Crítica | Doentes de Amor

Comédias românticas dificilmente fogem da velha estrutura composta pelo casal se conhecendo, brigando e fazendo as pazes, finalizando com o típico felizes para sempre. Vez por outra, contudo, encontramos uma dessas obras, que apesar da previsibilidade, é tão genuína que nos faz nos apaixonar junto do casal apresentado, a tal ponto que enxergá-los separadamente seria um verdadeiro sofrimento. Doentes de Amor é um desses filmes, que, mesmo se você não gostar de produções do gênero, certamente será cativado pela sua história.

Evidente que o longa já nasce genuíno, ao passo que é baseado na própria história de como o comediante Kumail Nanjiani (que interpreta a si mesmo) conheceu sua esposa, Emily V. Gordon (vivida por Zoe Kazan). O roteiro, assinado pelo casal, nos leva até o conturbado início de carreira de Kumail no stand-up comedy, nos mostrando o primeiro encontro dos dois e como o paquistanês decidiu ir contra sua família e toda a sua cultura para não ter um casamento arranjado, tudo enquanto Emily, meses após se conhecerem, lutava contra uma misteriosa doença em coma induzido. Doentes de Amor, portanto, é mais que apenas uma comédia romântica, é sobre a própria individualidade e enormes diferenças culturais.

O que, de imediato, logo capta a nossa atenção é a palpável química existente entre o ator e atriz principal, que vivem esse relacionamento como se efetivamente fossem, os dois, casados. Kumail é uma figura extremamente carismática e é capaz de rapidamente conquistar a audiência, com um humor não feito para se dar gargalhadas, mas para nos deixar com aquele sorriso no canto do rosto o tempo todo – exceto, claro, quando nos vemos profundamente preocupados com a situação de Emily, questão que, também, transparece no olhar do protagonista.

Um dos maiores acertos do roteiro é como, durante o coma da personagem feminina, a narrativa opta por dar mais ênfase tanto na relação de Kumail com sua família, quanto com a de sua namorada, com trajetórias diametralmente opostas – enquanto ele se afasta de uma em razão da quebra de tradição (namorar e, claro, casar com uma mulher branca é impensável), ele se aproxima da outra, graças à constante interação no hospital. Dessa maneira, o drama da obra é constantemente renovado, gerando inúmeros focos de tensão ao longo da projeção, tudo enquanto torcemos para que, de alguma forma, eles permaneçam juntos.

É importante notar, também, como todo o tratamento em relação à cultura paquistanesa é realizado de maneira respeitosa – evidente, já que o roteiro é escrito, também, pelo próprio ator principal. Vemos que a intenção não é desmerecer ou criticar esse modo de vida e sim mostrar como nem todos se sentem à vontade vivendo dessa forma – é a velha luta pela liberdade e individualidade, tudo enquanto o amor do protagonista pela sua família é deixado bem claro, incentivando, pois, a união e não o antagonismo entre culturas tão diferentes.

O único aspecto que soa um tanto deixado de lado é a própria carreira de Kumail. Claro que esse não é o foco da obra, mas sentimos como se mais pudesse ter sido mostrado, de repente fazendo uso maior da licença poética a fim de alterar alguns eventos, de forma que essa subtrama dialogasse melhor com a principal. Por outro lado, essa dificuldade do comediante em emplacar de verdade transmite um maior realismo à obra, não fazendo tudo soar como um gigante conto de fadas, portanto, mesmo desse ponto fora da curva, podemos extrair alguns bons pontos positivos.

Doentes de Amor pode ser previsível e cheio de clichês, mas não por isso deixa de ser uma genuína história de amor, que nos atinge desde os momentos iniciais, nos prendendo até o derradeiro fim, que, ainda, nos conforta com fotos do casal na vida real. Trata-se de uma obra que respeita as diferenças culturais, enquanto apresenta a importância da liberdade e individualidade, fazendo com que nos apaixonemos junto do casal principal, nos levando em uma espiral de alegria e tristeza, sempre nos deixando, hora ou outra, com aquele sorriso no canto do rosto.

Doentes de Amor (The Big Sick) — EUA, 2017
Direção:
 Michael Showalter
Roteiro: Emily V. Gordon, Kumail Nanjiani
Elenco: Kumail Nanjiani, Zoe Kazan, Holly Hunter, Ray Romano, Anupam Kher, Zenobia Shroff, Adeel Akhtar, Bo Burnham
Duração: 120 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.