Crítica | Doomsday Clock #1: Aquele Lugar Aniquilado

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Doomsday Clock? O que é isso?

Uma minissérie em 12 edições, continuação de Watchmen (sim, isso mesmo que você leu. Para discussão, veja os parágrafos abaixo) e entrada definitiva desse Universo na linha corrente de publicações da DC Comics. Não é um evento. Não haverá tie-in. É uma minissérie auto-contida.

O que eu preciso ler para entender Doomsday Clock?

A sua leitura obrigatória é a clássica Watchmen. Porém, como a ligação com o Universo DC: Rebirth irá acontecer nas páginas dessa minissérie, sugiro fortemente que leia a one-shot DC Renascimento #1 e o arco Batman/Flash: The Button (é uma história curta, são apenas 4 edições). Se por acaso você ainda achar confusa a participação do Flash e todo o nó com a Força de Aceleração, aí eu sugiro que leia outra one-shot, a Flash Rebirth #1. Só isso.
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Nota Introdutória

O vespeiro novamente foi cutucado. Mexeram com Watchmen. Importantíssima, respeitada e uma das melhores histórias em quadrinhos de todos os tempos, a obra de Alan Moore e Dave Gibbons já tinha gerado ondas de furor quando ganhou a pré-sequência Antes de Watchmen, em 2012. Agora é a vez de uma sequência. E a polêmica continua a mesma. O propósito desta crítica, porém, não é discutir os elementos morais ou de gosto pessoal em toda essa jogada, porque discutir isso em particular não leva a absolutamente lugar nenhum. A discussão pode ser resumida em uma frase — e aqui, já marco a minha opinião a respeito de todo o processo: continuações ou pré-sequências de qualquer obra de arte (inclusive aquelas que acabam se saindo muito bem) são desnecessárias. Não deveriam existir e ponto final. Mas desde A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica, um livro dos anos 1930 (!), a gente sabe sabe das implicações de mercado e público-alvo em torno disso.

Não é novidade, não vai parar de acontecer e, por mais que a gente goste ou não, há a possibilidade de algo bom acontecer nesse uso herético de obras consagradas. Nós vivemos em um mundo assim e isso não é algo recente. Não se trata de sacanagem da DC Comics ou perseguição ao Mago Moore. Isto é mercado, é um dos ícones da indústria cultural. E só saberemos se essas heresias “criativas” são realmente boas ou ruins se consumirmos a obra em questão (sim, apesar de ser uma afirmação óbvia, todo mundo sabe da existência da patota que acredita que é minimamente inteligente proferir coisas do tipo: “não li, não lerei, não gostei e sei que é ruim mesmo sem ter lido e quem diz que é minimamente bom não respeita o original e é um nutella-modinha-noob que deveria ser reduzido a átomos pelo Doutor Jonathan Osterman“). Sobre esses, a gente só pode acenar e dizer isso aqui. Para finalizar esta nota introdutória, quero destacar que o presente tema já foi teorizado e aprofundado por mim em Plano Polêmico #12: A Criatividade Morreu?. Convido aos que querem avançar na discussão que passem nos comentários por lá. A agora, exposto o contexto de produção desta nova série da Casa das Sombras, vamos à crítica.
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Aquele Lugar Aniquilado

SPOILERS!

22 ou 23 de novembro de 1992. Já se vão sete anos desde o assassinato de 3 milhões de pessoas em Nova York após o plano de Ozymandias de interromper o Relógio do Apocalipse (ou do Juízo Final) ter sido colocado em prática, no fatídico 2 de novembro de 1985. Como todo Império na História, o sonho utópico de crescimento, prosperidade, longevidade e paz mundial ruiu e o mundo enfim descobriu os podres por trás do então chamado “inimigo comum entre americanos e soviéticos“. Geoff Johns não faz nenhum rodeio para chegar aonde realmente precisa nessa história: seguir os passos de Alan Moore (não vamos nos ater a esta ironia. Prossigamos…) e realmente continuar os eventos a partir das consequências e dos traumas da Lula-Lelé que serviram para acalmar os nervos de comunistas e capitalistas em uma época de paranoia nuclear; um momento MAD da Guerra Fria neste Universo. E devo dizer: o autor conseguiu um resultado limpo e muito coerente com sua sua proposta, ao menos na dinâmica de estabelecimento político e trabalho esperado de consequências. Ele não tornou a “tragédia de ’85” um poço de lamentos e explicações de como e quando. Seu roteiro vai direto ao ponto e utiliza uma linguagem que, guardadas as opiniões já abordadas na Nota Introdutória, é sim bastante respeitosa com o original.

Doomsday_Clock_1 plano critico o fim está próximo

Uma sociedade imediatista, pega em plena crise de ânimos, dominação ideológica e cultivo de ódios. O fim realmente chegou. E não foi através de armas nucleares.

