Crítica | Dona Flor e Seus Dois Maridos – Minissérie Completa

Jorge Amado é um dos escritores brasileiros mais adaptados para o meio audiovisual. Seus romances possuem uma capacidade imensa de atrair o público, pois elementos bem populares gravitam em torno de suas histórias que não deixam de ter discussões políticas e apuro estético sofisticado. Narrador do popular e voz do brasileiro, o baiano teve o romance Dona Flor e Seus Dois Maridos adaptado diversas vezes: a versão de 1976, de Bruno Barreto é a mais famosa. Em 1998, a produção da Rede Globo decidiu levar a história para o formato televisivo, sob a direção de Mauro Mendonça Filho, guiado pelo roteiro de Dias Gomes, dramaturgo auxiliado por Ferreira Gullar e Marcílio Moraes na condução de tradução entre meios semióticos.

Para Mauro Mendonça Filho, a minissérie teve o grande mérito de ser “fiel”  ao universo de Jorge Amado. Segundo o realizador, há um modo standard de fazer a adaptação do romance, mas tanto ele quanto os envolvidos não queriam. Prova disso está na mescla de épocas, representada pelos carros dos anos 1970, telefones dos anos 1990 e contextualização histórica da época, como por exemplo, uma alusão ao desfacelamento do Banco Econômico. Experiente na direção, Mendonça Filho cumpre bem o seu papel, prova disso está no gerenciamento dos 350 figurantes que estavam na famosa cena da procissão, com Edson Celulari desfilando apenas com um tapa-sexo. Com produção geral de Guel Arraes, os vinte episódios de Dona Flor e Seus Dois Maridos possuem a vantagem de conseguir expandir um universo que a adaptação cinematográfica precisou enxugar muito mais.

O tema central é o mesmo: fusão de realismo fantástico com críticas sociais, representação dos rentáveis estereótipos de baianidade, bem como uma profunda análise de Salvador, da cultural local e da importância da culinária e da musicalidade na vida dos personagens que gravitam em torno desta bem sucedida adaptação televisiva. A história é tão conhecida, mas vale resgatarmos o enredo: Florípedes (Giuliam Gam), isto é, Dona Flor, é uma mulher respeitada e que domina bem a arte de cozinhar e amar. Casada com o malandro Vadinho (Edson Celulari), ela “sofre os diabos”, pois além de mulherengo, o companheiro é viciado em jogo. Certo dia, o malandro morre enquanto desfilava no carnaval da capital baiana. Dona Flor fica de luto por longo tempo, até ser cortejada constantemente por Teodoro (Marco Nanini), homem exemplar que pode proporcionar para ela o conforto de um lar tranquilo e o respeito que Vadinho era conhecido por não deter.

Com o tempo e a conformação diante dos acontecimentos, Dona Flor aceita o casamento e muda de vida. No entanto, parece que Vadinho voltou do além (apenas ela tem a visão) e a sua vida agendada com Teodoro começa a desandar. Saudosa dos tempos de “safadeza” com Vadinho, haja vista a vida sexual sem planilha e hora marcada, tal como ocorre com o novo marido, Dona Flor começa a entrar em conflito, pois na linha do que Roberto DaMatta chamou de “A Casa e a Rua”, ela se questiona se quer viver uma vida segura e tradicional com Teodoro, mas sem o tempero de Vadinho, homem que sabia satisfazê-la na cama. Representante da dualidade comportamental, típica da construção cheia de contradições do povo brasileiro, Dona Flor se entrega aos dois lados de sua vida, trafegando entre a “casa” e a “rua”.

