Crítica | Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976)

Dona Flor e Seus Dois Maridos chegou aos cinemas após nove anos do lançamento do romance homônimo. Eram momentos difíceis para os brasileiros, pois vivia-se, desde 1964, a Ditadura Militar, processo que por décadas aniquilou direitos básicos aos brasileiros. A classe trabalhadora se encontrava cada vez mais oprimida, os intelectuais tendo a liberdade de expressão como um problema e os estudantes se viam diante de um mundo de reflexões podadas. Como bem delineia o pesquisador Benedito Veiga em Dona Flor de Bruno Barreto, as filmagens foram contemporâneas ao assassinato do jornalista Wladimir Werzog, em outubro de 1975.

Jorge Amado já havia experimentado as suas obras transportadas para outros suportes artísticos. Gabriela tinha se tornado novela televisiva e fotonovela em uma famosa revista, além de uma HQ. Era a vez de Dona Flor ganhar imagens em movimento, quase uma década após a sua primeira tiragem de 75 mil exemplares. Foi assim que, ao ser dirigido por Bruno Barreto, com roteiro assinado pela dupla formada por Eduardo Coutinho e Leopoldo Serran, Dona Flor e Seus Dois Maridos tornou-se uma das produções mais famosas do cinema no Brasil.

Adaptação do famoso romance de Jorge Amado, Barreto teve alguma participação no roteiro, mas não foi creditado. Na produção de 120 minutos, somos inseridos em Salvador em plenos anos 1940. Época de mudanças estruturais e culturais, o Largo da Palma, no Pelourinho, abre espaço para a trajetória de Florípedes, vulgo Dona Flor (Sônia Braga), mulher com dotes culinários que precisa ser agir com bastante paciência com seu marido Vadinho (José Wilker), um homem machista, asqueroso e viciado em jogos.

Certo dia, durante o carnaval de 1943, o malandro morre em plena festa. Desesperada, Flor fica em prantos e passa bastante tempo de luto. Com montagem bem cuidada de Raimundo Migino e cenografia e figurino de Anísio Medeiros, o filme nos mostra a evolução da esposa, mais adiante, cortejada por Teodoro (Mauro Mendonça), um homem metódico, gentil, ideal para casar, tamanho o recato e respeito pelas tradições. O problema é que Vadinho volta do além para atormentar a vida de sua antiga esposa.

Ela é a única capaz de vê-lo. Dividida entre a saudade dos seus carinhos e afetação sexual, algo que falta na relação com o novo marido socialmente ideal, Flor precisa resolver a questão e sair de uma voz por todas desse dilema. Cheia de saudades, a personagem, tal como o Brasil da época e o atual, vai viver de maneira confusa as suas contradições. Metafórica, a narrativa reflete todo o apelo popular do romance que lhe serviu de referência, tendo como um dos seus pontos nevrálgicos a capacidade de levar para as telas, algo além do prosaico e banal, pois requintes de crítica social estão presentes em todos os cantos dos enquadramentos de Murilo Salles, diretor de fotografia da produção, responsável por captar muito bem o espaço cênico e as exigências dramáticas do roteiro.

Enquanto desenvolvimento de personagem, Dona Flor está para o imaginário brasileiro o que as loiras fatais estão para a história do cinema estadunidense. Atriz que viveu intensamente este universo alguns anos depois, Sônia Braga está dentro da concepção do que o sociólogo Gilberto Freyre considerou o “tipo perfeito de mulher brasileira”, isto é, morena com traços europeus, miscigenada e com cabelos negros ondulados. Com Dona Flor, ela é a representação da mulher moderna, pessoa que trabalha fora, além de cuidar da casa, numa mescla dos ideais de emancipação com os antigos desejos que habitavam a vivência feminina ao longo da história da humanidade: o desejo de casar e ter filhos, constituir uma família, etc.

Dona Flor e Seus Dois Maridos não foi a única experiência em adaptações literárias. O cineasta também comandou Gabriela, novamente com a atriz Sônia Braga e O Beijo no Asfalto, uma das melhores peças de Nelson Rodrigues. Ciente do processo de tradução de um suporte para outro, ele reforçou na época que nenhuma crítica direcionada ao quesito “fidelidade” seria levada em consideração, haja vista a necessidade de compreensão do público e da crítica no que tange aos processos de tradução intersemiótica.

Interligado com as leis de mercado, Barreto se desvencilhou do apelo exclusivamente estético comum ao Cinema Novo e fez questão de ressaltar que o seu filme tinha bastante apelo comercial. Isto, por sua vez, não significa que a produção seja ruim. Há relatos de Jorge Amado com a sua apreciação da obra. De acordo com o escritor baiano, apesar de reconhecer as distâncias gigantescas entre muitas situações do livro e do que foi selecionado para o filme, “Bruno Barreto soube captar muito bem o espírito da obra”, pois o resultado “foi um filme de grande beleza”.

Dentre os demais trunfos do filme, temos a campanha publicitária de grandes proporções, algo incomum no Brasil da época. Houve bastante investimento nos trailers, nas salas de cinema que exibiriam o filme, na quantidade de cópias por sala, a contratação de fiscais de bilheteria e investimento pesado em press kits. Tal como revelaram os produtores, “foi uma lição que ensinou ao brasileiro como vender cinema por aqui”.

Benedito Veiga, no artigo descrito anteriormente, afirma que na época havia preocupação do filme ser atingido pelo mesmo estigma que o seu autor, isto é, um arroubo financeiro, mas fiasco da crítica especializada. Os envolvidos estavam diante de uma encruzilhada, pois muito se pensava sobre a relação com a sociedade massa. A pergunta em questão era “como atingir o maior número de público com o menor desgaste qualitativo da obra?”. Diante dos desafios, os envolvidos estavam cientes da necessidade de divulgação e ampliação do mercado e do consumo, tendo em vista aumentar as margens de lucro, reflexão bem tributária ao que Canclini esboça no elucidativo Culturas Híbridas.

Indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, a produção também ganhou presença no BAFTA, na categoria de atriz revelação para Sônia Braga. Além do sucesso estrangeiro, Dona Flor e Seus Dois Maridos ganhou notoriedade no Brasil, arrebatando os prêmios de Melhor Diretor, Trilha Sonora e o prêmio do júri de Cenografia e Figurino para Anísio Medeiros. Marco do cinema nacional no que tange aos aspectos críticos e comerciais, o filme era a maior bilheteria brasileira até a chegada de Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro, em 2010.

Por se tratar de uma história “universal”, o romance de Jorge Amado também ganhou uma adaptação estadunidense em 1982, muito decadente por sinal, intitulada Meu Adorável Fantasma, dirigida por Robert Mulligan e com Sally Field no papel feminino. O Brasil também entrou na onda de sucesso do filme de Bruno Barreto e lançou a sua versão paródica, Seu Florindo e Suas Duas Mulheres, comandado por Mozael Silveira, com roteiro de Victor Lustosa, comercializado em 1978, época em que a pornochanchada ainda era bastante rentável.

Dona Flor e Seus Dois Maridos — Brasil, 1976
Direção: Bruno Barreto
Roteiro: Bruno Barreto, Eduardo Coutinho, Leopoldo Serran (baseado em romance de Jorge Amado)
Elenco: José Wilker, Mauro Mendonça, Sônia Braga, João Gomes, Álvaro Freire, Nelson Xavier, Betty Faria, Mário Gusmão, Rui Resende, Francisco Dantas, Betty Lago
Duração: 110 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.