Crítica | Doctor Who: The Return of Doctor Mysterio

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estrelas 4,5

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Um ano inteiro sem Doctor Who e dois Especiais de Natal ligados por uma trágica e ao mesmo tempo doce e feliz continuidade — sim, tudo isso junto. Após 24 anos de uma vida de casado ao lado de River Song no planeta Darillium — período em que ele claramente esteve fora de “atividades salvadoras”, ao menos pelas bandas da Via Láctea –, o esperado e inevitável aconteceu: River e o Doutor seguiram diferentes caminhos. Ela, por lugares que a levariam até o seu próximo e último, de seu ponto de vista (ou penúltimo, se você contar o “fantasma” de The Name of the Doctor) encontro com o (10º) Doutor. Ele, por caminhos que o fariam seguir tentando entender os buracos de sua memória em relação a uma certa “garota impossível” (já vínhamos tendo esses pequenos encontros misteriosos com o nome, por exemplo, em Class: For Tonight We Might Die), e superar a morte da esposa, depois de quase duas décadas e meia juntos.

Depois de aprender sobre si mesmo em toda a jornada da 8ª Temporada, o Doutor percebeu que ficar sozinho, especialmente nesse momento de sua vida, não era uma boa opção, de modo que entendemos o por quê de o roteiro de Steven Moffat seguir, neste Especial, a continuidade de The Husbands of River Song. Ele já estava em Darillium, onde Ramone, no corpo de Hydroflax, trabalhava como garçom, tendo a cabeça de Nardole mantida dentro do corpo. Sozinho, o Doutor resolve resgatar a cabeça “desprezada” e colocá-la novamente em um corpo, tendo então Nardole como companheiro. Aqui vai um alerta aos whovians que clamam por um relatório médico de COMO o Doutor fez isso: por favor, parem, que está feio. Não é como se não tivéssemos visto coisas nessa linha antes, na série, não é mesmo? Lembram-se de Jack + A Face de Boe? Cassandra humana + Cassandra “última humana”? Dorium Maldovar? A lista poderia seguir, mas vocês entenderam. É um show de ficção científica com bizarrices mutacionais e de transplantes de cabeça! E não é preciso ter um relatório médico ou detalhes microscópicos de como isso foi feito. O texto de Moffat mata a questão de maneira simples, integrando Nardole como ajudante do Doutor sem muitos “por quês”. E sim, tanto o personagem quanto a explicação funcionam muito bem.

Uma das coisas que mais chamam a atenção aqui em The Return of Doctor Mysterio — que é como Doctor Who é conhecido no México, algo que Capaldi e Moffat descobriram na Doctor Who Tour e ficaram apaixonados pelo título, daí a atual referência — é fato de ser um Especial de Natal que não adota os temas natalinos clássicos como cerne da história. A época é apresentada, as referências aparecem na excelente sequência de abertura, mas a trama vai para um outro lado, mantendo apenas o tom de esperança que normalmente é utilizado nesses Especiais. À primeira vista, a escolha pode ser questionável, mas depois de tantos Especiais de Natal plenamente natalinos, é excelente que tenhamos a exploração de outro gênero dentro da data. Aliás, a característica da série é de fazer experimentos com diversos gêneros, então, por que não ver um comédia de ficção científica escapista inspirada no Superman, de Richard Donner e em quadrinhos do Superman da era de John Byrne? Nota: a sequência em que Grant não consegue evitar a visão de raio-x, durante a puberdade, é hilária, com uma cínica e inteligente metáfora visual para a ereção.

Seguindo a linha de continuidade temática, o vilão aqui é o mesmo de The Husbands of River Song, a Shoal of the Winter Harmony, que tem o péssimo hábito de guardar coisas dentro da cabeça, o que é tremendamente nojento e gera uma das poucas cenas realmente descartáveis deste episódio, quando um dos “dominados” tira uma arma, aponta para o Doutor e fica com o lado da cabeça aberta por mais tempo do que deveria. Porém, mesmo enxergando isso como um ponto negativo e que deveria ter sido cortado na edição final, eu não posso me furtar à compreensão de que o clichê bizarro e proposital que Steven Moffat e o diretor Edward Bazalgette (de The Girl Who Died e The Woman Who Lived) utilizaram na trama comporta esse tipo de atitude. Entendam: estamos falando de um cenário em Nova Yok, inciado nos anos 1990, onde o Doutor tenta consertar uma distorção temporal — referência a The Angels Take Manhattan — e encontra um garoto que engole uma pedra preciosa, a Hazandra ou o Fantasma do Amor e dos Desejos (assim chamada pelos Apocalypse Monks of the Andorax). Por ser intuitiva, um tipo de “computador” gerado em um Buraco Vermelho e estabilizado em puro cristal de uma Estrela Anã, ela dá à pessoa aquilo que ela mais deseja. E o que mais desejaria um garoto de 8 anos em Nova York dos anos 90, viciado em quadrinhos?

