Crítica | Dom Quixote, de Miguel de Cervantes

Cervantes, tal como Shakespeare, Milton e Dante, é um escritor sem rival na história literária. Quem afirma isso é o crítico literário Harold Bloom, ao longo de Gênio, livro que seleciona os escritores tão fortes quanto seus personagens e histórias, criaturas que ainda nos faz viver sob seus impactos. “Dotados de poderes extraordinários”, chama-los de gênios é “fazer justiça”. Essas são as reiterações de Bloom, categóricas ao firmar o que é mais importante na história literária “universal”.

Dom Quixote, marco do romance moderno, não ficou de fora. E, convenhamos, tal pompa é revestida de merecimento. Personagem conhecido graças ao imenso legado do romance e a aproximação com a cultura popular, por meio de releituras, quadrinhos, filmes e programas televisivos, Dom Quixote é um dos homens mais idealistas da história literária. Ele sonha, constantemente, com um mundo da maneira como gostaria que fosse. Em seu projeto de vida também está “mudar o mundo”, não apenas idealizar a mudança. Para isso, no entanto, o corajoso homem precisará desconsiderar os que escarnecem da sua ideologia.

Com a primeira parte publicada em 1605 e a segunda dez anos depois, o romance é uma paródia dos livros de bravura, com Quixote, um intelectual, a seguir a sua trajetória na companhia de Sancho Pança, um homem analfabeto que representa a razão, seu contraponto.  Provavelmente inspirado nas viagens realizadas com o pai, durante a infância. O clássico narra a vida de um fidalgo que se torna alguém obcecado por histórias de cavalaria que acaba por abraçar fortemente a loucura para viver as aventuras descritas nos livros que supostamente o “desequilibraram mentalmente”.

Sendo assim, ele sai em sua jornada com uma armadura de cavaleiro e imagina todas as situações que viverá diante do olhar crédulo e racional de Sancho Pança. Com conflitos entre passado e presente, o ideal e o real, Cervantes constrói uma sátira da vida fantasiosa dos heróis das histórias de cavalaria. Apresentando-se em muitos momentos como obra realista, Dom Quixote flerta com a fantasia constantemente, mas ao regressar de sua complexa aventura, percebe que não só que ele não é herói, mas que na verdade a vida carece de heróis. A ação, que gira em torno das suas incursões entre Catalunha, Mancha e Aragão, terras que lhe permitem viver uma série de aventuras fantásticas, em sua visão, contrastada pelo olhar realista de seu companheiro, que percebe a maneira fantasiosa do “cavaleiro” em observar o mundo. O episódio dos moinhos de vento, leitor, talvez seja um dos melhores exemplos.

No final ele retorna e decide ser Alonso Quijano novamente. As desilusões o fizeram recuar, mas o aprendizado da viagem jamais pode ser desconsiderado. Diante do recuo, no entanto, o herói morre, pois não há condições de levar uma vida sem sonhos. Quixote também idealiza o amor, afinal, se o Rei Arthur teve a sua Guinevere, ele gostaria de conquistar Dulcineia.

Cervantes teve uma vida bem agitada. Foi coletor de impostos por um período, sofreu mutilação depois de voltar de uma guerra, o que limitou seus movimentos, mas não o impediu de escrever. Com muitos dados imprecisos sobre a sua vida, haja vista a não disponibilidade de cartas, manifestos e outros documentos que deixam pontas acerca da sua biografia. Como informações adicionais, sabemos também que foi prisioneiro de uma emboscada na época da guerra, o que lhe fez ficar cinco anos preso, em contato com a cultura oriental.

Influenciadora de Goya, Picasso, Charles Dickens e Daniel Defoe, esteticamente, o romance flerta com o humor burlesco e com ramificações do grotesco, com um cavaleiro de trajes medievais a parodiar a figura exaltada no período medieval. Anacrônico, Quixote nos encanta pela forma anacrônica que leva a sua vida, num conflito entre a realidade e o idealismo. A sua existência, por sinal, fez surgir o adjetivo “quixotesco”, isto é, alguém com ideal nobre, sonhador, de boas intenções, mas afastado ou desligado da realidade. Trazendo para os dias de hoje, no Brasil, talvez seja a imagem de um representante político não envolvido com qualquer conflito partidário, interessado apenas em colocar as coisas para funcionarem dignamente.

Pelo visto, não apenas Harold Bloom considerava Cervantes um “gênio”. Segundo relatos, William Faulkner lia o romance em questão uma vez ao ano. Dostoiévski fez uma comparação com Jesus Cristo e alegou que “nada existe de mais profundo e poderoso no mundo inteiro que essa peça de ficção”. Freud estudou espanhol para ler a obra no original. Lançado em duas partes, atualmente é vinculado apenas como um bloco que unifica os dois volumes. Por ser tão amado pelo público, o livro é lido anualmente, sem interrupções, durante um evento no Circulo de Bellas Artes de Madrid. Tempo de duração: 48 horas de declamação em voz alta, com público cativo presente.

Dom Quixote (Espanha, 1605)
Autor: Miguel de Cervantes
Editora no Brasil: Penguin Companhia
Tradução: Francisco Lopes de Azevedo
Páginas: 1326

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.