Crítica | Doctor Who: The Husbands of River Song

estrelas 4,5

Mais um ciclo de Doctor Who se fecha com este Especial de Natal, The Husbands of River Song. É claro que isso não significa que River jamais irá voltar para a série, mas de fato põe fim a uma parte de sua complexa linha do tempo — até o Doutor assume que precisa de um fluxograma para entender — estabelecendo-se depois de The Angels Take Manhattan e servindo como prequel de sua “morte” em Forest Of The Dead. O que temos de certo, por enquanto, é que este encontro de River com o 12º Doutor durou uma noite de 24 anos, o que estabelece uma vida marcante para os dois, pelos menos por um pedaço de tempo, a “felicidade eterna” que a própria River relativiza no estupendo diálogo final.

Quando o tema do Especial foi anunciado, houve certa estranheza por parte da comunidade whovian que não queria que a personagem fosse revivida por algum tipo de “Milagre Moffatiano”. E creio que todos, gostando ou não do Especial, ficaram felizes de que este “milagre” não aconteceu. Sem planos mirabolantes, sem nada fora do cânone e das possibilidades, The Husbands of River Song é justamente o preenchimento de uma lacuna na fala de River para o 10º Doutor na Livraria:

[…] A última vez que eu vi você, o verdadeiro você — você do futuro, quero dizer — você apareceu na minha porta, com um novo corte de cabelo e um terno. Você me levou a Darillium para ver as Torres Cantantes. Oh, que grande noite foi aquela! As torres cantaram e você chorou. Você não quis me dizer porquê, mas eu suponho que sabia que era a hora. A minha hora. Hora de vir para a Livraria. Você até me deu sua Sonic Screwdriver; aquilo deve ter sido uma pista […].

E tendo como ponto de partida essa fala do passado, Steven Moffat encontrou um momento interessantíssimo para trazer River Song de volta, fazê-la encontrar o Doutor em um momento que causasse confusão (novamente: a linha do tempo dos dois é uma bagunça, se bem que aqui o jogo é o oposto daquele que ocorreria na aventura seguinte, do ponto de vista de River) e quando o Doutor mais precisava, após a traumática experiência em Gallifrey e agora viajando sozinho, após a partida de alguém que ele não sabe muito a respeito; uma tal de Clara…

Entre o humor nonsense que pontua os Especiais de Natal desde The Christmas Invasion e uma mistura de comédia de erros + guerra dos sexos, o roteiro de The Husbands of River Song entrega exatamente aquilo que prometeu: uma aventura maluca, com reviravoltas de gênero narrativo, do humor meio mórbido do início para o doce e quase filosófico romance ao final e que traz coisas de importância vital para a série, fechando o capítulo de River Song em Doctor Who. Se apostarmos no bom senso de Moffat ou dos produtores da série, o que tivermos da personagem daqui em diante se centrará durante a noite de 24 anos entre ela e o Doutor ou durante os seus anos de arqueóloga, cenário já abocanhado pela série spin-off The Diary of River Song (cuja 1ª Temporada saiu justamente no dia deste Especial, 25 de dezembro de 2015) da Big Finish.

O diretor Douglas Mackinnon, famoso por guiar com bastante elegância enredos com bruscas mudanças dramáticas, vide o que ele fez no arco The Sontaran Stratagem / The Poison Sky, no intenso Cold War e nos três episódios da 8ª Temporada que assinou: Listen, Time Heist e Flatline. Esse dinamismo e o fato de estar trabalhando com um roteiro onde doses de absurdo eram permitidas deu a Mackinnon a oportunidade de criar três grandes camadas para o episódio, contando, em cada uma delas, com específicos setores técnicos.

A primeira camada é a do humor e da comédia de erros, que vai da abertura do episódio, no planeta Mendorax Dellora, no ano 5343, até a sequência no Harmony and Redemption, um cruzeiro espacial famoso por carregar ricos assassinos em massa. Aqui há forte presença da trilha sonora como guia narrativo indireto da trama (lembre-se da cena em que o Doutor faz o maior escarcéu quando entra na TARDIS como se fosse a primeira vez), extrema importância dos figurinos e efeitos especiais (notadamente para o rei Hydroflax) e também do desenho de produção. O ciclo se fecha com um equilíbrio no destaque para River e o Doutor, marcados pelas premiáveis atuações de Alex Kingston e Peter Capaldi.

A segunda camada é curta e vai da quebra de andamento do enredo, quando o Doutor toma a bolsa com a cabeça de Hydroflax das mãos de Scratch, até a queda do Harmony and Redemption no planeta Darillium. A sequência é marcada pelo leve destaque nos diálogos para River Song e intensa participação da montagem, dada a rapidez dos acontecimentos. Não se trata de uma sequência de ação pelo conteúdo, mas a estética é certamente similar às das cenas deste gênero e isso talvez tenha gerado grande choque nos espectadores, pois há uma total diferença desta para a camada seguinte, que vai do encontro do Doutor com um dos trabalhadores na área próxima às Torres Cantantes, até o acalentador e romântico desfecho.

O maior destaque da parte final do episódio é quase exclusivamente da direção de fotografia, mas também ganha na direção de arte um forte apelo emocional. Tente pensar na cena de encontro do Doutor com River, na melhor mesa de restaurante de todo o Universo, sem aquela fotografia com contraste na medida certa, câmeras em angulares para destacar os atores em detrimento do cenário — excelente escolha, diga-se de passagem — e planos que passam de um contexto geral do ambiente (com as duas chegadas da TARDIS, a recepção e a desnecessária e deslocada cena com Ramone no corpo metálico) até a inesquecível troca de olhares entre os protagonistas.

Os erros deste episódio encerram-se nos personagens secundários — entre aparição, tratamento e encerramento, com exceção do rei Hydroflax, o melhor deles –, mas mesmo nesses casos, os erros não são totais. Isso faz desse Especial um “capítulo final” bem conduzido, harmonioso, bonito e realmente muito bom, sem ‘milagres estranhos’ que justifiquem o [re]aparecimento de River e o preenchimento mais que louvável de uma história que conhecíamos desde a primeira vez que a vimos. Uma feliz história de Natal, quase como um conto de fadas maluco.

Doctor Who: The Husbands of River Song (Reino Unido, 25 de dezembro de 2015)
Direção: Douglas Mackinnon
Roteiro: Steven Moffat
Elenco: Peter Capaldi, Alex Kingston, Matt Lucas, Greg Davies, Phillip Rhys, Rowan Polonski, Robert Curtis, Robert Curtis, Anthony Cozens, Chris Lew Kim Hoi
Duração: 45 minutos

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.