Crítica | Doctor Who: The Day of the Doctor

estrelas 5

Não perca mais tempo discutindo sobre o que um bom homem poderia ser. Seja um.

Marco Aurélio

É preciso muita coragem ou loucura, dependendo do ponto de vista, para fazer o que Steven Moffat fez neste Especial de 50 anos de Doctor Who: The Day of the Doctor.

O atual showrunner da série havia dito em entrevistas que iria reescrever  história do show a partir desse episódio de aniversário, e de fato ele o fez. Doctor Who ganha uma lente de aumento a partir de agora, quebrando anos de desprezo à Série Clássica, respeitando os elementos canônicos essenciais e reescrevendo a História da nova série. Gallifrey falls no more.

A história tem como concepção geral a Time War, criada por Russell T Davies em 2005 e citada pelo 9º Doutor nos episódios iniciais da 1ª Temporada. Mas a guerra não foi trazida do jeito que talvez esperávamos. Sendo The Day of the Doctor precedido por dois pequenos prequels, acabamos tendo uma introdução pequena do que foi a guerra, do que ela causou e também de seus horrores (só aí temos muito mais do que T Davies, o criador da tal guerra, mostrara), de modo que sequências pequenas dos combates em Gallifrey são mostradas mais como contexto do que como tema. Tudo converge para a decisão final do War Doctor, vivido impecavelmente por John Hurt. E nesse ponto, preciso dizer que todo o elenco do Especial está maravilhosamente bem, com excelentes interações entre si e interpretações notáveis.

Há uma quantidade alucinante de referências a todos os momentos da série: “reverta a polaridade do fluxo de nêutrons!” do 3º Doutor / vortex manipulator de Jack Harkness / UNIT / companions antigos como fotografias do Black Archive / Coal Hill School, onde Clara dá aulas / porta do galpão I.M. Foreman / moto do filme de 1996 / frase “my future is in good hands“, exatamente as mesmas palavras ditas pelo ao 5º Doutor em The Five Doctors / paredes da TARDIS clássica / referência às orelhas que o 9º Doutor vai comentar no episódio Rose / o código de acesso 1716231163, que podemos entender como: 17h16min. de 23/11/63, hora e dia referidos no 1º episódio da série / o cachecol do 4º Doutor, etc. Talvez possamos trabalhar as explicações e dissecar teorias e mais referências (o que não faltam) num futuro Entenda Melhor aqui no site. Por hora, usarei das referências que são postas no roteiro como ligações narrativas entre pontos diferentes da história, a fim de abordarmos as partes mais importantes de todo enredo.

Pela primeira vez, Clara aparece livre de mistérios. Sua independência é firmada, ela tem um emprego e dá aulas (vejam só!) na mesma escola que Susan Foreman, a neta do Doutor, estudava. Até podemos ver a porta do galpão onde a TARDIS estava materializada em 1963, no episódio An Unearthly Child.

O encontro entre a impossible girl e o Doutor é interrompido pelo rebocamento da TARDIS pela UNIT, sob comando de Kate Stewart, filha do Brigadeiro Alistair Gordon Lethbridge-Stewart, que fez história em praticamente toda a série clássica de Doctor Who, começando ainda na encarnação do 2º Doutor e se estendendo por quase todos os outros. O chamado tem uma grande urgência: Kate precisa entregar para o Time Lord uma carta da rainha Elizabeth I e então mostrar “suas credenciais”. Nesse episódio, entendemos duas outras coisas: por que ela é chamada de “rainha virgem” e por que ela simplesmente odeia o Doutor quando aparece em The Shakespeare Code, na 3ª Temporada.

Tanto na Londres de 1562 quanto na de 2013, temos um inimigo em comum: os Zygons. E é muito importante que fossem exatamente esses os vilões da vez, porque a ponte temporal entre os Doutores precisava ser o disfarce, já que o trato entre Zygons e humanos foi posto em pauta mas não mostrado o final, o que abre espaço para o convívio, mistura, ou futuro conflito entre as raças (nem a Kate humana nem a Kate Zygon sabe quem é quem), muito embora as “duas” Osgoods nos tenham dado uma pista do que está por vir (lembrem-se que, assim como todos os Especiais de aniversário de Doctor Who e os arcos multidoctors da Série Clássica, esse Especial de 50 anos deixa uma série de pontas para serem amarradas no próximo capítulo da série – o Especial de Natal – e também para a 8ª Temporada). Depois, porque esses Zygons, que ironicamente tiveram seu planeta destruído logo no início da Time War, estão invadindo o presente da Terra a partir do passado, saindo de dentro dos quadros da London’s National Gallery, que ironicamente tem um Curador (lembram-se do Curador de Summer Falls?) de procedência bastante ambígua, que ironicamente (ele ou a pessoa com quem ele se parece) foi o primeiro Doutor a enfrentar os Zygons, em 1975, num arco de nome bastante sintomático: Terror of the Zygons. E aqui, só um comentário: que atuação de tirar o fôlego essa do Tom Baker! E que revelação foi vê-lo novamente na série!

Mesmo com a direção burocrática de Nick Hurran, é possível ter bons momentos de todas essas três linhas do tempo se cruzando, algo que recebe melhor cuidado da equipe de concepção estética, especialmente na caraterização dos espaços e iluminação de cada um deles. Os efeitos especiais vão na mesma linha dos que vimos na 7ª Temporada, só que, devido ao maior orçamento, tivemos um número ainda maior deles e uma maior qualidade também. O 3D teve bom uso nas cenas chaves, mas foi “ok” a outra parte do tempo, sem nada de espantoso ou brilhante. Em relação a isso, brilhante mesmo foi a abertura de Strax e do 11º e 10º Doutores, trocando farpas, falando de queixos e rugas, uma tiração de sarro divertidíssima e que seria refletida na relação entre os dois no decorrer da projeção.