Giulia Gam e Marco Nanini estão ótimos como Dona Flor e Teodoro, mas o grande destaqye vai para Vadinho, personagem que está muito bem representado por Edson Celurari. O ator conseguiu emular muito bem um dos ícones da literatura brasileira do século XX, exalando a “dialética da malandragem” por todos os poros. Aventureiro, Vadinho trafega constantemente entre o que é lítico e ilícito, sendo uma peça esculpida de representação do mundo que vive entre a ordem e a desordem concorrendo entre si. Dentre os tantos temas da obra ponto de partida, isto é, o romance de Jorge Amado, podemos destacar a construção da identidade nacional e o mito da cordialidade. As considerações de Antonio Cândido sobre ‘”levar vantagem em tudo”, oriundas do seu estudo que teve como objeto de análise, o romance Memórias de Um Sargento de Milícias, de Manoel Antônio de Almeida, é um caminho interessante para compreender o herói de Jorge Amado que nas três versões (cinema, televisão e teatro, com Marcelo Farias), pois em “Dialética da Malandragem”, o ensaísta reflete que o personagem literário de Almeida vive numa espécie de mundo sem culpa, onde a transgressão não é uma agressão e ninguém é punido. Salvas as devidas proporções comparativas, o de Jorge Amado também, bem como a sua versão audiovisual criada pelo experiente Dias Gomes.

Nos aspectos estéticos, Dona Flor e Seus Dois Maridos conseguiu alcançar êxito em sua missão de explorar os limites ficcionais e buscar proximidade com o clima baiano. A equipe reformou alguns casarões no Largo da Saúde, tendo me vista “envelhecer” alguns espaços para torna-los aptos na representação histórica fidedigna. A trilha sonora é um dos pontos fortes. Os episódios tem como tema de abertura, Caminhos do Camarim, de Carlinhos Brown. Para compor algumas cenas, temos clássicos, tais como Eu e a Brisa, de João Gilberto; Toda Menina Baiana, de Gilberto Gil; Vamos Fugir, de Daúde e Djavan; Flores, com Ivete Sangalo ainda na Banda Eva; Vapor Barato, com Gal Costa e Zeca Baleiro; Rosa, com Marisa Monte; São Salvador, de Dorival Daymmi; a “obrigatória” O Que Será (A Flor da Terra), na voz de Gal Costa e Caetano Veloso; juntamente com alguns sucessos de Cauby Peixoto, Daniela Mercury, Emilio Santiago, Fafá de Belém, Oswaldo Montenegro, dentre outros.

No processo de adaptação, os envolvidos modificaram alguns elementos, entre eles, o acréscimo de um casal homossexual, interpretado por Celeste (Dira Paes) e Juliana (Cyria Coentro), além de acrescentar os bicheiros como os problemas de ordem social que precisavam ser consertados. Há algumas pitadas de violência, numa espécie de busca pela radiografia do real, haja vista o crescimento de tal celeuma nos grandes centros urbanos brasileiros nos anos 1990. Personagens como Calabrês (Otávio Augusto) e Noêmia (Cláudia Liz) ganharam outra dimensão, pois tiveram os seus perfis ampliados, com maior participação e importância para a história.

Exibida entre 31 de março e 01 de maio de 1998, Dona Flor e Seus Dois Maridos é uma das minisséries bem sucedidas da Rede Globo. Com ótimo elenco e roteiro bem desenvolvido pelos criadores, a produção diverte, encanta e faz refletir. O terreno televisivo, ciente do poder magnético entre Jorge Amado e o público, constantemente faz uso de suas histórias para adaptações no suporte audiovisual. O cinema idem, haja vista a recente versão do romance para o cinema, com Juliana Paes no papel da icônica esposa que se entrega ao dual mundo do tradicionalismo e do prazer. Comportada e mecânica, a nova leitura entrou na ciranda do “politicamente correto” do contemporâneo, mas isso, caro leitor, é assunto para um novo texto, tudo bem?

Dona Flor e Seus Dois Maridos – Minissérie Completa (Brasil, 1998)
Direção: Mauro Mendonça Filho
Roteiro: Dias Gomes
Elenco: Giulia Gam, Edson Celulari, Marco Nanini, Aloiso de Abreu, Nelson Xavier, Bruno Garcia, Ana Cecília Costa, Cândido Damm, Cláudia Liz, Cláudio Mamberti, Maria Helena Pader, Dira Paes, Floriano Peixoto, Jackson Costa, Ernani Moraes, Solange Couto
Duração: 50 min (cada episódio – 20 episódios no total)

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.