Crítica | Donnie Darko

estrelas 3,5

Como estudioso de cinema sempre imaginei como será fazer um filme de longa metragem, afinal, tudo aquilo que foi estudado e praticado em curtas metragens será longamente posto à prova no momento de gravar. Não me entendam mal, não estou colocando-os em uma cadeia hierárquica como “o longa sendo um passo além do curta’’, mas obviamente uma metragem maior necessita de uma série de cuidados também maiores em seu ritmo e cadência, senão facilmente o filme irá se perder em um amontoado de imagens sem sentido, o que, a não ser que a proposta tenha sido essa, dificilmente possuirá algo que consiga se comunicar com seu espectador de maneira clara.

Porém, e se essa for a intenção? De confundir usando a narrativa cinematográfica como artifício para contar uma história o menos direta possível? Não linear, abstrato ou experimental, chame como quiser, o cinema comporta muito mais que apenas histórias unilineares e ainda assim concisas, experiências que remontam desde o primeiro cinema; Buñuel faz seu Cão Andaluz ainda em 1929 e a Canyon cinema de Bruce Baillie organizou artistas que experimentavam direto na película desde a década de 40, isso para não citar a video art desenvolvida a partir dos anos 70. Fica disso a íntima relação do áudio visual com todo tipo de experiência sonora e imagética, mesmo que essa possa estranhar alguns espectadores pela proposta.

O diretor Richard Kelley fez seu Donnie Darko com apenas 25 anos, um grande desafio imagino, um diretor de primeira viagem ter controle de uma narrativa desse tamanho é para poucos e mesmo que um traço de amadorismo seja visto em algumas sequências do longa ele alcançou status cult entre os ditos ”espectadores comuns” (como se houvesse alguns mais especiais). Alcançando popularidade principalmente por sua trama intricada, recheada de referências oitentistas em sua história e na trilha sonora, com sucessos nostálgicos para quem vivenciou essa época, nem que seja por filmes, a película tem na viagem no tempo seu elemento principal. É… a famigerada viagem no tempo. A direção foi muito hábil em conciliar um hermetismo cheio de simbolismos, que poderia facilmente afastar a audiência, com uma trama intimista de romance adolescente. Arriscado, mas muito bem acertado, quase um surrealismo pop.

Mesmo que, em geral, a trama funcione bem como já destacado, ela possui problemas típicos de diretores iniciantes, como takes deveras disfuncionais à narrativa, muitas vezes sem um por quê de estarem na montagem, pois demorados demasiadamente. Algo muito comum, por exemplo, em Eraserhead, primeiro filme do grande diretor David Lynch; cheio de planos parados e enquadramentos desproporcionais. Vemos muito disso também aqui, e não imaginem que a comparação é gratuita, Kelly deve muito ao papa do surrealismo americano, principalmente na forma de narrar.

O primeiro ato da obra é o mais problemático e por vezes parece desconectado da história. Nele, vemos a construção do núcleo familiar de Donnie, importantíssimo para o roteiro; seu fantasma o coelho Frank, idem; e a queda da turbina em sua casa, no seu quarto, da qual ele se safa com ajuda de seu ”amigo imaginário” que o chama para fora no fatídico momento. Se teoricamente as ideias seduzem fácil o ritmo atrapalha, falta dinamismo e sobra momentos tediosos que facilmente poderiam ser retirados no corte final em conflitos que não conseguem apresentar seus personagens. O elenco capitaneado por um Jake Gyllenhaal ainda muito jovem também contou com Patrick Swayze e Drew Barrymore, quem acreditou e bancou o projeto. No prosseguir da história, o adolescente passa a ser assobrado por um homem vestido de coelho que passa a interferir sua vida como um voz na consciência.

No segundo e terceiro ato o filme consegue deslanchar com a loucura cada vez maior do protagonista que passa a obedecer ao chamado do herói que Frank proporciona para ele. A obra começa a enveredar totalmente para o fantástico sem esquecer-se do humano, um ponto altíssimo em sua narrativa. A relação estabelecida entre as várias possibilidades de futuro e a irreversível caminhada do jovem para a perda reaproximam o público do enredo. Não, ele não deixa de ter furos ou de ser até mesmo difícil de entender, no entanto, o que fica do filme é sua ideia, seu significado cheio de culpa e egoísmo, como Mad World deixa ressoar em nossas cabeças.

Poderia passar horas defendendo inúmeras teorias sobre a filosofia da viagem no tempo que o filme traz para o espectador, mas acho que o que o fez de tão interessante, além da inventividade de seu diretor, foram os personagens e o caminho que todos percorrem até o amadurecimento, do medo ao amor passando por todos os sentimentos envolvidos. Se eu pudesse definir o que está escrito na película seria certamente um road movie, não pelo espaço, mas pelo tempo; não pelo presente, mas pelas lembranças que fazem de cada um o que se é. Esse é ponto aqui, Donnie Darko não é um filme perfeito nem ‘’genial’’ (aliás, quem é?) mas é lembrado por ser antes de tudo, humano.

Donnie Darko (EUA, 2001)
Direção: Richard Kelly
Roteiro: Richard Kelly
Elenco: Jake Gyllenhaal, Holmes Osborne, Maggie Gyllenhaal, Daveigh Chase, Mary McDonnell, James Duval, Arthur Taxier, Patrick Swayze, Mark Hoffman, David St. James, Drew Barrymore
Duração: 113 min.

PEDRO ROMA . . . Antes de tudo, cinéfilo inveterado e amante de todo tipo de filme, mesmo que eu prefira um pouco mais russos e tchecos, em geral. Aspirante a cineasta, atualmente curso cinema e espero poder ganhar um longo podcast sobre mim um dia, haha. Para além das brincadeiras, quero contribuir de forma ativa com o pensamento cinematográfico, começando pela critica é claro, podendo colocar em palavras toda a emoção que sinto nesse prazeroso e ao mesmo tempo intrigante ato de simplesmente sentar e ver um filme.