Crítica | Dominação (2000)

Dominação

estrelas 2

Dominação é um daqueles filmes que nós revisitamos quinze anos depois para ver se algo mudou no que diz respeito aos aspectos da recepção: com o tempo, as leituras, o avançou ou retrocesso intelectual, bem como de elementos da linguagem cinematográfica, a nossa visão pode mudar. Um filme que detestamos pode ganhar outra roupagem, assim como o filme que amamos pode se transformar em algo odioso numa perspectiva diacrônica.

No caso de Dominação, o filme continua ruim em sua totalidade. A forma como o desfecho se estabelece, a falta de garra de alguns personagens e a percepção de que desde os anos 1970, os filmes sobre exorcismo, com raras exceções, continuam a pasteurizar o mesmo conteúdo, deixam a contagem de pontos com saldo negativo. No que diz respeito aos aspectos visuais, por sua vez, o filme leva os merecidos elogios, graças ao ótimo trabalho de Mauro Fiore na direção de fotografia.

Com direção de Januesz Kaminski, diretor de fotografia dos filmes Minority Report – A Nova Lei e O Resgate do Soldado Ryan, Dominação capitaliza em torno da vinda do diabo para a terra. É basicamente um filme sobre a chegada do Anticristo, algo que já foi apresentado melhor em outras produções que bebem no clima de conspiração de O Bebê de Rosemary e flertam com os elementos profanos de O Exorcista.

“Eles tiverem os seus 2 mil anos, agora é a nossa vez”, dispara um personagem. É nesta linha que a narrativa se desenvolve. O escolhido para personificação do mal é o escritor Peter Kelson (Ben Chaplin), um escritor desprovido de fé, ateu confesso, não batizado de acordo com os ritos religiosos, além de ser estudioso do comportamento violento de psicopatas. Em suma, um cara envolto de “energias” negativas. Para somar a negatividade que gravita em torno da sua existência, ele é órfão, pois os pais foram brutalmente assassinados e a sua tutela ficou por conta do tio James, leia-se, padre James (Philip Baker Hall).

Paralelo a isso temos Maya Lakin (Winona Ryder), professora do ensino fundamental que faz parte de um grupo de exorcistas da Igreja Católica. Ela é bastante experiente, haja vista o seu passado, ligado a uma possessão demoníaca resolvida após um doloroso ritual de exorcismo. Ela descobre durante uma missão (exorcismo em um sanatório) uma série de anotações e números que depois de decodificados a direcionam ao escritor Peter Kelson, um homem que aos 33 representará o Diabo, assim como Cristo veio como homem representar Deus.

Ela tenta a aproximação, o que inicialmente será visto como loucura, repelido pelo homem que se nega a acreditar que foi designado a receber Satanás no dia do seu aniversário de 33 anos. As peças do quebra-cabeça começam a se formar depois que ele percebe ser filho de um incesto. Semelhante ao que foi abordado recentemente, na série The Exorcist, há uma conspiração em torno da chegada do Anticristo e algumas pessoas bem próximas da vida de Kelson estão unificadas para a sua transição.

É neste momento, entretanto, que Dominação deixa de ser um filme mediano sobre possessão para se tornar um filme ruim e oportunista. A trama veio na esteira de Stigmata e Fim dos Dias, entrelaçada aos medos e incertezas da chegada do místico ano 2000. Por se tratar de um contexto histórico tão turbulento, o filme peca pela falta de coragem em abordar com mais ousadia e menos senso comum um tema tão polêmico, numa época tão polêmica.

Infelizmente, o que ocorre é um final apressado, anticlimático, pouco interessante, insosso, diferente de algumas cenas potentes, tais como as alucinações da personagem de Winona Ryder no banheiro ou o desespero de Kelson na igreja quando a imagem de Cristo despenca diante da sua oração, ficando de cabeça para baixo e representando aquilo que nós já sabemos muito bem: a presença do maligno.

O roteiro de Piecer Gardner resultou num filme de quase 100 minutos de enrolação e situações previsíveis, clima de conspiração subaproveitado e contornos dramáticos que não aproveitam nem uma fagulha das ansiedades em torno do “fim do mundo”. Diante desta acusação, o leitor pode questionar que o filme estreou depois da virada do ano. Beleza, pode até ter sido, mas já estava pronto desde 1999, mas foi segurado pelo estúdio por conta de dois filmes da temática, Stigmata e Fim dos Dias, citados anteriormente. Não adianta ter um elenco primoroso, orçamento avantajado, quando a direção, o roteiro a montagem são tão pecaminosos quanto os atos malignos do insistente Anticristo, entidade que cinematograficamente já tentou se estabelecer há décadas.

Dominação (Lost Souls) – EUA /2000
Direção: Janusz Kaminski
Roteiro: Pierce Gardner
Elenco: Winona Ryder, Alfre Woodard, Ashley Edner, Ben Chaplin, Bob Clendenin, Elias Koteas, John Diehl, John Hurt, Kim H. Ornitz, Leslie Stefanson, Philip Baker Hall, Sarah Wynter, Ursula Brooks, W. Earl Brown, Winona Ryder
Duração: 97 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.