Crítica | Don’t Drink the Water

DRINK THE WATER

estrelas 4

Em Novembro de 1966, estreava no Teatro Morosco, em Manhattan, a peça Don’t Drink the Water, de um conhecido e aclamado comediante stand up chamado Woody Allen. O sucesso da peça, que ficou quase dois anos em cartaz, chamou a atenção dos produtores de Hollywood, que compraram os diretos para uma futura adaptação cinematográfica. O filme saiu em 1969, dirigido por Howard Morris, com Jackie Gleason e Estelle Parsons no elenco. Apensar de ter coescrito o roteiro, Woody Allen reviu o filme décadas depois e não gostou nada da adaptação, fator que lhe impulsionou para filmar a sua versão da peça, onde tivesse pleno domínio sobre todos os setores do filme. Em Outubro de 1994, o diretor estreou o longa Tiros na Broadway e dois meses depois, seria exibido na TV a sua inédita adaptação de Don’t Drink the Water, telefilme que dirigiu, adaptou de sua própria peça e atuou.

A história se passa nos anos 1960, em algum lugar atrás da “cortina de ferro”, no auge da Guerra Fria. O Embaixador Magee precisa ir à Washington e depois de muito relutar, resolve deixar seu filho, um incompetente jovem diplomata, como representante da Embaixada dos Estados Unidos. Depois de alguns dias de normalidade, o casal Hollander e sua filha entram correndo na Embaixada, fugindo do Exército comunista. Consta que Walter Hollander foi tirar uma fotografia do pôr-do-sol em um local considerado estratégico pelo Exército Vermelho e a família acabou sendo confundida com um grupo de espiões. O filme aborda a hilária estadia do casal na Embaixada.

Um mini-documentário com imagens reais de eventos ocorridos na Guerra Fria abre a película. Aqui, chamo a atenção para essa recorrência e manipulação do documentário na filmografia de Woody Allen (ele já havia chegado ao clímax nesse tipo de produção em Zelig). No presente caso, o gênero é a porta de entrada para os insanos acontecimentos que veremos acontecer durante o filme. Mais uma vez, o diretor usa de fatos reais para criar o seu mundo de impossíveis.

Allen consegue adequar-se muito bem às necessidades de uma obra para a televisão e isso percebemos através do equilíbrio entre situações dramaticamente fracas e momentos de forte conteúdo cômico ou suspense. Vale dizer que este é um dos filmes mais engraçados do diretor e tanto sua atuação quanto a de Julie Kavner, além de serem impressionantes, seguram a veia do humor de ponta a ponta no filme. Como é comum em uma adaptação teatral para a TV, a maior parte das locações são em internas, algo que poderia limitar a história, mas isso não acontece. Ao lado do diretor de fotografia Carlo Di Palma (colaborador de Woody Allen desde Hannah e Suas Irmãs), o diretor explora a profundidade de campo, recria as utilidades para cada cômodo e andar da Embaixada e consegue dinamizar ao máximo a forma interna e externa do filme através de uma edição ágil (pela 18ª vez a cargo de Susan E. Morse) e de uma câmera sempre em movimento. As constantes mudanças de ângulo, plano e a câmera na mão, deixam o espectador constantemente atento, nunca permitindo que o filme caia no desinteresse.

Em Bananas, Woody Allen já havia abordado a questão do comunismo como premissa central e aqui em Don’t Drink the Water ele adota a postura de crítica à visão estadunidense sobre Marx e o socialismo. Não só pelo discurso do narrador — já que o filme é um misto de documentário e ficção, com uma narrativa dentro da outra — mas pelas próprias situações do enredo, vemos a ligação da política com a comédia ácida típica de alguns de seus filmes:

A visão do Sr. Kilroy de Karl Marx é direta e simples, e reflete na do Sr. John Wayne:

_ O único bom comunista é o comunista morto. Eles são como índios.

As personagens de Don’t Drink the Water já trazem motivos para rir (um padre mágico e um chef especialista em pratos exóticos como geleia de pé de bezerro), e todo o elenco está afiadíssimo, não havendo interpretações ruins ou medianas. Woody Allen trabalha a carga de paranoia política da Guerra Fria e consegue encená-la muitíssimo bem no campo diplomático, temperando a comédia que cerca esse tema com as relações de uma hilária família e a incerteza do amor.

As sequências finais, com os diferentes planos de fuga e o desfecho, com Woody Allen e Julie Kavner vestindo burca e fingindo serem esposas de um Emir, é uma das muitas cenas inesquecíveis. Don’t Drink the Water é uma explosão de inteligência, domínio de locação cinematográfica, enredo e atuações. Um maravilhoso telefilme.

Don’t Drink the Water (EUA, 1994)
Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
Elenco: Ed Herlihy, Josef Sommer, Robert Stanton, Edward Herrmann, Rosemary Murphy, Michael J. Fox, Woody Allen, Julie Kavner, Mayim Bialik.
Duração: 100 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.