Crítica | Doctor Who: Twice Upon a Time

Há spoilers! Confira todas as nossas críticas de Doctor Who aqui.

Os Especiais de Natal estabeleceram-se como uma sólida tradição da nova série de Doctor Who, tornando-se uma constante mesmo nos malfadados anos de hiato. Na era de Russel T. Davies no comando da série, a palavra de ordem era costumeiramente a de oferecer um twist aos conhecidos símbolos festivos, normalmente vertendo-os em máquinas assassinas oferecendo seus votos de destruição ao 10º Doutor. Seu sucessor Steven Moffat em um primeiro momento abraçou a ideia de forma mais literal, por vezes flertando com a fantasia em tramas que remeteram aos contos natalinos mais tradicionais (aqueles sem árvores de Natal triturando pessoas). Mais recentemente, após um divertido encontro com o Papai Noel em Last Christmas, tivemos dois episódios em que a temática festiva acabou sendo gradualmente deixada em segundo plano, em favor de proporcionar primeiro um reencontro com River Song e um arranjo (quase) necessário de pontas soltas em The Husbands of River Song. seguido por sua vez por um instigante mergulho no gênero super-heroico em The Return of Doctor Mysterio.

Por sua vez, já em sua premissa mais básica, Twice Upon a Time se destaca como um especial sui generis: trata-se de um episódio que não apenas dá conta da regeneração do 12º Doutor, mas o faz enquanto uma história multi-Doctor que une em tela para uma aventura conjunta pela primeira vez um Doutor da série nova com um Doutor da série clássica (descontando o encontro entre o 10º Doutor e o 5º Doutor em Time Crash e o cameo de Tom Baker como o Curador em The Day of the Doctor, já que nesses casos não se trata efetivamente de um team-up entre Doutores propriamente dito). Se já não bastasse isso, trata-se ainda da despedida de Steven Moffat do cargo de showrunner após oito anos à frente da série, sendo que grande parte da equipe de produção junta-se a ele e a Peter Capaldi no adeus à série, abrindo espaço para um novo time. Deve ser gratificante aos espectadores com altas expectativas e sentimentos conflitantes à flor da pele (este que vos escreve incluso, já que crítico também é fã) que o episódio tenha sucesso em realizar muito bem tudo isso e ainda por cima ainda conseguir ser, no fim das contas, um belo especial natalino.

Ao contrário do que ocorre em The End of Time e The Time of The Doctornão iniciamos o episódio angustiados em torno da prospectiva de uma regeneração, vendo o momento inevitável se esboçar nas mínimas viradas de uma aventura que poderia ser qualquer outra, não fosse o fato de já sabermos o que está por vir. Aqui a regeneração já é fato consumado, e o 12º Doutor já é o proverbial dead man walking desde o fatídico embate retratado em World Enough and Time / The Doctor Falls. O roteiro de Moffat usa-se muito bem disso e aproveita-se da ocasião para desenvolver confiantemente e de modo central aquilo que toda boa história de regeneração (por sorte, a maioria delas) faz: um estudo de personagem. Trata-se de voltar todos os holofotes ao fascinante personagem do Doutor, à sua mutabilidade sem limites, aos seus temas e conflitos que, mesmo quando cíclicos, podem ser sempre oferecidos sob um ângulo diferente e novo.

O episódio explora muito bem esse potencial em uma trama intimista e simples, estruturada principalmente em torno de diálogos, com as situações do enredo servindo mais como pano de fundo para essa exploração tomar forma. Nesse sentido a direção de Rachel Talalay mais uma vez é essencial para o sucesso da empreitada, sua escolha se provando mais do que acertada já que trata-se de um material bastante sintonizado com sua visão e linguagem narrativa. Capaldi entrega mais uma performance excepcional, fazendo de praticamente cada cena do especial um momento memorável, particularmente nas sequências mais dramáticas e nos diálogos (ou seriam monólogos?) com sua versão passada. Por sua vez 1º Doutor de David Bradley é uma homenagem belíssima à versão seminal do personagem, e sua recriação é feita aqui de forma bastante sensível. A dinâmica entre as duas encarnações do protagonista serve bem à trama, que tem ares de epílogo mas que nada possui de supérfluo.