A criação do herói The Ghost, o equivalente ao Superman em Doctor Who, tem uma história de origem calorosa e guarda todo o amor e respeito possível pela nona arte. O quarto de Grant possui pôster de diversos personagens de HQs, como Hulk, Thor, Homem-Aranha (que rende uma ótima piada sobre como ganhou seus poderes), Wolverine, Surfista Prateado, Superman (que o Doutor descobre só agora que é a mesma pessoa que Clark Kent) e The Flash, além de um edredom com desenhos do Capitão América e do Homem de Ferro. Esse mundo dos quadrinhos, com todas as suas regras, padrões, ética heroica e cenários que “não combinam” com o “mundo comum” é inserido com bastante cuidado nessa narrativa, tendo direito a cenas de voo características dos super-heróis; close adoravelmente clichê no peito do herói abrindo a camisa, prestes a voar; jogos meio atrapalhados de disfarce; vilões que transitam entre o medonho e possivelmente ameaçador para o estupidamente dominado; e, por fim, novamente entrando no espírito de Natal, uma mensagem de esperança e votos de felicidade. Nota: particularmente, não queria que Nardole tivesse didaticamente explicado ao casal Lois & Clark Lucy & Grant o que havia acontecido com o Doutor, nem vejo a tal explicação como necessária dentro da trama (imagino que ninguém tenha deixado de fazer a ligação). Outro ponto que deveria ser sido cortado.

O momento de direção e edição mais primoroso do episódio etá por volta dos 31 min., quando Grant liga para Lucy marcando um encontro do Fantasma com a repórter. É uma cena divertida e com a organização da tela em painéis de quadrinhos, que obedece a uma diagramação mista de caos e lógica e com destaques para todos os personagens dentro da casa, além de modelos diferentes de painéis. O uso é cinematográfico (do tipo split screen) mas não deixa de ter a dinâmica da TV e obedecer o ritmo do episódio. Esse tom, aliás, é um dos acertos mantidos em toda a duração do capítulo. Claro que existem momentos que se saturam rápido, como a metade final da cena de Nardole com o Doutor na nave da Shoal ou algumas rusgas observadas na linha amorosa de Grant e Lucy, que mesmo assim, garante bons momentos para o espectador, a exemplo de quando ele vai se revelar para ela e a repórter simplesmente não vê, por diversos motivos (brincadeira dramatúrgica que lembra a relação da personagem de Nicole Kidman com o Batman em Batman Eternamente), ou os desencontros anteriores entre os dois.

Peter Capaldi segue dando um show de interpretação, mas não está mal acompanhado. Justin Chatwin cria um bom herói “barato”, com vícios e maneirismos mais sérios característicos dos personagens da Era de Prata dos Quadrinhos, além de uma ótima versão “civil” do herói, como babá. Também é importante lembrar que The Ghost é uma sátira amigável do Superman, o que não é estranho em Doctor Who, pois já havíamos tido, em The Mind Robber, na era do 2º Doutor, uma sátira aos super-heróis, na pessoa do Krakus, o protagonista da futura “Hourly Telepress“, nos anos 2000. Matt Lucas, por algum motivo, odiado por uma parcela do fandom, faz um ótimo como Nardole, um personagem com um misto de covardia + coragem forçada, gemidos, honestidade em relação ao Doutor e uma farta dose de infantilidade que faz dele alguém adorável e exótico ao mesmo tempo, muito interessante de se ver na TARDIS ao lado do Doutor.

The Return of Doctor Mysterio não teve Papai Noel (mas isso a série já mostrou, literalmente, em Last Christmas, não é mesmo? Não era hora de visitar outros cenários?), mas teve a reunião de pessoas que se amam, apesar das dificuldades. Um dos episódios de Natal mais diferentes, e ainda assim, mais interessantes de toda a série, com uma soberba fotografia noturna; direção de arte certeira, sem carregar muito nenhum cenário — mesmo o quarto de Grant, quando criança –; efeitos especiais bons a maior parte do tempo; boas interpretações e a “conclusão” da história do Doutor após sua vida de casado. Um Natal heroico, apesar da dor, e necessário para o Doutor e para todos nós, especialmente em um ano absurdamente troll como este 2016.

Tudo acaba, e isso é sempre muito triste. Mas tudo também recomeça, e isso é sempre algo feliz. Sejam felizes.

12º Doutor

Doctor Who: The Return of Doctor Mysterio (Reino Unido, 25 de dezembro de 2016)
Direção: Edward Bazalgette
Roteiro: Steven Moffat
Elenco: Peter Capaldi, Matt Lucas, Justin Chatwin, Charity Wakefield, Tomiwa Edun, Logan Hoffman, Aleksandar Jovanovic, Lee Kemp
Duração: 60 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.