Crítica | Domicílio Conjugal

estrelas 3

Lançado nos idos dos anos 1970, Domicílio Conjugal não é um problema na filmografia de François Truffaut. A produção apresenta o primor pela técnica e o clima autoral do diretor, que assina o roteiro em parceria com Claude de Givray e Bernard Revon. O problema, talvez, esteja nas comparações das desventuras de Antoine Doinel (Jean-PierreLéaud) com as suas incursões cinematográficas anteriores (Os Incompreendidos, Antoine e Colette e Beijos Proibidos). Menos interessante, o personagem não parece ter evoluído o suficiente para a idade que apresenta, mostrando-se irritante em alguns pontos, tamanha a imaturidade. Para complementar, acrescente a esta receita uma direção mais automática, uma montagem que peca no ritmo. Menor? Sim. Ruim? Não. Apesar dos apontamentos, o filme de Truffaut é uma delicada e interessante narrativa sobre o amor, temática refletida dentro de um feixe de mudanças políticas e culturais na França dos anos 1970.

Domicílio Conjugal apresenta-nos o casal Antoine e Christine (a ótima Claude Jane). Ela é professora de violino e ele um diletante aspirante a escritor, um rapaz pouco desenvolvido profissionalmente. Ao ser contratado para trabalhar em uma multinacional, Antoine conhece uma mulher que lhe atrai, Kyoko, uma japonesa considerada “excêntrica”. Certo dia, já de relação afetiva efetuada, a oriental envia flores e um cartão de amor para Antoine, mas quem recebe é Christine. Furiosa, a esposa arma um “circo” e impulsiona a saída de casa do marido, que passa a viver mais intensamente com a sua nova paixão. O problema é que com o passar do tempo, Antoine sente falta da presença da esposa, relembrando momentos juntos, buscando ser agradável diante de uma relação que terminou com os dois substituindo o bom e desejável sexo por leituras noturnas, a fim de passar o tempo e chamar o sono (talvez numa época pré-rivotril, desde já, com o perdão da piada, caro leitor). Será com o nascimento da filha, e, respectivamente, as visitas, que Antoine começa o processo de reconquista com Christine.

Com 100 minutos de duração, direção de arte e figurino bem trabalhados, Domicilio Conjugal tem como um dos pontos mais interessantes o painel histórico em que a narrativa está mergulhada. Seguindo o lema do pensador Frederic Jameson, “historicizar sempre”, percebemos que muito do contexto político e cultural da França na época está inserido no filme. Neste período, a França estava imbuída do espírito de mudanças: marcada pelo maio de 1968, pelas manifestações do movimento feminista e por uma crise econômica, a nação passou a ser governada pelo então ministro das finanças Giscard, representante político simpático do movimento feminista, que tratou de, entre tantas reformas, impulsionar a economia, bem como implementar medidas de estatais de modernização.

Ao apresentar os conflitos amorosos sem o modelo prosaico do cinema hollywoodiano, mas como uma caricatura deste, Truffaut toca nas cordas sensíveis da liberdade sexual, um tema ainda tabu nesta época, mas já debatido sem tantas delongas, haja vista que no governo de Giscard, atitudes como a mudança da maioridade penal de 21 para 18 anos de idade, a liberação do aborto e a campanha para uso de contraceptivos marcaram a época.

Erudito, François Truffaut, como já dito em críticas anteriores, era amante do cinema, e assumiu, numa entrevista em 1975, que já havia assistido à 15 mil filmes no auge dos seus 43 anos de idade. Desde cedo marcado por uma infância difícil e repleta de infelicidade, e por isso, transferiu seu amor para o cinema: um filme sobre o amor, além de ser um filme feito por amor. Num estilo muito próximo ao que Balzac fez na literatura francesa do século XIX, Truffaut ilustra o cotidiano e as relações humanas através dos enquadramentos e movimentos de câmera poéticos e bem justapostos. Apesar de pecar pelo ritmo, não deixa de ser interessante.

Só por curiosidade, o filme estreou no Brasil em 09 de setembro de 1970.

Domicílio Conjugal (Domicile conjugal) — França, Itália, 1970
Direção: François Truffaut
Roteiro: François Truffaut, Claude de Givray, Bernard Revon
Elenco: Jean-Pierre Léaud, Claude Jade, Hiroko Berghauer, Barbara Laage, Danièle Girard, Daniel Ceccaldi, Claire Duhamel, Daniel Boulanger, Silvana Blasi, Pierre Maguelon, Jacques Jouanneau
Duração: 100 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.