Em alguns pontos é possível que a nova versão cause algum estranhamento aos fãs mais puristas do eterno William Hartnell. No campo do humor, são várias as vezes em que ele serve de catapulta para pequenas piadas a respeito da natureza “politicamente incorreta” da cultura em que o personagem foi concebido e estreou. Obviamente que se trata do tipo de cena que apela a uma rápida quebra da quarta parede que é característica do humor de Moffat (e da série nova de maneira geral), sendo que a recorrência do tema chega a ser levemente distrativa. Por outro lado, felizmente não é nada que efetivamente pese contra o que de resto é uma ótima caracterização do personagem (certamente mais fiel do que a versão de Richard Hurndall em The Five Doctors). Embora Bradley não soe exatamente como Hartnell (falta-lhe uma pequena nota de agressividade, que compreensivelmente poderia soar caricata em outro que não o original), visualmente a recriação é impressionante, tanto em termos de figurino, maquiagem e produção mas principalmente na atuação. A linguagem corporal e as expressões faciais são muito bem utilizadas pelo ator, que consegue interpretar com sensibilidade um momento-chave na cronologia do personagem, que é justamente essa transição entre seu modo de ser focado em si mesmo, em direção a um estilo de vida realmente altruísta.

É simplesmente fascinante ver emergir, do que ainda resta da dureza resoluta do orgulhoso Doutor original, indícios da bondade desapegada do 2º Doutor. Neste sentido, para além do (delicioso) fan service, a iniciativa em ter ido pinçar (ao melhor estilo Big Finish) o 1º Doutor direto de seu traslado fatídico em direção à TARDIS no final de The Tenth Planet prova-se bastante frutífera. As origens já distantes do personagem sempre pareceram fascinar Moffat: as referências ao 1º Doutor espalhadas pela e 6ª temporada da série (quem se lembra do cartão de biblioteca “levemente” desatualizado?), a breve retomada do momento da fuga de Gallifrey na introdução de The Name of The Doctor, o vislumbre da infância em Listen, o arco do Híbrido e sua relação com a fuga do Doutor na 9ª temporada. Aproveitando-se dessas bases já lançadas, aqui o roteirista surpreendentemente nos mostra de uma forma simples e envolvente que, se as origens do Doutor despertam nossa curiosidade, o que nos fascina e mantém a série viva há tanto tempo são na verdade os seus destinos.

Nesse sentido, as participações de Bill Potts (Pearl Mackie) e do Capitão (Mark Gatiss) provam-se essenciais para o desenvolvimento do arco de ambos os Doutores. Encarnando os arquetípicos companions, os questionamentos simples (ainda que, no caso de Bill, com motivações secundárias) que direcionam ao Doutor nos auxiliam a dar ao menos uma espiada no que se passa em sua psique em um momento tão incomum e atribulado quanto esse dos dois Doutores que se recusam a regenerar. Deixando de lado aquilo do que o Doutor fugia, a pergunta que segue é: em direção a que ele fugia? Sabemos sobre seu espírito explorador, mas o que o 1º Doutor complementa, e que é um traço que marcará a personalidade de sua encarnação seguinte, é o interesse por, em meio a essas viagens, saber mais sobre o bem. Afinal de contas, se o mal é mais útil, mais fácil, mais poderoso – se o mal é o “padrão” do universo, sob que circunstâncias surge o bem e como é possível que ele triunfe?

Essa breve reflexão de sua versão passada prepara o campo para que o arco do 12º Doutor encerre-se aqui de forma brilhante, retomando os principais temas do personagem de forma a costurar uma tapeçaria intrincada em torno de sua multi-facetada crise de identidade: a crise ética da 8ª temporada, que se desdobrou em uma tentativa de fuga e de resgate do espírito aventureiro na 9ª temporada, para enfim voltar com tudo como uma verdadeira crise ontológica, ao final da 10ª temporada. Embora ambos os Doutores pareçam estar na mesma página, o buraco é definitivamente mais embaixo para sua versão mais experiente, em comparação à qual sua encarnação original parece divertidamente infantil.

