Crítica | Donkey Kong Country Returns

estrelas 4,5

A trilogia Donkey Kong Country marcou época na década de 90 quando surgiu para o Super Nintendo. Surfando na onda de jogos de plataforma – principalmente Super Mario World – a empresa japonesa trouxe um game que não só foi um sucesso por uma jogabilidade fluída e cenários lindos, como ainda foi inovador em gráficos e trilha sonora, até hoje marcantes para quem cansou de zerar o jogo com mais de 100%. Felizmente, a empresa acordou e apostou no retorno da franquia em 2010, para Wii, e em 2013, para Nintendo 3DS. Duas ótimas versões desse novo jogo que faz justiça aos jogos clássicos.

Diversão e desafio se entrelaçam com nostalgia em Donkey Kong Country Returns. O Country do título é proposital: desde o início do jogo, praticamente idêntico ao primeiro jogo da franquia lançado em 1994, é possível ver o esmero da equipe de desenvolvimento em trazer para os novos consoles um dos melhores jogos de plataforma da história. Os novos cenários, ainda mais coloridos, trazem de volta as selvas, as minas e as cavernas dos outros tempos, com novidades magníficas como as fases do pôr-do-sol, pinturas que fazem o jogador parar por um instante apenas para admirar o trabalho feito pelos desenvolvedores.

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A dificuldade, por mais complicada que vá se tornando ao longo do jogo, ainda segue a tendência dos games de hoje em ser relativamente fácil. Para quem quer uma experiência mais complexa, entretanto, a Nintendo traz diversos desafios que qualquer gamer hardcore pode passar dias tentando alcançar. Desde colecionar as letras KONG, passando pelas peças de quebra-cabeça escondidas até chegar ao final e ser intimado pelo jogo a buscar as gemas para liberar novos mundos, o fator desafio continua enorme. E tudo isso passando por um gameplay que te obriga a dominar os movimentos de Donkey e Diddy em uma mecânica de tentativa e erro viciante.

Nesse sentido, uma das maiores mudanças vem no jogo de Diddy Kong – ou melhor, na ausência dele.  No modo single player, o jogo permite apenas o controle do Kongão, deixando Diddy como um auxiliar valioso por dar um rápido aspecto de voo e mais velocidade à Donkey. Os personagens continuam se complementando, mas a vontade jogar apenas com Diddy permanece durante toda a experiência. Os controles de Wii são bem utilizados e se comunicam bem com as ações dos protagonistas, mas o jogo parece mais completo se jogado no 3DS. Nem tanto pelo aspecto 3D – ótima adição – mas pelos botões clássicos que dão ao jogador mais controle ao mesmo tempo que o remetem à um mecanismo parecido com o simples controle de Super Nintendo.

A história, em si, é quase inexistente. A ilha de DK fica dominada por um novo vilão e os dois protagonistas devem salvá-la desse perigo, colecionando bananas e derrotando os oito chefões de fase. Todos fáceis mesmo com mecânicas variadas, o que acrescenta ao jogo. Do mesmo modo ocorre com os vilões menores, que não marcam a presença dos abutres, jacarés e orangotangos dos primeiros jogos, mas cumprem com a função de tornar o jogo desafiador. Tudo simples e divertidíssimo.

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Mas o que garante DK Returns na lista de jogos que devem ser jogados é o principal fator que fez o nome Donkey Kong ser admirado por todos os gamers: o ambiente. Em cada novo cenário é incrível observar os detalhes e a beleza dos gráficos que se encaixam com os segredos de fase e influenciam no gameplay. O cenário 2.5 D ressalta ainda mais o jogo de cores e esconde melhor do que antes as peças secretas de cada mundo. Ir notando, com o tempo, que tais galhos parecem estranhos e ir até lá para descobrir que lá havia um tesouro escondido é recompensador. A cereja do bolo é a trilha sonora, que mereceria texto próprio. Quando se começa a andar na floresta e se ouve Jungle Hijinxs, ou Aquatic Ambiance Returns no mundo da praia…Forest Frenzy e Tree Top Rock Returns outras memoráveis músicas, entre tantas, trazem ao jogo o poder da música composta pelo genial David Wise para os três primeiros jogos.

A volta de DK não é perfeita. Os extras agregam pouco valor ao jogo e é possível notar a falta de alguns elementos clássicos que deixam o fã com saudade: Dixie, Cranky e Funky não apareceram dessa vez. Mas são pormenores que não influenciam em nada este ótimo produto que coloca uma franquia novamente nos eixos. Afinal, a última impressão que ficou era a do polêmico DK 64 e, com a obscuridade que a Rare, desenvolvedora original de DK Country, tomou nos últimos tempos, a perspectiva para um novo bom jogo da série era nula.

Em comparação com os três DK Country anteriores, DK Returns fica devendo, mas isso não é demérito algum. Se falta o clima um pouco mais sombrio de DK 2, ou os companheiros especiais de DK 1 – ainda que o rinoceronte Rumbie apareça de vez em quando – ou ainda mais personagens novos como havia em DK 3, Returns cumpre com o que promete em seu próprio título, misturando o velho com o novo e garantindo uma experiência que revive personagens queridíssimos na história dos vídeo-games.

Donkey Kong Country Returns
Desenvolvedor: Retros Studios e Monster Games
Lançamento: 21 de novembro de 2010 (Wii) e 24 de maio de 2013 (3DS)
Gênero: Plataforma
Disponível para: Wii e 3DS

ANTHONIO DELBON . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.