Crítica | Dom

estrelas 2

Adaptar Machado de Assis para qualquer outro suporte semiótico é uma responsabilidade muito grande. Escritor marcante da história da literatura brasileira, o fundador da Academia Brasileira de Letras é o homem por trás de Memórias Póstumas de Brás Cubas, A Mão e a Luva, Quincas Borba, dos contos A Cartomante e Pai Contra Mãe, além do clássico absoluto Dom Casmurro, publicado em 1899. Assinada por Moacyr Góes, esta versão cinematográfica da famosa história sobre o suposto triângulo amoroso entre Bentinho, Capitu e Escobar chegou numa época de exames de DNA e avanços no campo da medicina.

Desta forma, como tratar a questão chave do romance, isto é, a traição que gravitava os pensamentos de Bentinho e a paternidade do filho de Capitu, elemento que fica em aberto no final da narrativa? É este o grande problema de Dom: não saber lidar com esta questão e tratar com superficialidade um romance conhecido por sua complexidade psicológica e dramatúrgica. Faltou a responsabilidade citada anteriormente, principalmente por parte do cineasta Moacyr Góes, também responsável pelo roteiro.

No filme, Bento é um homem apaixonado por Machado de Assis. Os seus pais amaram tanto o romance que o batizaram com o protagonista do romance realista Dom Casmurro. Ele admira o escritor a ponto de ter todas as edições do clássico literário. Ele chega a se envolver tanto com o nome que a sua amiga de infância Ana Clara, também é apelidada de Capitu, mulher responsável por trazer elementos da comédia e da tragédia em sua vida. Seus amigos, certo dia, o apelidaram de Dom, mergulhando-o de vez no universo machadiano que ele tanto admira.

Eles se afastam por conta das demandas familiares, mas adultos, reencontram-se numa audição de atrizes para a gravação de um videoclipe, organizada por Miguel (Bruno Garcia), um amigo que conheceu nos tempos que cursou a Faculdade de Engenharia. Com este reencontro, surge um amor arrebatador entre Bento e Capitu (Maria Fernanda Cândido), tendo a presença de Miguel como uma espécie de conselheiro e amigo do casal, afetuoso tanto com Bento quanto com Capitu, o que levará as suspeitas que a obra literária ponto de partida já nos fez conhecer nos tempos de estudos.

Se Capitu traiu ou não Bentinho, isto não importa. A ideia do final de possibilidades múltiplas e os ciúmes/obsessão do rapaz era a grande sacada de ironias do autor, que tratou uma numerosa lista de questões comportamentais ao longo do romance. Em sua versão, Moacyr Goes, que parece adorar cenas de sexo, haja vista os excessos no desfecho da última versão de Bonitinha, Mas Ordinária, carrega o filme de cenas tórridas, desnecessárias para o andamento da narrativa. Ao coreografar demais algumas passagens, o filme flerta com o artificialismo, o que prejudica a trama de maneira geral.

Há outros elementos do filme que também não ajudam muito: a música de Ary Sperling é melodramática demais, parece fruto de novela de baixo valor estético, os figurinos de Maria Dias também não colaboram muito, já que parte da identificação dos personagens vem deste campo de produção, além da direção de arte de Paulo Flaksman, no nível do razoável.

Há outro “porém”: a narração em off é muito óbvia, repete exatamente aquilo que já estamos assistindo. Os diálogos precisam ser cuidados, o que não pareceu ser uma das preocupações deste filme, adornado por interações vulgares entre os personagens, excessivas demais. O diretor às vezes confunde o protagonista: em alguns momentos o ciúme é plausível, em outras cenas falta habilidade e tudo aparente ser artificial demais.

Mas nem tudo, entretanto, é um desastre: Marcos Palmeiras está bem no papel de Bento, trazendo à tona a ambiguidade do livro, que pelo menos permanece. Bruno Garcia, carismático, agarra bem o seu personagem tal como Maria Fernanda Cândido, boa atriz, mas que não faz o seu melhor graças ao roteiro frágil. A Capitu fria, distante e calculista do romance torna-se um poço de obviedades na versão fílmica em questão.

Ao longo dos seus 91 minutos, Dom apresenta um final melodramático e muito convencional, pouco corajoso e representante da “facilitação” cultural comum ao cinema contemporâneo, onde quase nada é interpretado ou fica na sugestão, sendo entregue na bandeja para espectadores preguiçosos que precisam de maniqueísmos baratos (um de branco e outro de preto, o bem e o mal) dos figurinos e personagens descartáveis que entram na história apenas para expelir algumas palavras bem humoradas e sumirem sem sequer terem os seus arcos devidamente fechados.

Dom — Brasil, 2003
Direção: Moacyr Góes
Roteiro: Moacyr Góes
Elenco: Ana Abott, Bruno Garcia, Cláudia Ventura, Gustavo Ottoni, Isa Shering, Ivan Gradin, Leon Góes, Luciana Braga, MaluGalli, Marcos Palmeira, Maria Fernanda Cândido, Nilvan Santos, Thiago Farias, Walter Rosa
Duração: 91 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.