O 1º Doutor passa por uma recusa em mudar aparentemente mais ligada ao medo do que é novo e diferente, um apego ao seu modo de ser que lhe é claramente confortável e que tão bem o serviu até então. Por sua vez, o 12º Doutor enfrenta em sua literalidade a questão do ser. Existir: sim/não e por que? Não há fan service no mundo que, sozinho, dê conta de encaminhar uma questão dessas, e o fato de que a escolha  final em regenerar (ainda que não surpreenda, ou então Chris Chibnall e Jodie Whittaker teriam um péssimo fim de Natal) reverbera emocionalmente e convence racionalmente como conquistada e não apenas dada é a prova de que este epílogo consegue trabalhar, de forma surpreendentemente simples, essas questões na profundidade que elas exigem. É olhando para o seu próprio dilema passado que algo se esclarece para o Doutor, libertando-o do fardo com o qual se viu às voltas desde Deep Breath. Questionador a respeito de todas as coisas no espaço-tempo, talvez nenhuma outra encarnação do personagem tenha questionado tanto a si mesmo quanto a vivida por Capaldi, e a conclusão de seu arco oferece um fecho belíssimo para este lado do Doutor que via na própria identidade um enigma tão fascinante quanto os que ele costuma perseguir em sua TARDIS.

Se o mal é o padrão do universo, se para que o mal perdure basta que o homem bom não faça nada, isso significa por outro lado que apenas o bem triunfa enquanto bom e por opção. Ver o 1º Doutor aceitar para si mesmo seu ímpeto de não apenas viajar, mas de ativamente fazer o bem é especialmente esclarecedor para sua versão atual, como se oferecesse um novo encaminhamento à dicotomia apresentada em Death in HeavenO Doutor pode ser um idiota com uma caixa um homem bom – uma coisa não só não exclui a outra, como uma dose de idiotice (ou seria humildade?) pode ser inclusive necessária para que alguém faça algo tão absurdo quanto desejar ir contra o mal, na insignificância daquilo que lhe cabe fazer. Esta é a lição que ambos os Doutores aprendem neste encontro, e que assim como reverberou na jornada do 2º Doutor, deverá ter desdobramentos interessantes para as aventuras da 13ª Doutora.

Tendo dado conta de desenvolver esses temas tão cruciais com sucesso, tudo mais que se passa no episódio pode ser considerado uma verdadeira volta olímpica do time de produção que se despede da série. Ganhamos mais tempo para nos despedir de Bill, sem deixar de aproveitar o gancho para explorar um interessante conceito de ficção científica envolvendo o Testimony e a relação entre identidade e memória. Uma escolha bem acertada a de não fazer da iniciativa uma ameaça a ser combatida, estruturando um episódio final sem antagonista, uma aventura de pura exploração. Qualquer conflito que fosse desenvolvido aqui apenas tomaria valioso tempo de tela de nossos protagonistas (sendo que os 60 minutos do episódio já voam sem que o espectador perceba), correndo o risco de empalidecer ao lado de World Enough and Time / The Doctor Falls de qualquer forma, e de complicar desnecessariamente a regeneração do 1º Doutor (incrível que Moffat tenha resistido ao impulso de tentar “explicar melhor” o que aconteceu).

A ausência de conflito não impede de termos uma aparição fantástica de Rusty, o Dalek-filósofo de Into the Dalek, firme e forte em sua luta contra a própria espécie, em um planeta visualmente muito interessante. Quando o Doutor fala em acessar o maior banco de dados do universo, meu pensamento foi para a Biblioteca de Silence in The Library / Forest of the Dead. A escolha por Rusty se prova bem mais elegante, no entanto, na medida em que somos inesperadamente remetidos ao início da já saudosa fase Capaldi, em um episódio que, se na época fazia lembrar de Dalek, visto da outra ponta da vida do 12º Doutor oferece um contraste entre suas questões existenciais e os dilemas do 9º Doutor, movido mais pela culpa e pelos fantasmas da guerra do que pelos questionamentos morais radicais de sua presente encarnação. Mais um exemplo de fan service que não se limita à auto-referencialidade, fazendo bom uso da cronologia para fortalecer os fios narrativos da trama atual.

