Crítica | Domésticas

estrelas 2

O primeiro dia do mês de maio é conhecido por ser um feriado dos trabalhadores, uma homenagem aos indivíduos responsáveis pelos mecanismos que engendram a nação brasileira. Tudo bem que pelo caminhar da nossa situação política, a data será motivo de piada logo em breve, mas isso não nos impede de ainda pensar positivamente nesta comemoração. Atores, professores, médicos, lojistas. São tantas as funções apresentadas pela ótica do cinema, mas poucas narrativas, eufemismo, digamos, para quase nenhuma, tratou de um universo conhecido pela sua “invisibilidade”: as empregadas domésticas.

Dirigido por Fernando Meirelles e Nando Olival, Domésticas, é uma produção lançada em 2000, época em que o cinema brasileiro ecoava as reflexões do Cinema da Retomada e tateava uma adequação para o novo período que se estabelecia, para alguns considerado como a Pós-Retomada. Com roteiro de Cecília Homem de Mello e Renata Melo, em parceria com a dupla de cineastas, o filme aborda o cotidiano de personagens que vivem as agruras com as suas patroas, tecendo um painel adornado por questões como racismo, esperança, determinismo, preconceito, humilhações e o mais importante, engajamento por melhores condições de trabalho e o devido respeito pela função que exercem.

Numa mistura de linguagem cinematográfica (inclua a documental também) com elementos da publicidade, Domésticas é bem feliz em sua forma, pois oferta ao espectador enquadramentos com vida, montagem eficiente e direção de arte adequada. Os diálogos são bons, somados ao caminhar dos personagens sem desfechos quadradinhos, típico de narrativas que tentam empurrar-nos os seus finais felizes. Isso, entretanto, não quer dizer que o filme seja bom. Há a domesticação da forma, mas as falhas, entretanto, estão mesmo é em seu conteúdo.

Quando dito que a produção aborda diversas celeumas oriundas do cotidiano das empregadas domésticas, não menti. Aborda sim, o problema é a forma como são atados e relacionados os conflitos expostos na narrativa. Há a empregada que quer ser modelo, mas descamba para uma forma, digamos, mais simples de prostituição; há a mãe dedicada que quer a filha seguindo os seus passos como “secretária do lar”; há a esposa que além de trabalhar insatisfeita, precisa lidar com o marido devagar; em suma, Domésticas é uma produção dos “patrões” sobre as suas empregadas, o que resulta num retrato unilateral sem as devidas confrontações e gravitação de muitos estereótipos que não são bem trabalhados no final do percurso narrativo. A narrativa parece sim, ser cheia de boas intenções, o problema é que como diz o ditado popular (e há vários deles no filme), o inferno está cheio destas “intenções saudáveis”, o que em alguns momentos torna a experiência com o filme frustrante e pouco empolgante.

Na trilha sonora há um vasto repertório que se convencionou associar às tais trabalhadoras do título: Você é doida demais e Eu vou rifar meu coração, de Lindomar Castilho; Eu Não sou cachorro não, de Waldick Soriano; Você é tudo para mim e Domingo feliz, de Angelo Máximo; entre outros sucessos de Amado Batista, Perla e Sidney Magal.  Como apontou um crítico na época do lançamento, as canções são adaptadas para serem aceitáveis, afinal, o estilo brega dos anos 1980 hoje se tornou cult, e o que deveria ser o estereótipo da doméstica contemporânea (funk e pagode) foi trocado por músicas de tipos como Amado Batista, talvez mais aceitável para o verdadeiro público que tinha acesso às salas de cinema em 2000: os patrões.

Quando lançado, o Estado de São Paulo alegou que o filme era interessante e divertido, sem ser ofensivo com as domésticas. Concordo em partes. O mesmo veículo apontou que o filme ganhou melhor rumo por ser um filme popular, ao invés de uma abordagem sociológica do assunto. Discordo. O filme não consegue ser nem uma coisa nem outra. Mesmo com a sua leveza e aparente simplicidade, o filme falha ao coisificar as personagens como se fossem elementos exóticos de documentários sobre animais ou populações desconhecidas em locais longínquos ao redor do planeta.

Tratadas como pessoas pouco inteligentes, donas do português aceitável apenas nas análises de artigos acadêmicos em mesas de eventos sociolinguísticos, mediadas por intelectuais como Marcos Bagno, Domésticas é para o cinema brasileiro e a representação das invisíveis personagens o que a Reforma da Previdência espelha para o futuro dos brasileiros: um pesadelo de grandes proporções.

Domésticas — Brasil, 2001
Direção: Fernando Meirelles, Nando Olival 
Roteiro: Cecília Homem de Mello, Fernando Meirelles,
Elenco: Cecília Homem de Mello, Celaide Queiroz, Claudia Missura, Cristina Rocha, Cybele Jácome, Deo Teixeira, Eduardo Estrela, Fabinho Nepo, Fabio Madeira, Georgetta Fadel, Graziella Moretto, Jo Columbo, Lena Roque, Luciano Quirino, Luis Miranda, Marcia Ribeiro, Olivia Araújo, Patricia Gaspar, Plínio Soares, Raul Gazolla, Renata Melo, Roberta Garcia, Robson Nunes, Teca Pereira, Theo Werneck, Tiago Moraes
Duração: 85 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.