A forma de contar a história aqui é a mesma do quadrinho dos anos 80 também na arte. O trabalho de Gary Frank é excelente e ele consegue tornar o modelo de nove retângulos por página uma boa deixa de narrativa visual, talvez um pouco tímida no começo, mas mesmo assim, eficiente ao contextualizar a horda de indivíduos invadindo o prédio das Indústrias Veidt e as muitas notícias de caos geopolítico no mundo: Coreia do Norte fortemente armada e ameaçadora, Rússia invadindo a Polônia, o vice-presidente americano matando o Procurador Geral, a União Europeia tendo acabado de colapsar e milhões de americanos buscando abrigo no México (notem as indicações sociais de nossa sociedade utilizadas pelo autor como inspiração para criar os problemas gerais da trama). Essa base de diagramação + texto se alterna um pouco ao longo da publicação mas é bem manipulada e tem uma boa ligação com as mudanças de ritmo na representação do espaço, dos personagens e da ação em foco, alterando o modelo sempre quando necessário para explorar personagens e ambientes em maior escala. Neste ponto, a aplicação de cores de Brad Anderson também merece destaque porque cria um ambiente opressivo e claustrofóbico sem atrapalhar os detalhes do desenho ou destoar do texto.

Há aqui um narrador, um novo Rorschach. O pessimismo dele é o mesmo do original, mas o tom do discurso é outro. Há algum tipo de “ordem no caos” nesse novo Rorschach, apesar de ele ter os mesmos rompantes de ódio e incompreensão de determinados comportamentos humanos, além de um modo bem peculiar de falar… não igual ao original, mas indicando o mesmo tipo de reclusão ou abalo emocional. O roteiro estabelece uma sociedade em crise, à caça de um invasor ou perigo inexistente enquanto os reais problemas correm soltos, sem serem entendidos, percebidos ou estarem sob qualquer tipo de protesto por parte da massa de manobra que só consegue ver fúteis preocupações morais à sua frente, defendendo quinhões que ninguém ao redor deles tem a menor intenção de tocar, quiçá destruir. Tendo sido inspirado pelas eleições de 2016 nos Estados Unidos (outra obra de grande porte assumidamente inspirada por este novo momento no país foi American Horror Story: Cult) e pelos entraves bélicos e diplomáticos no mundo durante o ano de 2017, era de se esperar que Geoff Johns tecesse críticas ao momento, novamente, seguindo o exemplo de Moore ao usar dos conflitos mundiais em meados dos anos 80 para construir, a seu modo, os dilemas da HQ.

Dois personagens importantes são inseridos nesta estreia, Marionette e Mímico (Mime). Eles fazem parte de um novo time que está sendo reunido por Rorschach, em trabalho com Ozymandias, que hoje está com câncer (no cérebro, a tirar pela radiografia que vemos no consultório médico quando o povo invade o prédio do empresário). A função aqui é simples: encontrar Deus (Dr. Manhattan) para que esta nova realidade seja de alguma forma ajustada. É neste ponto que uma série de coisas boas da edição são minadas para um estágio de indefinição nada positivo. Aliás, muito da força do discurso político e das críticas colocadas pelo autor no começo do texto — todas essencialmente coerentes com o momento que retrata, acenando para um best seller teórico da época, O Fim da História e o Último Homem, de Francis Fukuyama — se perdem na parte final porque o texto deixa muita coisa solta, aparentemente para gerar um maior suspense no leitor. O epílogo com o pesadelo de Clark Kent não é apenas o pior momento da história como também uma quebra desnecessária do drama corrente, inclusive na arte, embora seja possível entender a leve mudança no padrão de desenhos e finalização de Gary Frank, porque ele está mostrando outro momento e outro espaço. Mesmo assim, a dicotomia com o restante da revista é chocante e a rigor só serve para inserir o Superman que, é preciso deixar claro, está em outra realidade. Este é o Superman da Terra Prime, a corrente Terra da DC Rebirth, não a Terra onde ocorrem os eventos de Doomsday Clock!

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Com um título que vem da segunda versão de Horace Smith para o poema Ozymandias, Aquele Lugar Aniquilado é um retrato interessante de um mundo no início de um colapso. Vários fatores estão em jogo e todos parecem se unir e ganhar força em um único momento, enquanto o atual presidente do país, o Sr. Robert Redford está jogando golfe. A responsabilidade (e irresponsabilidade também) de Geoff Johns nesta série é imensa e ele está diante de algo que é difícil de acompanhar, não só em qualidade de escrita mas também em relevância para os quadrinhos.

Nesta edição de abertura, suas escolhas para avançar com os problemas de 1985 para 1992 foram acertadas. A narração (que não é mais um diário, são anotações mentais — e sim, há um bom motivo para isso: como suspeitávamos, o Diário de Rorschach foi enfim publicado pelo The New-Frontiersman), os jornais impressos, o uso expansivo da televisão mais o desespero (inclusive do homem mais inteligente do mundo, agora com uma Bubastis filhote no colo) clamam por uma intervenção, por alguém com poder o bastante para resolver os problemas e colocar ordem na casa. Entra em voga o velho clamor político de origem ditatorial/fascista que busca em um culto ao líder ou herói poderoso um “Messias de Momento”, a salvação geral. O preço disso tudo é alto e temos séculos de História e décadas de quadrinhos para provar que não acaba bem. Por enquanto, ficamos à beira do precipício e nos servimos deste bem feito mas não perfeito feijão-com-arroz de Geoff Johns e Brad Anderson.

O fim chegou.

Doomsday Clock #1: Aquele Lugar Aniquilado (That Annihilated Place) — EUA, 22 de novembro de 2017
Roteiro: Geoff Johns
Arte: Gary Frank
Cores: Brad Anderson
Letras: Rob Leigh
Capa: Gary Frank
40 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.