Crítica | Doutor Estranho #1 a 5: O Caminho do Estranho (2015)

estrelas 5,0

Stephen Vincent Strange é um personagem imaginado por Stan Lee e Steve Ditko, o Mago Supremo da Marvel pode ser considerado um dos personagens mais exóticos de toda a editora. Devido a toda essa excentricidade, tornou-se cada vez mais raro ver títulos recentes do herói sendo publicados pela casa das idéias. Criar um bom arco para o Estranho não exige apenas uma boa narrativa, explorando todas as camadas do universo, para esse quadrinho ter êxito deve-se também encontrar um tom certo para a sua arte. O grupo criativo tem que surfar em toda a viagem que o personagem permite, porém, se explorar muito esse êxtase criativo, podemos ter uma HQ mais maluca do que profunda.

O Universo Cinematográfico Marvel tem dado as mãos para os quadrinhos a fim de ambos caminharem juntos, um reforçando o outro em seu público. O filme do mago será lançado em novembro de 2016, e para gerar uma expectativa mais elevada para o longa, a editora decidiu lançar um título solo do Doutor Estranho. Essa temida tarefa caiu nas mãos de Jason Aaron, roteiro, e Chris Bachalo, arte.

O quadrinho começa com um pequeno flashback narrado por Steven, o roteiro de Aaron prefere mostrar um pouco da origem do personagem. Isso faz sentido, já que ele não é um herói que está com todos os holofotes ligados em sua direção, porém ele não faz questão dos detalhes, é claro que aquilo está ali para situar novos leitores, e não agredir e entediar os antigos. Já na segunda página, com o passado esclarecido, Jason pode começar a desenvolver o futuro.

O mundo da magia esta desequilibrado, seres que não pertencem a nossa dimensão estão invadindo essa realidade e criando instabilidade nela. É claro que para os humanos tudo parece normal, todavia o Mago Supremo nota que há algo, ou alguém que está fazendo toda a bagunça. O responsável por tudo isso é o exercito chamado Empirikul, liderados por um cientista, um grupo de antagonistas que, pasmem, não utilizam da magia para realizar suas maldades, eles buscam apenas a destruição de todo o sobrenatural por meio da tecnologia.

Colocar o irreal em um embate com a ciência é uma decisão muito assertiva do roteiro de Aaron, o autor traz um dilema do nosso mundo e o coloca com maestria dentro da ficção. Além de escrever muito bem o lado da magia desse conflito, Jason dá uma motivação plausível para o antagonista dessa história. Temos um vilão que não é mal porque simplesmente decidiu ser, toda a razão da crueldade é justificada conforme o arco se desenvolve.

Um dos meus primeiros questionamentos foi, “como o roteiro vai fazer com que o público sinta falta de algo que ele não conhece?”. A história lida com uma realidade totalmente nova para a maioria dos recentes leitores de histórias em quadrinhos. O título é vendido para um receptor que não tem nenhuma relação afetiva com o mundo da magia de Doutor Estranho, então como que o sentimento de Steven se transformará na dor do leitor?

Aaron consegue resolver esse desafio. Se o leitor não conhece esse universo, ele conhece o seu senhor Supremo. Toda a aflição de Estranho vira a dor do leitor, a perda do seu “reino” traz uma aflição ao protagonista que é tão bem desenvolvida que o público sente saudade de um mundo que nem era o seu lugar comum.

Além disso, o roteiro desenvolve algo que não é rotineiro vermos nas histórias do Doutor, ser o Mago Supremo de uma realidade é um fardo que não é nada leve, lidar com todo o tipo de ameaça sobrenatural em seu dia a dia cobra um preço que Steven não pode sustentar sozinho. Para piorar Estranho não possui o reconhecimento que lhe é devido, sendo confundido com um mendigo maluco diversas vezes. Todo esse peso é transformado em uma subtrama muito interessante, que acaba sendo muito bem desenvolvido pelo autor até o final da HQ.

Não apenas a história é desenvolvida a partir da segunda página da primeira. Chris Bachalo insere, no flashback, painéis criados por Steve Ditko, a origem do personagem é mostrada pelas mãos de um dos seus criadores. É só na página seguinte que vemos uma explosão de cores e traços surgindo na HQ.

O papel da arte dentro dos quadrinhos é essencial, se o roteiro tem a função de guiar a história, os pincéis possuem a tarefa de fazer com que a experiência do leitor seja mais imersiva. Para se ter uma bom arco, o escritor e o desenhistas devem ter um bom trabalho de entrosamento. Em The Way of the Weird, vemos um ótimo exemplo dessa arte em conjunto.

Os traços de Bachalo podem muito bem ser definidos como uma arte Surrealista, a combinação do representativo, do abstrato, do irreal e do inconsciente, são os elementos perfeitos para se representar o universo magico do Doutor. Apelando nas cores fortes, cada painel trabalhado pelo desenhistas é digno de uma boa parada na leitura para admiração.

Toda a arte apresentada por Bachalo combina tanto com o personagem, que é uma pena que o visual escolhido pela Disney no filme do Doutor não seja algo parecido com os traços do quadrinho.

Toda essa explosão rima perfeitamente com o que roteiro quer contar. Quando estamos no mundo de Estranho, vemos cores fortes e misturadas, com traços orgânicos e leves. Já quando se trata de Empirikul, é mostrado algo mais mecânico, com cores neutras e com muitos brancos e pretos. Até o design escolhido para retratar o líder dos antagonistas é pautado no mínimo de cores possível, reforçando ainda mais o oposto que seu universo tem com o sobrenatural da magia.

The Way of the Weird é um arco que possui 5 edições. Posso afirmar que o quadrinho entrega muito do que o seu protagonista é. Bachalo e Aareon encontraram o tom balanceado que o personagem pede, construindo assim uma narrativa profunda e divertida.

Para todos os fãs de Steven fica a expectativa de que o MCU mostre algo feito com tanto esmero quanto os quadrinhos apresentaram, fazendo com que o Mago fique cada vez mais Supremo.

Doutor Estranho ( Doctor Strange: The Way of the Weird) — EUA, 2015/2016.
Roteiro: Jason Aaron
Arte: Chris Bachalo
Cores: Chris Bachalo
Letras: Core Petit
Editora original: Marvel Comics
Datas originais de publicação: 2015/2016
Editora no Brasil:  Não publicado no Brasil até a publicação da crítica
Páginas: 136 páginas.

PEDRO CUNHA . . . Com corpo e alma de Hobbit, sou um eterno Padawan e aprendiz. Amigo dos ursos, dos elfos e das águias. Nativo de Krypton e apreciador da sétima, nona e de TODAS as artes. Quando tentado sempre rebato; "sou um Jedi, como meu pai antes de mim".