Crítica | Doctor Who: Timewyrm – Gênese, de John Peel

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Equipe: 7º Doutor, Ace
Espaço: Mesopotâmia
Tempo: 2700 a.C

Quando Timewyrm: Gênese foi publicado em 1991, a Série Clássica já havia sido cancelada há dois anos. A editora Virgin, que detinha os direitos de adaptações literárias de Doctor Whosurgiu então com a proposta de publicar uma série de romances originais estrelados pelo Sétimo Doutor, que dariam continuidade aos eventos da série. A ação mais segura seria publicar algumas aventuras autônomas do Doutor e Ace, para testar a reação do público ao novo formato, mas o editor Peter Darvill Evans tinha planos mais ambiciosos, e decidiu criar um arco de histórias que se desenrolaria ao longo de vários livros, cada um tendo como subtítulo o nome de um livro da bíblia. A Saga do Timewyrm se tornou praticamente uma temporada da série, dividida em quatro obras, o que ecoa as temporadas finais da Série Clássica, que eram divididas em quatro arcos. Para escrever o romance de abertura, a Virgin convocou John Peel, que havia escrito algumas das novelizações dos arcos da TV para a editora Target. O resultado foi o começo do selo Doctor Who: Virgin New Adventures.

A trama começa quando o Doutor, ao fazer uma varredura de rotina nos bancos de memória da TARDIS, acaba encontrando uma mensagem deixada por sua quarta encarnação. Durante o tempo em que esteve dentro da Matrix durante os eventos de The Invasion of Time, o Quarto Doutor descobriu que uma criatura mítica das lendas de Gallifrey chamada Timewyrm, não apenas era real, mas que surgiria trazendo o “Armageddon temporal”. A Matrix apagou a memória do Doutor, para preservar a linha do tempo, antes que ele pudesse terminar de falar (por isso, o Sétimo Doutor não se lembra de ter feito a gravação) mas o Sétimo Doutor deduz que seu eu passado estava tentando lhe avisar onde e quando o Timewyrm surgiria, o que leva o Time Lord e sua companheira Ace a viajar até a antiga Mesopotâmia. No berço da civilização, o Doutor e Ace devem formar uma tensa aliança com o lendário e brutal Rei Gilgamesh, enquanto na cidade de Kish, uma criatura alienígena venerada como uma deusa ameaça toda a vida no planeta.

Com Timewyrm: Gênese, John Peel entrega uma aventura que insere de forma bastante orgânica os elementos sci-fi típicos de Doctor Who como a déspota alienígena e os paradoxos temporais num típico épico histórico, com direito a batalhas sangrentas, e intrigas palacianas. Um dos grandes méritos do autor é como ele consegue fazer com que a antiga Mesopotâmia e suas cidades de fato ganhem vida na imaginação do leitor. Há no texto uma riqueza de detalhes para que entendamos toda a cultura dessa civilização, sem que esses detalhes se tornem supérfluos ou cansativos.

Peel tem um bom controle de sua narrativa, lidando bem com os diversos núcleos espalhados pelo livro. A trama se desenvolve em um ritmo muito bom, que realmente prende o leitor. Embora personagens como Gilgamesh e a vilã Ishtar soem um pouco caricaturais — o primeiro em seu apetite por violência, e a segunda em seu sadismo — eles ainda servem bem à trama, e não tiram o leitor da inserção. Outros personagens são mais bem construídos, como o Rei Agga, que teve a sua cidade dominada pela vilã Ishtar, e o amigo Neanderthal de Gilgamesh, Enkidu. Mas são as mulheres que se destacam entre as personagens originais do livro, como a jovem En-Gula, uma sacerdotisa (e prostituta) que vive no templo de Ishtar, e a Princesa Ninani, filha do Rei Agga, que, diferente do pai, está disposta a lutar contra a tirania de Ishtar. Esse destaque e força dada às personagens femininas acaba funcionando como um bom equilíbrio para o romance, já que Peel não poupa o leitor do sexismo brutal existente nesta civilização.

Por ter um formato que não precisa se preocupar tanto em atingir um publico amplo como o da televisão, o romance pode abordar de forma mais direta e madura questões mais adultas como sexo e violência, algo que a série de TV não poderia fazer, já que visava um publico mais amplo. Por um lado, isso é muito positivo, pois torna o retrato de Peel da antiga Mesopotâmia mais crível, mesmo que um pouco desagradável em alguns momentos. Mas se a liberdade proporcionada pelo formato traz pontos positivos para a obra, também leva a algumas escorregadas do autor.

