo o controle da mente de grande parte da população mundial, e ameaçando provocar um suicídio em massa caso a Terra não se renda. Adotando uma técnica da Série Clássica de deixar o novo Doutor fora de ação em algum nível durante a sua primeira aventura, o episódio foca na sensação de impotência dos outros personagens diante da ameaça extraterrestre, incapazes de lidar com a invasão sem a ajuda do Doutor. O episódio busca inspiração nos clássicos filmes de invasão alienígena, mostrando os efeitos do ataque hipnótico dos Sycorax, ao redor do mundo, destacando imagens de grandes monumentos nacionais enquanto uma grande nave alienígena sobrevoa Londres. O roteiro traz também cientista, militares e governantes (representados aqui pela nova Primeira Ministra, Harriet Jones, de Aliens of London/World War Three) reunidos em salas de guerra, sem saber como reagir diante da ameaça.

Do outro lado da trama, o caráter global da narrativa é deixado um pouco de lado, para focar nas tentativas de Rose, Jackie e Mickey de entenderem o que está havendo com o Doutor, ou mesmo saber se podem confiar nele, enquanto tentam ter um Natal normal. Aqui, o roteiro insere um elemento que se tornaria comum nos especiais de natal da era Davies/Tennant, as máquinas assassinas disfarçadas de símbolos natalinos, com destaque para a árvore de Natal mortífera, que gera um dos momentos mais divertidos do Especial.

Estes dois núcleos do episódio, que se encontram no clímax, refletem dois dos grandes interesses de Russell T. Davies na série, que viriam a se tornar muitas vezes conflitantes ao longo de seu mandato como showrunner; o impacto do primeiro contato e o contraste da vida cotidiana com o mundo do Doutor. Afinal, como o Doutor parece deixar claro em seu diálogo final com Harriet Jones, um mundo que reconhece a existência de vida alienígena inteligente e avançada é um mundo mudado pra sempre. Davies parece se interessar por tal conceito, mas percebe também que um mundo como esse tem dificuldade em se encaixar na ideia de contraste de cotidiano que tanto lhe agrada. O showrunner passaria boa parte de seu mandato tentando articular estes dois conceitos, mas infelizmente, tal articulação não funciona bem em The Christmas Invasion, causando alguns desconfortos na narrativa, como o deslocamento dos Peixes Piloto (as maquinas de natal assassinas) em relação ao resto da história.

Os Sycorax tem um tratamento interessante por parte do roteiro, refletindo a posição do episódio de uma invasão alienígena sem o Doutor e com o Doutor. Quando o 10º está fora de cena, os invasores são retratados de forma ameaçadora, já que sequer entendemos o seu idioma. Mas no momento em que o Time Lord desperta do coma, toda a aura de ameaça em torno dos Sycorax cai por terra, já que o Doutor recém-regenerado os trata como uma fraude, uma ameaça de terceira classe que ele resolve em cinco minutos usando um pijama. Embora seja uma ideia bastante interessante, a situação dos Sycorax expõe a falta de fluidez do roteiro e da direção ao transitar entre tons, o que se torna ainda mais flagrante no ato final da narrativa. Se o duelo entre o Décimo Doutor e o Comandante dos Sycorax é tratado de forma leve e despretensiosa, o desentendimento subsequente com Harriet Jones ganha uma densidade que, embora levante questões éticas e políticas muito pertinentes, não se comunica com o que veio antes. O que até seria perdoável, se Davies não escolhesse tratar a queda do governo de Harriet Jones com uma nota cômica que quebra a tensão dramática que deu início ao conflito entre o Doutor e a Primeira Ministra.

Se o roteiro tem dificuldade em transitar entre os tons mais leves e densos que a história se propõe a explorar, o mesmo não pode ser dito de David Tennant, que com pouco tempo efetivo de tela consegue nos dar uma boa ideia de quem é o 10º Doutor, e como ele se diferencia de seu antecessor. Como já havia sido antecipado pelo mini episódio Children In Need, o Doutor de Tennant é um homem muito mais alegre e confiante do que o traumatizado Time Lord vivido por Eccleston. Ele está mais aberto a se aproximar das pessoas e aceita com gosto passar a noite de Natal com Rose, Jackie e Mickey, algo que deixaria o 9º Doutor no mínimo desconfortável. Essa confiança parece se refletir mesmo no figurino, já que enquanto o Nono Doutor preferia ser “mais um na multidão” com sua discreta jaqueta preta, o Décimo Doutor já está pronto pra usar um traje levemente mais excêntrico, que dialoga mais diretamente com as roupas usadas pelos doutores da Série Clássica. Entretanto, Tennant também expõe a faceta mais sombria do Décimo Doutor, que se sente apto a punir Harriet Jones quando ela toma uma decisão moralmente questionável, demonstrando um orgulho que se tornaria cada vez mais acentuado ao longo da série.

Embora tenha problemas em fazer a transição entre os tons da história, o diretor James Hawes consegue driblar o baixo orçamento da série na maior parte do tempo e conceder ao especial o clima de grandiosidade proposto pelo roteiro de Davies, embora não faça um trabalho tão acurado quanto em The Empty Child/ The Doctor Dances, sua estreia no show. Destaca-se também na parte técnica o e visual criado para os Sycorax, que ganham certo aspecto tribal. The Christmas Invasion é um episódio bastante divertido, que funciona como uma boa introdução ao 10º Doutor e a muitos dos temas que seriam trabalhados na Segunda Temporada (Torchwood ganha a sua primeira citação aqui, tendo um papel importante no rompimento do Doutor e Harriet Jones), além de ter determinado o tom de todos os Especiais de Natal seguintes da Era Davies/Tennant. Entretanto, o roteiro parece sofrer de certa crise de identidade, que acaba prejudicando o resultado final.

Doctor Who: Children in Need (Reino Unido, 18 de Novembro de 2005).
Direção: Euros Lyn.
Roteiro: Russell T. Davies.
Elenco: David Tennant, Billie Piper.
Duração: 7 min.

Doctor Who: The Christmas Invasion (Reino Unido, 25 de Dezembro de 2005).
Direção: James Hawes.
Roteiro: Russell T. Davies.
Elenco: David Tennant, Billie Piper, Camille Coduri, Noel Clarke, Penelope Wilton, Daniel Evans, Adam Garcia, Sean Gilder, Chu Omambala, Anita Briem, Paul Anderson.
Duração: 60 min.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.