Crítica | Doomsday Clock #5: Não Existe Deus

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Quando os homens fazem deuses, não existe Deus!

Eugene O’Neill

Há SPOILERS! Leia a crítica de Watchmen aquiLeia as críticas de Antes de Watchmen aqui.E leia as críticas de todas as edições de Doomsday Clock aqui.

O lado negativo de Doomsday Clock ter sido transformada em uma série bimestral é que existe um grande número de detalhes que nos forçam a procurar as edições anteriores para ver se não perdemos nada do escopo narrativo de Geoff Johns, que, surpreendentemente, está fazendo um interessante trabalho com esta polêmica série, que se passa depois dos eventos de Watchmen. E para mim, muito mais do que a linha narrativa central, a série tem ganhado destaque pelas consequências que a fusão de mundos pode trazer para o Universo DC. É impossível ler uma edição dessas e não ficar animado ou impressionado pela forma como o autor está puxando pontas dos lugares mais empoeirados da editora e, bem ou mal, fazendo de tudo para uni-las organicamente nesta nova saga.

Se formos pensar unicamente pelo lado de avanço do principal núcleo da história, este capítulo 5 poderia ser classificado como “emperrado”, por leitores mais apressados. A questão, porém, ultrapassa a missão de Ozymandias em nosso Universo e prepara o terreno para uma série de outras coisas importantes tanto para esta série, quanto para a linha corrente de publicações da DC em safras posteriores. Na superfície, seguem-se os desdobramentos rápidos do ataque a Lex Luthor. No texto, isso é totalmente subtraído de suavidade, na forma como se liga a outros blocos, indo, aos borbotões, para um destino que a gente não sabe qual. No todo, não se trata de uma iniciativa ruim do roteiro, mas convenhamos que para um andamento tão cheio de mistérios, com tantos personagens, tantas possibilidades, tantas teorias e dúvidas que demorarão meses para serem respondidas, uma passagem menos abrupta entre eventos com este peso seria bem-vinda, até porque daria tempo para contextualizar o que ocorre, não ficando apenas nos diálogos misteriosos.

Por outro lado, a ligação de Ozy com Batman e a recolocação da Superman Theory — já apresentada na série, esta teoria afirma que existem todos esses super-heróis e super-vilões nos Estados Unidos porque foi o governo americano que os criou, sendo esta a verdadeira “origem secreta” de tais personagens, começando por Metamorfo (Rex Mason) e Morcego Humano (Robert Kirkland Langstrom) — trazem excelentes momentos de ação e suspense, fazendo um paralelo social e ideológico do Universo Watchmen com o Universo corrente da DC, prestes a uma grande ruptura. E com efeito, existe uma tragédia de grandes proporções se preparando para acontecer aqui.

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Com a ampla divulgação midiática dessa Teoria do Superman (que, pasme, parece que é verdade mesmo!), o aproveitamento de querelas recentes entre heróis, população e Estado; mais as brigas diplomáticas à beira de rompimentos permanentes, não é de se espantar que a resposta das nações fosse precipitada, como é de praxe nesse tipo de cenário. E aqui, Johns cria uma ótima aproximação de situações geopolíticas com o mundo da ficção e com o nosso mundo, especialmente agora, com os Estados Unidos em um caos de percepção externa e interna, diante da administração trôpega e risível de Trump. Com esse gancho na realidade, o roteiro também explora as manifestações populares e anti-heroicas, ressaltando que a mídia e a alienada opinião pública estão “pedindo a cabeça” dos super-heróis, que começam a ser perseguidos, situação piorada pelo fato de outros países darem a “resposta à altura para a audácia dos EUA em criarem seus heróis como um meio de proteção contra membros da comunidade internacional“. Muitas coincidências, muita pós-verdade, muitas notícias falsas e muita vontade irresponsável da população em querer resolver tudo via violência. Faz todo sentido que este seja o bloco “visto de cima” pelo Morcego e por Ozymandias, com um retrato da América.

Nas ações paralelas, outros choques, e talvez os mais interessantes que esta edição nos traz. As cenas de caos com Mímico e Marionette em busca do Coringa; e de Rorschach e Moça de Saturno em busca de “uma luz maior” — encontrando-se com um Johnny Trovoada de 102 anos de idade — são promissores em tudo, porque completam o ciclo de ações sociais, heroicas e vilanescas que “só” apontam para o retorno da Sociedade da Justiça da América, para a ação de Adão Negro ajudando indivíduos com super-poderes, para uma possível Liga da Justiça Europa e talvez para (enfim!) a presença de um certo Doutor Azulão que ainda não deu as caras, de verdade, nessa minissérie. Graficamente intocável (o trabalho de diagramação, representação de violência e respeito à base artística original feito por Gary Frank e Amie Brockway-Metcalf não cansa de impressionar) e com um roteiro que só erra brevemente na passagem entre eventos, Relógio do Apocalipse avança a passos largos para algo grande, a despeito de todos os enigmas ainda sem resposta. Todavia, a luz se fez. A velha Lanterna foi encontrada. Será que Alan Scott é a próxima peça do quebra-cabeça a ser colocada no painel geral?

Doomsday Clock #5: There Is No God — EUA, 30 de maio de 2018
Roteiro: Geoff Johns
Arte: Gary Frank, Amie Brockway-Metcalf
Arte-final: Gary Frank
Cores: Brad Anderson
Letras: Rob Leigh
Capa: Gary Frank, Brad Anderson
Editoria: Brian Cunningham, Amedeo Turturro
30 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.