O cruzamento entre as linhas temporais do 10º, 11º e War Doctor foi feita a partir de portais abertos pelo Momento/Bad Wolf, arma devastadora criada pelos Time Lords e que desenvolveu uma consciência, esta, vivida brilhantemente por Billie Piper, que em outros tempos chamamos de Rose Tyler. Mesmo as linhas temporais estando em sincronia, é importante ressaltar uma coisa: a única linha do tempo ativa é a do 11º Doutor, portanto, toda reescrita da história que houvesse nessa relação não poderia ser abstraída por linhas temporais fechadas, apelas pela que está aberta. É diferente, por exemplo, se virmos uma aventura em HQ, Áudio ou Livro protagonizada pelo 10º ou War Doctor. Essas aventuras são um acréscimo de coisas na linha temporal deles, não uma mudança de paradigma, tanto que, se observarmos bem, absolutamente nenhuma aventura fora das telas (e dentro delas) em Doctor Who trabalhou com reescrita do tempo no passado da própria linha temporal do Doutor (lembre-se que TODOS eles participam do salvamento de Gallifrey, mas nenhum guarda memória disso, à exceção do Doutor atual). No caso de The Day of the Doctor, vemos que o genocídio continuam vivo para o War Doctor e para o 9º e 10º Doutores. Embora o Guerreiro e o Herói também tivessem ajudado a mudar esse ponto de suas histórias (não foi toda a Time War, lembram-se?), as linhas temporais deles estão fechadas, eles já se regeneraram, não existem mais, qualquer coisa que tenha vindo para mudar estruturalmente suas vidas não os afetam mais. Mas essas mesmas coisas afetam e são lembradas pela atual versão do Doutor.

O ponto de partida da história já tinha nos dado uma pista sobre isso. Ela começa e termina na linha do 11º, onde temos a (re)definição de padrões temáticos para o show. Mas esses já existiam? Bem, na série clássica, o Doutor vivia fugindo de e indo para Gallifrey; na nova série, até o 10º Doutor, havia a fuga das memórias do genocídio e agora, graças exatamente à pessoa que nasceu para salvá-lo, sua impossible girl, ele não precisa mais se lembrar, porque não aconteceu – não mais.

Lembram-se disso? Clara foi revelada na linha temporal do 11º Doutor, e embora também estivesse na linha dos outros e os tivesse salvo de alguma coisa – exceto o War Doctor, porque ele não é Doutor é Guerreiro, mas teve a sua própria “salvadora” que é a consciência do Momento – ela está ativa na linha do 11º, e… quem teve mesmo a ideia de que o genocídio não precisa acontecer?

Clara não teve a oportunidade de fazer essa sugestão ao 9º ou ao 10º Doutores, mas graças ao Momento, aos Zygons e à rainha Elizabeth I [confluência de eventos que não ocorreram da primeira vez e, pela ausência de suas consequências, fez com que ele cometesse o crime galáctico], el apodia orientá-lo a repensar algo que o Doutor se arrependia amargamente de ter feito. Ele já tinha sido Guerreiro e Herói, agora ele precisava ser Doutor. Ironicamente, os Doutores 9 e 10 lamentaram e fugiram das memórias da Guerra; o 11º se deixa “esquecer”, e devido a ajuda de Clara (a última vez que ela o salva, tendo em vista o que vai acontecer no Especial de Natal), ele agora só precisa mudar de rumo: parar de correr dessas memórias fatais e correr para salvar/encontrar seu planeta (uma espécie de Kandor, por enquanto).

The Day of the Doctor foi um episódio poderoso. Bateu o record de audiência simultânea em diversas mídias ao redor do globo (94 países), foi transmitido no cinema em 3D, na TV, e reescreveu a história da série. Gallifrey estará de volta na tela logo logo, a as novas gerações, que não conhecem a série clássica, terão a oportunidade de odiar profundamente os Time Lords, que são uma raça complicada de se lidar (não é, Doutor?). Depois de todo o silêncio ao planeta do Doutor, enfim, ele volta, e com uma nova trama para si e um novo olhar para o Doutor. Peter Capaldi (que também aparece salvando o planeta!) assumirá o papel de 12º Doutor em um momento simplesmente novo e incrível da série. Como tudo em Doctor Who, um novo começo se apresenta. Nova regeneração, novo Doutor, novas memórias, nova história e nova base. Alguém tem dúvida de que comemoraremos o 100º aniversário do show?

ADENDO: Eu cheguei a comentar que o The Night of the Doctor foi o momento mais escuro, a pior decisão que o Doutor fez em sua vida, foi a de ter que se regenerar como um Guerreiro, alguém que iria lutar na Time War. Bem, a metáfora encontra em The Day of the Doctor o seu antônimo. Mesmo que só para as gerações pós-11º Doutor, este foi, numa linguagem de um outro herói, o seu Dia Mais Claro, em oposição à Noite Mais Escura vivida pela sua 8ª encarnação

Doctor Who – The Day of the Doctor (UK, 2013)
Showrunner: Steven Moffat
Roteiro: Steven Moffat
Direção: Nick Hurran
Elenco: Matt Smith, David Tennant, Jenna Coleman, Billie Piper, John Hurt, Joanna Page, Jemma Redgrave, Ingrid Oliver, Ken Bones, Orlando James
Duração: 77 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.