O formato literário permite que se possa incluir participações especiais de determinados personagens sem ter que se preocupar com atores, mas tais participações muitas vezes parecem servir mais como distração do que como uma colaboração orgânica para a história. Se a participação do Quarto Doutor é muito interessante e coerente com a narrativa, Peel põe a TARDIS tentando se comunicar com o Doutor e Ace no começo do livro usando a imagem do máximo de antigos companions que consegue, só porque o livro lhe dá essa possibilidade. O formato permite que o autor possa usar a nudez como forma de construção de narrativa e, por isso, En-Gula passa a maior parte da história com os seios á mostra, e é coerente, pois de fato é assim que a menina vive. Por outro lado, logo no começo da história, Peel coloca Ace acordando nua em sua cama, em uma cena absolutamente gratuita, que parece ter sido posta pelo autor no texto simplesmente por que ele podia fazer. Essa liberdade mal utilizada acaba por vezes se tornando um ponto fraco da obra, pois a nudez e a violência estão presentes em alguns casos não por que ajudam a construir a trama, mas simplesmente por que Peel ganhou a liberdade de poder utiliza-los.

O autor também se atrapalha no primeiro terço do livro ao nos reapresentar os protagonistas. Há um dispositivo narrativo mal armado envolvendo um defeito nos circuitos telepáticos da TARDIS, o que provoca amnésia temporária em Ace; força o Doutor a explicar quem ele é, o que é a TARDIS, o que é um Time Lord e quem é a própria Ace. Entendo que os personagens precisavam ser reintroduzidos, mas tenho certeza que existiam maneiras mais orgânicas de se fazer isso. Peel também falha em captar a maravilhosa dinâmica entre o Sétimo Doutor e Ace, que parece muito mais tempestuosa aqui do que a retratada por Sylvester McCoy e Sophie Aldred na televisão. A dupla fica de picuinha um com outro uma boa parte do tempo, em nada lembrando a complexa relação desenvolvida nas temporadas finais da Série. Eles funcionam muito melhor neste romance quando estão separados, interagindo com outros personagens.

Apesar de falhar em retratar a relação com Ace, Peel capta bem a personalidade prática e algumas vezes fria do Sétimo Doutor, que parece estar sempre um passo à frente da maioria dos outros personagens na maior parte do tempo, embora ele encontre em Ishtar uma adversária à altura. Mas é Ace que ganha o maior destaque aqui. O autor constrói paralelos interessantes com situações encontradas pela companion na Mesopotâmia e a vida que ela levava no bairro londrino de Perivale, com destaque para uma passagem situada em uma taverna com direito a briga de bar e canção de bêbados. Sua parceria com Gilgamesh rende momentos hilários, e a jovem se aproveita muito bem do fato de ela e o Doutor terem sido confundidos com deuses para dar uma ou duas lições de humildade ao esquentado rei. Ace também ocupa perfeitamente a perspectiva do leitor dentro da história ao ficar tão chocada quanto nós sobre certos aspectos daquela cultura, como o fato de meninas de doze anos serem prostituídas nos templos, ou de homens violentos e sanguinários como Gilgamesh serem considerados heróis em seu tempo. E em um dos poucos momentos que remetem à brilhante relação de aprendizado entre a garota de Perivale e o Time Lord, ele lembra a ela que ao viajar pelo tempo e espaço, não é só a TARDIS e o próprio tempo que se tornam relativos, mas os valores dos lugares que visitam também. O autor toca em um ponto sensível ao fazer Ace e o Doutor terem que lidar com certas situações mais controversas, mas apresenta bons argumentos que não descaracterizam os personagens e nem agridem o leitor (pelo menos na maior parte do tempo).

Timewyrm: Gênese tem uma série de altos e baixos ao longo de seu desenvolvimento. Um pouco mais de sutileza aqui e ali teria feito deste romance um trabalho mais redondo. Embora seja o início do arco maior, a história também funciona perfeitamente como uma aventura autônoma, pois a ligação com o Timewyrm só surge ao final. Apesar das escorregadas, trata-se de uma boa estreia para a linha Virgin New Adventures, que termina com um gancho digno da Série Clássica, com o Doutor e Ace desembarcando em um local desconhecido, prontos para continuar a saga do Timewyrm.

Timewyrm: Gênese (Timewyrm: Genesys) — Reino Unido. 20 de junho de 1991.
Autor: John Peel
Publicação: Virgin New Adventures #1
230 Páginas.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.