O arco do Capitão Lethbridge-Stewart, por sua vez, retoma a relação entre as inquietações éticas do Doutor e sua postura frente ao militarismo (que pode se estender a todo tipo de modo de agir utilitarista, na verdade), bastante explorada na 8ª temporada. Temos aqui mais um exemplo da ciclicidade da escrita de Moffat, sendo que é fácil observar como a trama retoma os dois elementos centrais (e nem um pouco necessariamente relacionados) de Dark Water / Death in Heaven – a tecnologia de pós-vida (eles explicitamente referenciam Testimony como “Heaven, in New Earth”) e a relação entre o Doutor e a guerra. Porém, ao menos desta vez, o autor faz mais do que simplesmente repaginar uma ideia já executada, indo mais no sentido de elaborá-la até o final. Complementando brilhantemente o desenvolvimento do raciocínio do Doutor na época a respeito de ser ou não um homem bom, temos o uso da Trégua de Natal de 1914 como ilustração de seu voto em acreditar no bem, com o peso emocional mais do que garantido em vincular a trágica situação do completo desentendimento que é o campo de batalha com a figura dramática de um Lethbridge-Stewart preocupado sobretudo em proteger sua família – fazer o que precisa ser feito, para poder voltar para casa para o Natal.

O uso das canções de Natal como linguagem comum entre os adversários poderia soar minimamente piegas nas mãos de um enfoque diretorial não tão grandioso quanto o de Talalay, mas por sorte o que temos aqui é uma cena belíssima e emocional, que encerra mais um ciclo com a continência do Capitão ao Doutor. Muito me surpreende que Moffat tenha resistido à inserção de alguma variação de “Just this once, everybody lives!”, mas a vocalização realmente se tornaria desnecessária em uma cena que diz tanto sem precisar apelar a nenhum diálogo. Com essa sequência também retomamos alguns temas que ganharam espaço no final da 10ª temporada, em especial em Empress of Mars e The Eaters of Light, em mais um exemplo de uma forma com que este epílogo contribui para enriquecer o que veio antes, garantindo um fechamento temático muito eficiente para a era que se encerra.

cameo de Clara (Jenna Coleman) cumpre o que já se tornou quase uma tradição nas regenerações da série nova (com o 10º Doutor tendo ido visitar Rose e o 11º tendo visualizado Amy antes de suas respectivas mortes), mas que funciona dentro da história como um último presente de Bill ao seu grande amigo e professor. Por sua vez, o retorno de Nardole (Matt Lucas) e o abraço coletivo são o golpe de misericórdia para o fã que tentava manter os olhos secos e segurar os soluços. Sem muito tempo para tristeza, no entanto, já que logo somos levados a uma última speech sensacional da dupla Moffat e Capaldi, brilhantemente interpretado pelo ator antes de sua derradeira despedida em uma sequência estonteantemente intrigante.

Twice Upon a Time é um epílogo inspirado e bem construído da Era Capaldi, que abraça sua identidade como Especial de Natal ao mesmo tempo em que seleciona cuidadosamente linhas narrativas focadas no momento que o personagem vive, não apenas celebrando o que veio antes mas efetivamente oferecendo um fechamento à altura dos melhores momentos de sua duração. Marcando um desses momentos especiais exclusivos do universo de Doctor Who que são as regenerações, a sempre constante mudança é tematizada de forma hábil em todas as frentes de produção – roteiro, direção, interpretação e música (destaque para a volta olímpica do próprio Murray Gold, que se despede da série após compor sua trilha sonora desde a 1ª temporada, aproveitando-se do momento reflexivo para retomar vários de seus temas clássicos – incluindo aí os três temas do Doutor, para o deleite auditivo dos fãs). Com o tradicional misto de tristeza e alegria é que nos despedimos do 12º Doutor e de toda uma era do programa, ao mesmo tempo em que permanecemos intrigados a respeito do que o futuro do personagem reserva para nós.

Doctor Who: Twice Upon a Time (Reino Unido, 25 de dezembro de 2017)
Direção: Rachel Talalay
Roteiro: Steven Moffat
Elenco: Peter Capaldi, David Bradley, Mark Gatiss, Pearl Mackie, Lily Travers, Jared Garfield, Toby Whithouse, Jenna Coleman, Matt Lucas, Jodie Whittaker
Duração: 60 min

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.