Crítica | Doomsday Clock #4: Andar Sobre a Água

Doomsday Clock #4 Andar Sobre a Água plano critico dc comics

O milagre não é andar sobre a água. O milagre é andar sobre a Terra.

Linji Yixuan

Há SPOILERS! Leia a crítica de Watchmen aqui. Leia as críticas de Antes de Watchmen aqui. E leia as críticas de todas as edições de Doomsday Clock aqui.

Depois de mudar, juntamente com a DC, a frequência de Doomsday Clock para publicação bimestral (pelo menos sendo honesto em relação ao motivo, não tentando enganar o público com bobagens que jamais colariam) Geoff Johns chega à quarta edição desse Relógio do Apocalipse com uma história interessantíssima, que aborda duas realidades e uma porção de culpas e acontecimentos suspeitos, itens que talvez nos coloque para pensar em coisas muito maiores do que imaginávamos à primeira vista aqui. E olhem que estamos falando de uma sequência de Watchmen!

Diferente da barra forçada que engolimos em Nem Vitória Nem Derrota, temos neste Andar Sobre a Água uma trama que “se contenta a trabalhar com simplicidade”, mostrando como foi que o afro-americano Reggie Long se tornou o Rorschach II. Algumas leves dicas das edições passadas sobre psicologia tinham preparado secretamente o terreno, mas nada indicava algo tão interessante como o fato de Reggie ser filho do Dr. Malcolm Long, o psiquiatra criminal que tratou Walter Kovacs na prisão. E não só isso. O roteiro constrói com bastante eficiência uma série de motivações e justificativas morais para que entendamos o comportamento de Reggie e as coisas com as quais ele precisa lidar neste momento da vida. E para isso, Johns faz uma escolha arriscada, resolvendo contar a história em narrativa paralela.

O maior perigo desse tipo de estrutura textual é a dificuldade de fixar algo palatável para o leitor em ambos os blocos, tendo o autor que desenvolver bem os personagens em situações sólidas, e, claro, afunilar as duas tramas de maneira coerente, dando-lhes um bom final ou cliffhanger. Em partes, o texto de GJ falha nisso, confundindo-nos no início dos acontecimentos nas duas prisões. Mas depois de voltar umas duas páginas e prestar atenção nas dicas da arte de Gary Frank e Amie Brockway-Metcalf, e também da paleta de cores utilizada por Brad Anderson, fica mais fácil capturar os espaços e os distintos tempos em que a vida de Reggie é mostrada. Salvo algumas perdidas sugestões oníricas — ou dicas da arte que depois são expostas de forma tão literal que nem era preciso a “preparação” antes –, a dualidade funciona bem, colocando Reggie em contato com Byron Lewis (Traça/Mothman), dando início a um estranho e precioso relacionamento na prisão, onde ingredientes para um destino maior vão se unindo e formando algo bastante especial no desfecho.

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Como vamos batizar essa “junção de mantos”? Traça de Saturno?

Um outro acerto do roteiro foi a não interrupção da história no momento em que se esgotou o enredo da prisão. E Johns ainda conseguiu passar de maneira orgânica e sem anticlímax para o pós-fuga de Reggie, com sua ida à Antártida no momento mais preciso possível, tendo o primeiro encontro com Ozymandias. E aí surge algo que pessoalmente não consigo lidar. Não é uma queixa de estrutura da história, mas de construção de personagem, que mais parece o Padre Sérgio, de Tolstói do que o homem mais inteligente do mundo, criador de um plano para unir EUA e URSS e impedir que uma guerra nuclear acontecesse. O criador de um “inimigo comum” para a humanidade se unir e deixar de lutar contra ela mesma. Tudo isso é grandioso demais e potente demais no original de Alan Moore para chegarmos em Doomsday e vermos Ozy se transformar em alguém que, a despeito da doença, se derrama em uma culpa e arrependimento, algo que não combina nada com o personagem. “Ah, mas personagens podem mudar!“. Claro que podem! Com o tempo! E no tempo narrativo, a soltura da Lula-Lelé em Nova York não está distante da chegada de Reggie à base na Antártida. E mesmo assim, lá está um Ozy completamente mudado! Não dá para aceitar.

Outra imensa surpresa veio com a aparição de Imra Ardeen (não nomeada, mas… mesmo assim) no final da história. A questão é: o que Satúrnia (Moça de Saturno) tem a ver com essa “dança das cadeiras de vigilantes”? A relação dela com o Traça-amigo é real ou apenas uma projeção mental feita para libertar Reggie na hora certa? Será mesmo que GJ vai usar este Relógio do Apocalipse para trazer a Legião dos Super-Heróis de volta? De certeza mesmo, só sabemos que o Batman se deu conta que fez algo errado colocando o cara em Arkham — até Alfred entendeu isso! — e tudo indica que depois desse ponto de vista mais pessoal, teremos uma abertura de lente para os outros peões do jogo. Um jogo que ainda tem muita coisa para mostrar.

Doomsday Clock #4: Walk on Water — EUA, 28 de março de 2018
Roteiro: Geoff Johns
Arte: Gary Frank, Amie Brockway-Metcalf
Arte-final: Gary Frank
Cores: Brad Anderson
Letras: Rob Leigh
Capa: Gary Frank, Brad Anderson
Editoria: Brian Cunningham, Amedeo Turturro
30 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.