Crítica | Doutor Estranho #169 a 173 (1968)

estrelas 3

O Doutor Estranho debutou como história secundária em Strange Tales #110, de julho de 1963 e lá permaneceu interruptamente a partir da edição #114, dividindo a publicação com o Tocha Humana até a edição #135, quando passou a dividí-la com Nick Fury. Mas sempre na condição de segunda história, de apenas oito ou nove páginas. Foi somente em junho de 1968, no número 169, que a Strange Tales teve seu título alterado para Doutor Estranho, mantendo-se, porém, a numeração. O Mago Supremo da Marvel ganharia, finalmente, seu título solo!  Infelizmente, porém, ele duraria pouco – somente 15 edições -, sendo cancelado na edição #183, de novembro de 1968.

Em sua publicação solo, o herói finalmente recebeu expansão para 20 páginas por número, permitindo mais espaço para o desenvolvimento narrativo e sobretudo para a arte que, no caso do Doutor Estranho conforme o desenho lisérgico de Steve Ditko, sempre pediu mais liberdade, mais splash pages. E é isso que vemos aqui, ainda que os roteiros de Roy Thomas não sejam particularmente brilhantes ou chamativos.

No primeiro número, o #169, Thomas faz um clássico jump-in point, ou seja, uma edição talhada para aqueles que querer passar a acompanhar o personagem. E como ele faz isso? Ora, da maneira mais óbvia, ao retrabalhar a origem do Doutor Estranho a partir do material visto em Strange Tales #115. Mas não esperem reinvenções. O que Stan Lee escreveu 54 edições atrás permanece intocado, ainda que Thomas tenha tido o cuidado de garantir uma expansão lógica da história ao primeiro abordar a vida de cirurgião de Stephen Strange antes de sofre o fatídico acidente que o levaria a encontrar-se com o Ancião. A história é contada em lembranças de Estranho em uma noite insone no lar de seu mestre e ela termina em um cliffhanger anunciando uma ameaça ao Ancião.

A referida ameaça é Pesadelo e a luta de Estranho contra seu primeiro vilão reflete o que vimos na primeira aparição do herói, em Strange Tales #1110. A narrativa, porém, é uniforme e sem maiores arroubos de criatividade. O show fica mesmo por conta de Dan Adkins que desenha os dois números fortemente inspirado pelo estilo definidor de Ditko, mas com uma pegada um pouco mais sombria. Além disso, Adkins trabalha as páginas de maneira pouco ortodoxa para a época, quebrando-as não necessariamente em quadros, mas em seções paralelas e simétricas, criando belas progressões que eficientemente contam a história simplista de Thomas.

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Nos três números seguintes, que compõem um arco único, o Mago Supremo enfrenta seu arqui-inimigo Dormammu, que o atrai para a dimensão onde ficara exilado desde o final do longo arco de 17 números de Strange Tales #130 a #146. Roy Thomas também aproveita para trazer Clea de seu exílio e para reintroduzir Victoria Bentley na vida do herói, ambas como concorrentes por seu amor. Usando o poder mágico inerte de Bentley para penetrar na dimensão desconhecida onde estaria Clea depois de ser transportada para lá pelo Ancião para evitar que Umar, irmã de Dormammu, a matasse, o Doutor Estranho acaba enfrentando o próprio demônio extra-dimensional em mais uma batalha anti-climática e cheia de vazios bravados de um lado e de outro.

A verborragia de Roy Thomas, que parece emular o mesmo problema de Stan Lee escrevendo Doutor Estranho, ganha representação, no número 171, pelos desenhos de Tom Palmer, com arte-final de Dan Adkins. O resultado é fraco, pois Palmer é burocrático em seus traços, além de desenhar o herói de maneira um pouco desproporcional, gerando estranheza. Mesmo os momentos “Ditko” que Palmer tenta emular são marcadamente mais simplistas e pouco originais.

No entanto, o problema da arte é resolvido nos dois números seguintes, com a substituição de Palmer pelo ótimo Gene Colan, um dos grandes desenhistas de quadrinhos do final dos anos 60 e durante os anos 70. Ele mexe profundamente no estilo do Doutor Estranho, alterando a abordagem mais psicodélica de Ditko e Adkins por algo mais sombrio e detalhista. Saem as dimensões formadas por planetas e raios multi-coloridos, entram as dimensões repletas de fumaça, escuridão e elementos disformes. É como uma visão mais pessimista do mundo do Doutor Estranho, algo bem-vindo para trazer algum frescor às histórias do mago. Colan, aliás, ficaria até o cancelamento de Doutor Estranho, que só voltaria a ter uma edição solo quase na metade da década de 70.

Visualmente belos, mas narrativamente fracos, os cinco números iniciais da primeira publicação efetivamente solo do Doutor Estranho formam um conjunto heterogêneo que não empolga completamente até Colan entrar e quebrar o paradigma dos quadrinhos do herói.

Doutor Estranho #169 a 173 (Doctor Strange #169-173, EUA – 1968)
Roteiro: Roy Thomas
Arte: Dan Adkins (#169 e #170), Tom Palmer (#171), Gene Colan (#172 e #173)
Arte-final: Dan Adkins (#171), Tom Palmer (#172 e #173)
Letras: Artie Simek (#169 a #171 e #173), Irving Watanabe (#172)
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: junho a outubro de 1968
Páginas: 20 por edição

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.